| De:
Agnaldo Farias
Data: Wednesday, July 20, 2005 11:02 AM
Assunto: Carta à Ruth Zein
Prezada Ruth Verde
Zein,
Suas argumentações
são, como de hábito, muito bem formuladas mas dessa vez,
no tocante a sua pertinente análise da situação
do MASP, ficou-me a impressão que você deixa de lado uma
questão crucial, qual seja, o fato do museu andar a deriva no
plano da sua condução curatorial. Do modo como está
o viés utilizado por você fica demasiado arquitetônico,
sem atentar para o problema particular de um museu sem alma porquanto
não tem quem pense no seu rumo, no que deve fazer, em quais frentes
deve agir, no como e no quê exibir de modo a atrair a população
para si. E a conduta alvar da sua diretoria, ocupada em erigir essa
torre equívoca, talvez não o fosse se ela não significasse
o abandono do museu por mais uma década pelo menos, consagra
o aspecto pior de se pensar numa instituição pelo ângulo
da sua edificação e os dividendos automáticos que
pretensamente ela pode extrair daí.
A meu ver aquilo
a que você se refere como o tempo das vacas gordas já não
o era. As tais mega-exposições - Dali, Monet etc, apenas
refletiam a absoluta falta de critério ou, por outra, de uma
direção que tem por critério exclusivamente a efêmera
atenção da mídia. De há muito, a rigor por
volta de dez anos, quando o MASP, no que contrariou uma regra elementar,
achou que podia passar sem curador, a instituição abandonou
qualquer dimensão propositiva para se acomodar no vergonhoso
e secundário papel de guichê de luxo.
Não há
problema com o edificio de Lina Bo Bardi, ainda que algumas modificações
discutíveis tenham sido realizadas nele e outras possam ser feitas.
Por vezes fico arrepiado com a defesa de aspectos tão estritamente
arquitetônicos, e você menciona certas condutas preciosistas,
deixando de lado a coleção e mesmo o extraordinário
histórico da ação desse museu em relação
a cultura do nosso país. Não há como não
pensar nos perigos que rondam a arquitetura quando ela assume uma postura
tão dissociada. O problema, insisto, é que o MASP está
acéfalo e isto, acima de tudo, quer dizer que a maior coleção
da América Latina está sob os cuidados de mãos
indevidas, ao menos no que se refere a conservá-la (não
no sentido pedestre do termo), estudá-la, o que também
significa exibi-la, deixando ressoar por si ou em contato com outras
produções de outros tempos e espaços. O problema
da arquitetura, se quiser ter a mesma relevância da intervenção
do Rogers e Piano no Beaubourg, Pei no Louvre, do Gehry em Bilbao, entre
outros tantos exemplos, passa pela compreensão do lugar da arte
no mundo de hoje e das estratégias de levá-la ao maior
público possível.
Colocando-me à
sua disposição para uma conversa mais aprofundada, despeço-me
apresentando meus cumprimentos e admiração por sua infatigável
competência no enfrentamento de alguns dos pontos mais sensíveis
da nossa vida cultural.
Cordialmente,
[Agnaldo Farias, arquiteto
e crítico de arte, São Paulo SP]
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