De: Aldo Paviani
Data: Monday, August 08, 2005 4:47 PM
Assunto: Santa Maria / Minha Cidade!!!

Muito interessante o que Fábio Müller denuncia, sobre o desrepeito ao patrimônio histórico de Santa Maria (RS) ou "Cidade-Coração do RGS" (por vezes também denominada "Cidade Sorriso"). Penso que, com o artigo de Fábio, os responsáveis pela res-pública de SM venham em socorro do que, velozmente possa ser dilapidado pelos "agentes imobiliários". Sou gaúcho do Erechim, onde ocorreu e ocorre algo assemelhado (em uma cidade típica rádio-concêntrica do início do século XX), com a derrubada de edificações dos anos 30 ou 40, com fachadas clássicas e gabaritos unificados. Todavia, fazendo uma triangulação Erechim-Porto Alegre-Santa Maria, migrei para Santa Maria e nela residi por quase dez anos. Colaborei com os que contruiram a USM, hoje UFSM, fazendo parte dos organizadores do Departamento de Geografia. Fui também professor em faculdades particulares e em escolas públicas, como o Colégio Estadual"Manoel Ribas", o velho Maneco (digno, talvez de ser preservado pelo que representou na educação de muitos santamarienses).

Nos anos 1960, a preocupação dos geógrafos era a área de influência da cidade. Não havia, ainda, preeocupação com o patrimônio histórico. Lembro da luta para impedir que continuassem a retirada de basalto da escarpa do planalto (a "serra"), cuja ferida aberta pela enorme pedreira tirava o encanto do manto verde que recobria a a face norte da cidade. À época, mal iniciava a construção de edifícios com elevador (Edifícios Pisani, Mauá, Taperinha, Galeria do Comércio) e os prédios antigos permaneceram intocados. Hoje, segundo o importante registro de Fábio Müller, há riscos de perdas, como está perdida a edificação histórica da Sotéia e do parque ferroviário. Assim, vejo grande mérito no chamamento para a preservação do patrimônio histórico de Santa Maria por parte de Fábio Müller. Apenas, diria não ter ficado claro se o Plano Diretor (PD) foi aprovado ou se ainda está em discussão. A partir de seu artigo, talvez, os profissionais da área, arquitetos, historiadores, geógrafos e outros, pertencentes ou não aos quadros da UFSM, possam levantar questões e inserir no PD cláusulas duras para defender aquilo que representa o passado da cidade e, mesmo recuperar aquilo que já foi a vida da cidade, como o entroncamento e todo o complexo ferroviário, hoje sucateado. Ademais, as considerações teóricas de Fábio Müller o fazem merecedor de elogios por sua preocupação intelectual. Acredito que pense também na apropriação social daquilo que, na cidade, foi socialmente construído por muitos e muitos anos.

[Aldo Paviani, geógrafo e professor da UnB, Brasília DF]