| De:
Rafael Lopes Azize
Data: Tuesday, April 04, 2006 2:48 PM
Assunto: Artigo 139 - comentário
Caro Michel Gorsky,
Cheguei ao seu texto
sobre o minhocão por acaso, numa pesquisa. Pelas reações
dos seus colegas, constato, uma vez mais, o quanto os lobbies das montadoras
de automóveis colonizaram a imaginação dos arquitetos.
Parte-se do princípio de que a opção exclusiva
pelos automóveis privados nem sequer opção é:
é a ordem natural das coisas. Ora, como dizia Jane Jacobs e já
antes dela nos lembrava Max Weber, as cidades são outra coisa
que não aqueles protótipos corbusieristas de zonas monofuncionais
- são patchworks em que cada pedaço espelha o todo. Ou
melhor: eram, e deveriam voltar a ser. Aqui em Florianópolis,
um dos lugares mais tristes do Brasil para se viver neste momento, revivem-se
todos os erros que nos anos 60 se cometeram em SP, mas muito mais aceleradamente
e numa sociedade civil completamente ignorante acerca do que se abate
sobre ela. Zoneamento, investimento exclusivo em asfalto, especulação
imobiliária desesperada a expulsar a patuléia local para
o raio que os parta, montagem de "bocas" sedentárias
à la Zona Sul do Rio, multiplicação de grandes
superfícies de comércio, festa de condomínios horizontais.
E talvez o pior: começam-se a construir viadutos. Quando se argumenta
contra essas aberrações, o que se vê são
olhares incrédulos: por que ir contra obras que facilitam o trânsito?
Pois acho que é preciso ser mais claro: deve-se ir contra qualquer
coisa que incentive a proliferação de automóveis.
Qualquer coisa. Facilita o trânsito? É ruim. Ponto. Por
que? Porque implica investimento público em locomoção
privada. Porque automóveis são poluentes, barulhentos,
inseguros, insustentáveis a longo prazo e diminuem drasticamente
a caminhabilidade da cidade. Porque autopistas não se integram
à cidade: rasgam-na. E, last but not least, porque temos muitas
outras opções antes dessa: ferry-boats, bondes modernos,
trens de superfície, hidrovias, ciclovias e até mesmo
ônubus. Não se trata de ir contra os automóveis:
trata-se de pô-los no fim da fila das opções em
termos de infraestrutura. Voilà.
Um dos mais importantes
aspectos da nossa covardia cívica é a maneira como se
moldam as nossas cidades, completamente à revelia de manifestações
daqueles que sofrerão os efeitos quotidianos dessas manipulações.
Já era hora de sairmos às ruas - e não para "pedir
paz".
Atencisamente,
[Rafael Azize, Florianópolis
SC]
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