De: Gilson de Carvalho
Data: Tuesday, May 09, 2006 1:54 PM
Assunto: Nós demolimos o Minhocão!

Meus caros colegas,

Achei e li um dia depois do anúncio do resultado do concurso de Propostas para o Elevado Costa e Silva (Minhocão), a excelente matéria no Vitruvius "Minha Cidade 139" (Abaixo o elevado...) de Michel Gorski! Somos solidários a idéia do desmonte do Minhocão como forma definitiva de revitalização local e da cidade. Sentimos muito que a maioria dos colegas arquitetos tenham insistido na idéia de reforma, maquiagem, mudança de uso, automóveis em primeiro lugar, sei lá, e perdendo a oportunidade de uma posição técnica e política para o caso. De qualquer forma, nós demolimos o Minhocão! Gostaríamos de participar do Fórum de Debates e anexamos nossa proposta para a discussão!

Abraços

[Gilson de Carvalho, Vertente Associados, São Paulo SP]


Prêmio Prestes Maia de Urbanismo 2006
Gilson de Carvalho
e equipe

Introdução

O atual elevado é uma cicatriz urbana que deve ser removida para que o novo centro requalificado se torne uma realidade possível. Apesar de ser uma importante ligação expressa entre a Zona Leste e a Zona Oeste, com conexão até a Zona Sul, pode ser demolido com uma alternativa viável para absorver o trânsito de suas duas faixas de cada um de seus sentidos.

Os cidadãos da cidade de São Paulo que utilizam o elevado têm o traçado deste fluxo viário acomodado em sua compreensão da cidade, o caminho já está construído em seu inconsciente.

Considerando todas estas questões o presente trabalho manteve o caminho no traçado do da via elevada, porém trouxe o fluxo dos automóveis a sua cota natural térrea.

O Eixo Leste – Oeste revitalizado racionaliza os cruzamentos diminuindo o trânsito, porém não os abole, apenas os potencializa a fim de permeabilizar o fluxo também no sentido bairro, pois, já que circulação gera negócios, este é o melhor meio de incentivar os térreos comerciais e assim criar não apenas um novo eixo, mas uma malha urbanisticamente requalificada.

Para o pedestre implementamos o uso de passarelas e terraços, que são meios de conexão e marcos referenciais, ao longo dos eixos viários.

O Eixo Leste – Oeste assentado no nível térreo gerava neste momento um conflito de ocupação: Bem no meio do eixo de circulação de carros atual está localizado o Terminai de Ônibus Santa Cecília, que utiliza como cobertura a atual via elevada.

E no centro da discussão surge o questionamento: E o lazer de domingo?

A cidade carente de lazer perderia sua "praça estendida", o elevado, e o cidadão carente de transporte perderia seu terminal!

Porém estas são questões que um bom projeto de Arquitetura ainda pode resolver.

No coração do Projeto os eixos das Avenidas São João e Duque de Caxias e a Rua Amaral Gurgel apontavam para a quadra que seria o marco do eixo Leste-Oeste.

E o 'lazer sobre a pedra", sobre o atual elevado, será reestruturado, e seu novo terminal contribuirá novamente com a cidadania do morador de São Paulo.

Sistema Viário

O Elevado Costa e Silva è hoje uma cicatriz na cidade de São Paulo, pois com o passar dos anos gerou um processo de degradação urbana ao longo de seus 2,8 km.

Com a retirada desta obra, temos o desafio de transferir e absorver todo o seu fluxo veicular para o sistema viário resultante. Para tanto, com a retirada do Minhocão, seriam criadas mais uma faixa de rolamento em cada sentido, e as faixas de circulação exclusiva de ônibus seriam deslocadas para a direita da via, evitando assim as tão perigosas travessias de pedestres para acesso aos pontos de embarque e desembarque de coletivos.

Verificamos também que a grande maioria das transversais ao eixo principal atravessam o mesmo, causando uma lentidão devido ao pouco espaço de acomodação de veículos junto aos semáforos, e para tanto decidimos remover algumas destas travessias. Os cruzamentos que continuarão semaforizados são no sentido oeste-leste, Mário de Andrade, Lopes de Oliveira, Albuquerque Lins, Glete. Marquês de Itú e Major Sertório. Todas as outras vias que hoje cruzam o eixo principal, somente terão acesso ao mesmo em um único sentido sem atravessar.

Para evitar interrupções por cruzamentos e semáforos e garantir um fluxo satisfatório, serão construídas duas passagens subterrâneas para o complemento do projeto. Uma na avenida Angélica que se inicia junto a rua Brigadeiro Galvão e termina junto a rua das Palmeiras, tornando esta rua neste ponto integrada a praça Marechal Deodoro, e somente recebendo o fluxo veicular junto a rua Pirineus e seguindo até a rua Amaral Gurgel. A outra liga as duas faixas mais a esquerda da avenida São João a nova extensão da rua Amaral Gurgel, nos dois sentidos, mantendo ainda duas faixas de rolamento da avenida São João, sendo uma delas de circulação exclusiva, seguindo direto nos sentidos Bairro-Centro e Centro-Bairro.

Como já acontece hoje não existem ônibus que acessem a rua da Consolação pela rua Amaral Gurgel. e este acesso se dará pela avenida São João até a rua Pedro Américo, praça da República, rua Araújo e finalmente avenida Ipiranga, aliviando os fluxos tanto da rua Major Sertório como da rua Marquês de Itu.

Serão intensificados também as opções de tráfego secundárias que são no sentido leste-oeste à rua Rego Freitas, avenida Duque de Caxias, rua Barão de Campinas, rua Carvalho de Mendonça e rua Brigadeiro Galvão. No sentido inverso, elas são alameda Sarros e rua Frederico Abranches.

A rua Frederico Steidel e quadras adjacentes serão desapropriadas para utilidade pública, em toda a sua extensão, para a implantação de um Centro de Lazer e Cidadania. Os imóveis existentes naquelas quadras já estão em acentuado grau de degradação, o que justifica essa nova proposta.

Projeto Lazer e Cidadania

As quadras entre a Av. São João, Av. Duque de Caxias e Rua Amaral Gurgel foram escolhidas pra implantação do PROJETO LAZER E CIDADANIA, projeto este que tem a intenção de contribuir com uma área onde o pedestre seja privilegiado, requalifique seu entorno e que valorize seus eixos históricos e de identidade da cidade, tornando-se um marco arquitetônico.

O Partido

A quadra está como que sendo apontada pela Av. Duque de Caxias e ainda uma de suas faces está voltada para a Av. São João que carrega consigo uma parte da identidade dos cidadãos de São Paulo. Na composição do partido ainda há o eixo Leste – Oeste revitalizado e o caminho do terminal de ônibus do metro Santa Cecília em direção à quadra do projeto.

Os dois pavilhões de uso misto marcam as avenidas Duque de Caxias e São João, porém, mantém limpas e valorizadas as perspectivas visuais destes importantes eixos, além de criarem permeabilidade através de praça interna.

O edifício mais alto, destinado a esporte e cultura, adensa atividades no sentido de privilegiar o potencial construtivo próprio da região central, e ainda mantém seu "olho" voltado para a avenida que hoje está para a cidade como um novo eixo cultural e de cidadania, a avenida Duque de Caxias, que concentra em sua extensão a Nova Sala São Paulo, antigo DOPS (atual Estação Pinacoteca), a escola de música Tom Jobim, Estação da Luz com seu parque requalificado e a Pinacoteca revalorizada, apenas para citar!

O Pedestre

Tirando partido do trecho em subsolo necessário ao Eixo Leste – Oeste, nesta área do projeto foi criado o boulevard que permeia uma ligação para o pedestre desde a Rua das Palmeiras até a avenida Duque de Caxias e avenida São João.

Neste deste eixo de circulação para as pessoas a Praça de Convivência é também local de privilégio do pedestre que pode ocupá-la tanto em seus térreos comerciais como apenas no seu espaço interno, protegidos das avenidas pêlos edifícios de menor gabarito de altura.

O Lazer e a Cidadania

Na face de quadra que está na Rua das Palmeiras estão implantados o novo Terminal de ônibus Santa Cecília e a estação de Metro Santa Cecília, que se manterão conectadas, como hoje ocorre, para viabilizar a transferência entre transportes coletivos por acesso único conforme planejamento da atual administração da cidade.

Estes equipamentos estarão conectados ao projeto através do boulevard sobre o eixo Leste-Oeste, sendo que neste boulevard uma massa verde terá função de praça de contemplação e pista de Cooper, caminhadas e equipamentos esportivos compatíveis com sua vocação, disponibilizando o lazer para o cidadão.

O Marco

O conjunto de atividades que se fixarão nesta área criará um marco Arquitetônico, de circulação e ocupação, para o pedestre que segue seu caminho desde o transporte público até a Praça de Convivência sem obstáculos. Também um marco quando implanta um projeto que leva em consideração a potencialidade econômica da região, porém interferindo de maneira positiva em duas vias de identidade para o cidadão paulistano.

Outro efeito desta criação é que passa a existir uma área verde no centro da cidade, que já é tão carente de parques e áreas de lazer, e esta área se conecta espacialmente pelo eixo Leste -Oeste e visualmente através de seu edifício “olho", aos marcos nas pontas do eixo: a Leste a Igreja Nossa Senhora da Consolação, e a Oeste a Igreja de São Geraldo e o Largo Padre Péricles.