| De:
Euclides Oliveira
Data: Wednesday, May 10, 2006 11:50 AM
Assunto: Elevado Costa e Silva (minhocão)
Prezado Michel, quantas
vezes não fiz grandes programas noturnos na Amaral Gurgel, na época
"pré-minhocão", indo ao teatro (o Paiol?) e depois jantando
no La Cocagne! Depois de sua construção nunca mais andei por aquelas
bandas, como você bem constatou, a região tornou-se um dos espaços mais
anti-urbanos e perigosos da cidade.
Eu também não acho
que haja solução viária baseada no transporte individual para São Paulo;
o automóvel e sua infra-estrutura necessária já levaram a cidade ao
limite da degradação urbana suportável. É ele, igualmente, o responsável
pela invasão contínua das áreas rurais e silvestres adjacentes a nossa
metrópole, por loteamentos suburbanos e condomínios fechados que destroem
a boa relação espacial cidade-campo e levam consigo a poluição do ar
e a decadência ambiental. Não nos esqueçamos do Protocolo de Kyoto,
que nos adverte que a nossa atmosfera não suportará, por muito tempo,
a atual emissão de gazes e que o nosso próprio futuro neste planeta
está ameaçado pela destruição desmedida da natureza pelo homem.
Mas, se parece tão
óbvia a opção pelo transporte coletivo (metrô, ônibus e mesmo bonde),
por que nossos administradores públicos não tomam as medidas cabíveis
neste caso? A resposta é simples, temem desagradar as classes média
e alta e o lobby da indústria automobilística, perdendo assim seus preciosos
votos; mas esta situação não pode perdurar para sempre, uma hora haverá
de aparecer um governante responsável que lance as bases de uma verdadeira
política de transporte urbano que privilegie de maneira insofismável
o que é público em detrimento do que é particular. Passo a enumerar
algumas medidas que me ocorrem, que poderiam alterar a atual feição
dos meios de transporte na cidade:
1 – Suspender-se
qualquer tipo de obra viária que vise favorecer o transporte individual,
tais como novas avenidas, túneis e viadutos, pistas extras nas marginais,
etc., priorizando-se apenas a construção de corredores de ônibus.
Os engarrafamentos de trânsito causados por esta medida desencorajariam,
com certeza, o uso do automóvel. Um rodízio mais efetivo do que o
atual também poderia ser útil, no caso.
2 – Ampliar-se significativamente
a rede do metrô; começamos a construir o nosso ao mesmo tempo do que
o da Cidade do México (também metrópole de 3º mundo) e hoje temos
cerca de quarenta estações em nossas linhas enquanto que as dos mexicanos
contam com mais de duzentas (que vergonha!). Acho, inclusive, que
o Governo Federal, e não apenas o Estadual e o Municipal, deveria
prover recursos para a ampliação das redes de metrô das principais
metrópoles do país e sua integração com as ferrovias suburbanas.
3 – Reestudar-se
a sério a volta do uso do bonde em determinadas regiões da cidade.
4 – Mais prosaicamente,
permitir-se o estacionamento de veículos em ambos os lados das vias
públicas. Tal medida, além de afunilar o trânsito de automóveis (desejável),
traria maior proteção ao pedestre nas calçadas, pois desta maneira
seria formada uma barreira física entre este e a rua. E por falar
nisto, precisamos muito, mas muito mesmo, de mais faróis e faixas
de pedestres nesta cidade; nela, morrem atropelados mais de dois cidadãos
por dia, cerca de oitocentos por ano, um verdadeiro absurdo.
5 – Os Códigos de
Obras deveriam deixar de exigir vagas para estacionamento em edifícios
para escritórios e congêneres e até mesmo para o comércio e lazer;
construiriam garagens apenas os que assim o desejassem. O Fórum Internacional
de Tóquio, para dezenas de milhares de freqüentadores, conta com apenas
quarenta vagas para automóveis e em Viena vai-se a Ópera de metrô.
6 – Criarem-se mais
ruas de pedestres nos centros de bairro e instituir-se a cobrança
de pedágio para o veículo individual no centro histórico da cidade.
E melhorarem-se de vez as frotas de ônibus, meu Deus, cujas empresas
proprietárias formam, como é de conhecimento público, uma verdadeira
máfia que põe na rua veículos com quinze anos de idade ou mais.
Estas medidas não
precisariam ser implantadas do dia para a noite, mas ao longo dos anos,
desde que fundamentadas por uma sólida política de transporte coletivo
para a cidade de São Paulo. Assim poderíamos derrubar o minhocão e outros
viadutos que, definitivamente, não deveriam fazer parte da paisagem
urbana; por outro lado, tentaríamos substituir algumas das pontes medonhas
que existem hoje sobre os rios Tietê e Pinheiros, por "obras de
arte" sabiamente projetadas...
[Euclides Oliveira,
arquiteto, São Paulo SP] |