De: Mauricio Tuck Schneider
Data: Friday, June 02, 2006 9:34 AM
Assunto: Minhocão

Srs., inicialmente devo dizer que relutei em lhes endereçar estas minhas considerações: a condição de participante ao concurso patrocinado pela PMSP, poderia tornar as mesmas como despeito de mau perdedor e ponderações aos aspéctos negativos do projeto vencedor e aos critérios do juri poderiam parecer anotações anti éticas.

Entretanto, a condição de arquiteto com compromisso com sua cidade e o passado amplamente conhecido de quase cincoenta anos de prática profisional me isentam das possiveis ponderações apontadas.

Devo iniciar por três observações, uma com respeito ao juri e duas outras com respeito aos participantes. A temática do concurso observava "uma cicatriz marca a cidade". A presença de grande número de concorrentes (embora a retirada, a meu ver indevida do IAB do patrocínio), demonstraria o interesse e o grau de envolvimento da classe com a busca de uma solução para a reconhecida cicatriz.

Entretanto, frustante foi o fato de, tanto o juri como a maioria dos concorrentes privilegiarem a manutenção da cicatriz, buscando o primeiro aquinhoar a solução que dotava a cicatriz com o esparadrapo mais sofisticado e a maioria dos segundos se torturando na busca de, aceitando a cicatriz, enfeita-la- ignorando a tremenda deteriorização que a mesma ocasionou ao seu entorno e à própria cidade.

A solução premiada, felizmente em concurso previamente anunciado como non aedificandi, tem buscado, com a ajuda de membros do juri torna-la em aedificandi, o que no nosso entender seria um crime para a cidade: a cicatriz tornar-se-ia um cancer.

O minhocão em sua situação atual, recobrindo setenta por cento da largura da avenida São João, torna a mesma uma zona de penumbra durante o dia e uma via de trafego de pdestres nulo à noite, pela visão tenebrosa e ameaçadora.

Em sua parte aérea, tem uma proximidade quase criminosa com os moradores dos prédios seus limítrofes (em sua grande maioria edifícios sem recuo). Esta proximidade afeta os primeiros e segundos pavimentos destes edifícios. Todos estes gravames são aprofundados no projeto vencedor: os moradores- agora não somente dos dois primeiros pavimentos, mas também os dos dois seguintes seriam perturbados em sua intimidade pela bisbilhotice ao alcance da mão.

No intesse da cidade, acho o presente debate oportuno e a cidade merecedora do mesmo, e, apenas no intuito de mantê-lo aceso, envio minha proposta submetida ao concurso, acrescentando que a mesma pode não ser a melhor, porém certamente conduziria o debate para outro terreno.

Atenciosamente

[Mauricio Tuck Schneider, arquiteto, São Paulo SP]


Prêmio Prestes Maia de Urbanismo 2006
Mauricio Tuck Schneider e equipe

Prêmio Prestes Maia de Urbanismo 2006. Uma cicatriz marca a cidade: soluções para o elevado

A solução óbvia.

É inescapável a constatação de que o minhocão, a par de ser esteticamente de qualidade inferior, causou profunda degradação a uma das principais vias da cidade de São Paulo.


Proposta para Prêmio Prestes Maia de 2006, intervenção no Minhocão, arquiteto Mauricio Tuck Schneider

Por outro lado, é forçoso reconhecer que desde 1971 aos nossos dias a cidade cresceu, sua população aumentou em grande proporção, assim como foi acompanhada por enorme incremento no número de veículos em circulação.

Se o espaço público carroçável já era insuficiente à época – fato que determinou a construção da obra de arte (?) em pauta – hoje o sistema viário existente na cidade se mostra dramaticamente sobrecarregado, tornando a solução simplista da desobstrução por demolição, em lastimável perda de importante via de ligação leste-oeste, tornada vital para o funcionamento do município.

A solução a ser obtida deveria preservar esta importante conexão, restaurando a avenida deteriorada, tudo ao menor custo possível, suportável pelo erário municipal.

Afim de encaminharmos nossa proposta – uma solução óbvia – analisaremos a solução de desmonte do elevado, afim de preservando-se sua estrutura (elementos pré moldados) fazermos sua reconstrução em outro local, mantendo a ligação viária.

Esta solução embora viável seria perdulária economicamente: poucos logradouros teriam amplitude suficiente para recebê-la, e estaríamos transferindo os problemas da avenida São João para o novo traçado tendo ainda que optar entre mutilar elementos dos pré-moldados ou desapropriar propriedades para acomodá-la por inteiro, além de eventuais e necessárias adaptações estruturais por diferenças de traçado.

Entretanto esta solução seria perfeitamente econômica desde que o aproveitamento da estrutura do Minhocão pudesse ser totalmente reutilizada.


Proposta para Prêmio Prestes Maia de 2006, intervenção no Minhocão, arquiteto Mauricio Tuck Schneider

Este é o sentido de nossa óbvia solução: reaproveitar-se os vários elementos dos pré moldados, inclusive em seu traçado, trechos em linha reta, trechos em curva etc. enfim, reaproveitamento total da mesma.

Ora, esta notável coincidência somente poderia ocorrer para uma solução de desmonte e remonte no mesmo lugar. e, é precisamente esta nossa proposta: fazer-se o desmonte das vigas pré-moldadas e a demolição dos pilares suporte das mesmas. abrir-se, para exatamente o mesmo traçado atual, por sistema trincheira, vala com a profundidade necessária, construir-se lateralmente as paredes diafragma e finalmente reconstruindo-se os pilares de sustentação das vigas e recolocando as mesmas. o atual tabuleiro seria a pista de rolamento da avenida São João recomposta e sob a mesma, um túnel com o exato traçado que apresenta o atual Minhocão.

Assim, estaria preservada a ligação leste-oeste e ao mesmo tempo estaria devolvida a dignidade da avenida São João. as obras seriam complementadas ao nível de superfície por paisagismo que contemplaria corredores exclusivos de ônibus, colocação de quiosques variados de interesse local. canteiros arborizados, dariam um toque mais humanizado à nova avenida São João. ao nível do túnel, acabamento geral e das faixas de rolamento, aproveitando-se ainda, a abertura da vala para passar o cabeamento, aéreo atualmente, para subterrâneo. as várias alças de acessos para cada uma das direções seriam invertidas, deixariam de ser elevadas, para serem rampas de entrada e de saída da via subterrânea. ventilações seriam construídas na Praça Marechal Deodoro e no Largo do Arouche, garantindo a salubridade do túnel.

Duas possíveis interferências com a linha 4 – amarela – do metro, na altura da Avenida Duque de Caxias e na altura da rua rosa e silva, se já não estiverem pré-resolvidos pela profundidade da linha, seriam de fácil solução, visto a linha 4 não estar ainda construída, com ligeira modificação do grade da mesma na proximidade destes dois entroncamentos.

Esta proposta que soluciona os problemas de revitalização da Av. São João e reaproveitando a estrutura pré moldada do Minhocão, é simples e lógica, tendo reflexo no custo final da obra. torna-se evidente que a solução apresentada será, se cotejada com outras soluções, amplamente favorecida.