De: Euclides Oliveira
Data: Monday, June 05, 2006 12:18 PM
Assunto: Mensagem a Rodrigo Bergamo

Prezado colega Rodrigo Bergamo, li com atenção o seu texto acima e tenho, sobre ele, algumas observações a fazer:

1 - Os centros históricos fazem parte da memória física das cidades e sua recuperação é fundamental para a sua coesão urbana e para a identidade de seus habitantes; o maior vilão desta deteriorização que você, com toda a razão, aponta, é o automóvel, com a carga de sujeira, poluição ambiental, sonora e visual que traz consigo. É claro que existem outros fatores, como a migração das elites para as periferias, mas temos de aprender a aceitar que a renovação destes centros visa a atrair, para habitá-los, não os ricos, mas a pequena burguesia ligada a prestação de serviços, os empregados do comércio, profissionais liberais, etc., além de, é claro, a reciclagem dos edifícios de escritórios, comerciais, de lazer e cultura, hotéis, etc. Eles não podem e não devem serem pensados como um espaço predominantemente destinado às classes de maior poder aquisitivo, pois elas certamente não retornarão para as áreas centrais das cidades, devido ao seu modo peculiar de vida.

2 - Esta revitalização é possível, sim, com a concessão não apenas de facilidades para aqueles que nela investirem, mas com a criação de dificuldades de construção em outros locais que não interessem ao plano de expansão urbana da cidade, além do indispensável suporte financeiro do setor Público no processo. Mecanismos para a realização deste fim existem, mas é nescessária a vontade política de viabilizá-los. E trata-se de uma atuação que demandará não apenas anos, mas décadas, sendo imprescindível a sua continuidade por várias administrações consecutivas. A mobilização da população através de associações de moradores, amigos de bairro, etc. é importantíssima para cobrar esta continuidade dos políticos que vierem a ocupar a cadeira de prefeito desta cidade.

3 - Acho difícil um jardim linear, suspenso sobre uma imensa estrutura, a uns quinze metros do solo (como propõe a equipe vencedora do concurso) "pegar", além de nesta solução, persistirem os problemas atuais para os níveis dos prédios adjacentes inferiores ao do tabuleiro do elevado. Neste ponto, acho mais interessante o projeto do colega Mauricio Tuck Schneider, pois desafoga os prédios vizinhos ao "minhocão", mas a minha opinião, já manifestada anteriormente, é que não devemos mais despender recursos para melhorar a situação do transporte individual em São Paulo. Hoje em dia, na Alemanha e na Holanda, afunilam-se vias públicas propositalmente para que causem engarrafamentos de trânsito que desestimulem o uso do automóvel; um colega disse-me que, recentemente, a Prefeitura de Paris proibiu novos estacionamentos subterrâneos no centro (não os há na superfície) bem como a construção nele, de edifícios residenciais e comerciais com vagas para veículos. Como podemos ver, países que possuem meios de transporte coletivo eficientíssimos, continuam lutando para o abandono do uso corriqueiro do veículo particular, pelo transtorno geral que este causa, incluida, neste rol, a poluição assustadora da atmosfera do nosso planeta.

4 - É verdade que o "Minhocão" é patrimônio do povo de São Paulo, que o pagou com seus impostos, mas tenho certeza que poucos cidadãos ficarão infelizes com a sua demolição se for feita uma correta campanha de esclarecimento sobre o assunto. Repito que viadutos não deveriam jamais fazerem parte das paisagens urbanas.

Cordialmente

[Euclides Oliveira, arquiteto, São Paulo SP]