De: Marco Suassuna
Data: Monday, September 19, 2005 1:54 PM
Assunto: Reflexões a respeito do projeto para Estação Ciência, Cultura e Artes do arquiteto Oscar Niemeyer (ON) em João Pessoa-PB

Em homenagem aos seus quatrocentos e vinte anos de existência, a Prefeitura Municipal de João Pessoa anuncia a construção do edifício supra citado cujo autor do projeto é Oscar Niemeyer. Desde então, colegas arquitetos opinam sobre a escolha unilateral, questionando sobre a intenção do Prefeito, quando da sua campanha eleitoral, da realização de concursos públicos de idéias para projetos arquitetônicos em importantes setores da nossa cidade. Neste quadro gostaria de expor o meu ponto de vista, visando contribuir para o debate disciplinar e cultural que envolve tal situação. É preciso, primeiramente, discorrer sobre o renomado arquiteto Niemeyer que provocou ao meu ver, esta salutar inquietação a muito não vista no nosso ambiente arquitetural. Pois bem, nas palavras de alguns dos melhores arquitetos, críticos e pensadores do país, Niemeyer é indiscutivelmente um ícone da arquitetura nacional e mundial. Podemos citar admiradores de ON arquitetos da velha geração como Paulo Mendes da Rocha, Ruy Othake, Léle, e da nova, Gustavo Penna, Marcelo Ferraz, Mário Bisseli, entre outros. Nessa linha, vejamos trecho da edição da Revista Projeto 251(Jan 2001) que descreve: a capacidade de Oscar Niemeyer de criar ícones é incontestável. Pampulha é o símbolo de Belo Horizonte; em São Paulo, há o Copan e o Ibirapuera; em Brasília, são diversos exemplos emblemáticos; No Rio de Janeiro, estado natal e fonte de inspiração, o mais reconhecido arquiteto brasileiro não havia criado um edifício marcante, refere-se a matéria sobre o museu de arte contemporânea (MAC) de Niterói. Desta afirmação podemos fazer a seguinte pergunta: criar ícone para uma cidade tem preço? E mais, o usufruto de tal edificação criada e construída é do autor/criador ou da cidade beneficiada? Começo levantando essas questões, pois estamos diante de uma situação suigeneris, pois se o Estado do Rio de Janeiro, na pessoa do então Prefeito de Niterói, Sr. Jorge Silveira, inaugurou uma obra com o traço do mestre após décadas da construção de Brasília (momento em que despontou para o êxito da sua carreira) e o fez solicitando aos seus 88 anos de pura lucidez (idade quando projetou o museu), é que reconheceu a importância de tal gesto para os cidadãos do município e para todo contexto social, cultural e econômico do Estado. Segundo dados da prefeitura municipal de Niterói, o custo da construção ultrapassou 5 milhões de dólares, mas com o passar do tempo esse valor foi diluído pelo significado transcendental que a obra adquiriu e pelas milhares de visitas realizadas ao museu por ano. Além do mais, são inegáveis os investimentos para o município de Niterói resultado do efeito multiplicador da obra. Segundo Ferreira, na Revista Geopaisagem, vol.1-2002, em artigo cujo título é O uso do tempo livre na Região Metropolitana: o caso de Niterói, só no ano de 2000, mais de 127.000 pessoas visitaram o MAC, sendo ele mesmo considerado o termômetro do turismo da cidade. Ou seja, o MAC representa o símbolo das transformações do horizonte turístico de Niterói.

Já na revista AU 55 (edição especial sobre ON) o arquiteto brasileiro Josep M. Botey descreve a obra de ON como um exemplo raro a ponto de equivaler a uma semântica perfeitamente rica comparada à arquitetura clássica. O requinte da simplicidade é o título da matéria que evidencia também o caráter barroco de sua arquitetura. Já Sussekind, amigo e engenheiro calculista de várias de suas obras, relata que os desenhos precisos de Oscar anunciam a impressionante proximidade da obra acabada, expressando uma inventividade de síntese que parece óbvia quando pronta, mas invisível para muitos antes da criação. A esta qualidade criativa podemos atribuir a figura do gênio. E aí indagamos, por ser tão óbvio, por que não foi feito isso antes? A resposta é simples. Para evidenciar o óbvio é preciso unir a técnica construtiva com a arte de inventar, como ele mesmo diz "arquitetura é invenção". Apenas para complementar sobre a obra ON que dispensa por si só apresentação, o professor Benamy Turkienicz questiona aqueles que vêem a obra de Oscar como puro caráter formalista. Para isso ele reconhece na linguagem arquitetônica uma unidade arquitetural que é a variação de fatos arquitetônicos a partir de elementos reconhecíveis (a casca, a plasticidade do concreto, o vão livre, a sinuosidade das curvas) e realça a "capacidade de desenhar novos objetos utilizando elementos pertencentes a outros objetos. É isso que faz Picasso em sua conhecida 'Cabeça de Touro', quando associa imagens conhecidas como volante e selim de bicicleta para criar a figura de um animal. A nova conjugação cria uma terceira imagem, esta, sim, verdadeiramente nova e genial. A obra de Niemeyer está repleta dessas surpresas. Daí sua genialidade". Essas considerações são importantes, pois devemos se posicionar criticamente sob vários pontos de vistas que envolve tal projeto, e separar bem aqueles que pensam sobre a causa urbano-ambiental dos que se aproveitam da situação para posar de bem-intencionados quando no seu cotidiano praticam posturas antiéticas freqüentemente. De uma forma geral, o estudo apresentado é um anteprojeto que merece alguns comentários:

  • atribuir ao projeto uma pobre arquitetura é, ao meu ver, desconhecer o que foi dito anteriormente neste texto;
  • reconhecer que existem falhas e que merecem ser corrigidas é mérito da crítica construtiva em prol da melhora. Neste ponto gostaria de apontar que observo uma ausência de uma marquise de ligação entre o bloco de exposições e o auditório. Marquise esta que corresponde plasticamente à obra de ON e que amenizaria o desconforto do percurso em dias ensolarados e até mesmo em períodos chuvosos.

Quanto ao impacto ambiental, ainda está muito recente, pois muito pouco foi dito sobre as condições geológicas do solo, proximidade com a barreira, tipo de fundação, mas acredito que a condução dos trabalhos por uma equipe interdisciplinar da Prefeitura Municipal de João Pessoa e colaboradores do escritório de ON formada por engenheiros, geógrafos, arquitetos, biólogos, serão condizentes com a compreensão da complexidade que a área possui. Neste aspecto considero importante um esclarecimento não só para nós arquitetos, urbanistas, geógrafos, estudiosos, enfim, mas para toda população pessoense.

Em relação às funções e usos oferecidos, a Estação Ciência, Cultura e Lazer será, conforme descreve a apresentação do projeto, "um centro auto-sustentável de difusão e polarização de atividades científicas, artísticas e culturais", renovando uma área esquecida e abandonada de preservação ambiental, com inequívoca riqueza natural, dando início às intenções de inserir, estrategicamente, a cidade de João Pessoa no roteiro turístico nordestino e nacional.

Exemplos semelhantes ocorreram em cidades do Brasil e do mundo, como em Bilbao com o paradigmático Museu Guggenheim de Frank Gehry, que antes da construção do museu a cidade espanhola era conhecida como o "deserto industrial da Europa" e para reverter este quadro foi implementado um plano estratégico de desenvolvimento e revitalização da região Basca, que inclui a cidade de Bilbao.

Neste cenário, em apenas um ano os gastos investidos na construção do museu foram recuperados e a partir de então os ganhos derivados do turismo foram altamente lucrativos. Aqui no Brasil, temos o Museu Iberê Camargo em Porto Alegre, do igualmente genial Álvaro Siza. Em relação à paisagem urbana, edifícios desse porte da Estação Ciência podem contribuir para o efeito catalisador das mudanças benéficas no entorno imediato, atraindo investimentos e melhorando o desenho qualificado da paisagem. A esse respeito Jorge Wilheim, arquiteto e urbanista autor de diversos livros de urbanismo e vida urbana, em artigo na última edição da AU (ago2005) relata que "na questão da paisagem urbana,... há que salientar a ocorrência de projetos arquitetônicos especiais seja por sua função e dimensões, seja por sua qualidade estética, ou ainda por sua estratégica localização urbana. O prestígio de arquitetos de justificado renome mundial tem distribuído obras singulares pelas cidades do mundo, como ícones implantados para atrair a atenção do mundo para suas cidades. Embora nem sempre tenham resultado em sucesso, eles marcam a paisagem, atraem turismo e curiosidade e podem, em certas circunstâncias, resultar em uma multiplicação de obras de boa qualidade". Neste sentido vejo pertinente a contratação de ON. Não considero isto uma aberração. Aberração será se esta conduta se tornar um vício da gestão municipal, traindo a confiança depositada no prefeito pela classe de arquitetos. Há ainda diversas áreas a serem trabalhadas e que podem, certamente, ser motivo de concurso público de anteprojetos, tais como, a praça Vidal de Negreiros, Praça Rio Branco, Praça da Independência, o Parque Sólon de Lucena (Lagoa), a orla do Cabo Branco. Dito isto, me parece estranho uma visão reducionista vetar a participação de ON com a justificativa de valorizar a produção local. Ao meu ver, esta atitude não desconsidera os talentos dos arquitetos locais e/ou nacionais. Parece-me mais uma estratégia de ação da política de desenvolvimento turístico-social da gestão municipal. E para não formular conclusões precipitadas, é preciso esperar sobre o rumo dos acontecimentos. O tempo dirá se foi acertada ou não esta intenção. No momento acredito que existem mais perspectivas positivas do que negativas sobre este fato. Vale a pena dar um crédito de confiança, ficando com os olhos atentos sobre o que virar em diante. Para finalizar escuto freqüentemente sobre este projeto ser de uma "grife". Acho esta afirmação um tanto quanto antiética e descabida. Explico por que:

1º atribuir o significado do projeto a uma grife é desvalorizar o trabalho do colega sem apontar defeitos e justificando o projeto sob o prisma de uma superficialidade decorrente da fama do arquiteto, o que não é verdade;

2º Oscar Niemeyer tem prestígio e não "grife" e isto se conquista com sorte sim, mas, sobretudo, com muito talento;

3º o preço cobrado para o desenvolvimento do anteprojeto e projeto executivo foi o estabelecido pela tabela do IAB-NACIONAL, o que não condiz com a provável "grife". Se assim fosse, o valor do projeto teria aumentado por causa da sua "marca".

Diante destas reflexões, estou aberto a debater sobre o tema em ocasiões oportunas, pois acho perfeitamente salutar para o desenvolvimento da crítica consciente e criteriosa do nosso cenário arquitetônico-cultural.

[Marco Suassuna, arquiteto e urbanista. Docente do curso de arquitetura e urbanismo do UNIPÊ. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pelo Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal da Paraíba-UFPB]