| De:
Sandra Mara Ortegosa
Data: Wednesday, October 26, 2005 1:48 PM
Assunto: Altiplano versus Varadouro
Gostaria de pontuar
aqui alguns aspectos que envolvem o debate em curso na cidade de João
Pessoa a respeito do projeto de implantação da Estação Ciência, Cultura
e Artes – um conjunto arquitetônico de autoria de Niemeyer –, no topo
da falésia do Cabo Branco, e que está se configurando como uma das medidas
mais polêmicas da atual gestão pelo risco que ela representa em relação
à sobrevivência deste inigualável patrimônio ambiental do Estado da
Paraíba. Esse empreendimento, contrariando toda a legislação ambiental
incidente sobre o local, será construído na faixa de proteção de uma
falésia viva, ou seja, que ainda não adquiriu estabilidade e vem passando
por um processo natural de erosão que, nos últimos anos, sofreu uma
aceleração assustadora em função das várias e sucessivas intervenções
impactantes.
Além da inadequação
do local, pelos motivos acima apresentados, verifica-se que a concepção
arquitetônica do projeto (edificações de concreto armado e vidro) desconsidera
por completo as características geográficas, climáticas e culturais
do Nordeste, reeditando velhas fórmulas que, desde a década de 60, vêm
sendo criticadas no mundo inteiro.
Um outro aspecto importante
a ser observado refere-se às características que a atual gestão administrativa
vem assumindo no que tange às decisões do que se pretende para nossa
cidade. Medidas pontuais e isoladas vêm sendo tomadas, sem uma discussão
prévia de um plano diretor que pense a cidade como um todo e de forma
coerente com a proposta de uma gestão democrática e compartilhada por
todos os cidadãos que, de acordo com as novas exigências do Estatuto
da Cidade, deveriam ser ouvidos na definição das prioridades dos investimentos
públicos, especialmente, com relação a empreendimentos dessa natureza.
Até o momento, excetuando-se o debate promovido pelo Departamento de
Arquitetura e Urbanismo do Unipê, nenhuma audiência pública ou qualquer
outra forma de consulta à população foi realizada para se discutir a
conveniência desse investimento para a cidade.
No que se refere ao
projeto em questão, o que parece estar se esboçando na cidade de João
Pessoa é uma nova fórmula de gestão urbana, conhecida como planejamento
estratégico, que procura pensar a cidade como empresa, utilizando-se
de estratégias de marketing cultural, onde a questão da imageabilidade
da cidade adquire posição central. Privilegiando a intervenção tópica
ou pontual, essa nova modalidade de urbanismo vem substituindo os planos
voltados para a totalidade do território urbano, mediante uma seletividade
dos lugares que recebem os investimentos públicos ou privados, de acordo
com o valor estratégico que esses lugares possuam na promoção da imagem
exterior da cidade.
No mundo inteiro,
nos lugares aonde essa nova fórmula de planejamento, de origem norte-americana,
vem sendo implementada, invariavelmente desencadeiam-se os mecanismos
de gentrification, ou seja, modificação do perfil sócio-cultural
dessas áreas, com a exclusão da população de renda mais baixa e a sua
substituição por setores das classes média e alta. Verifica-se, também,
uma forte correlação entre os interesses de setores ligados ao capital
imobiliário e os investimentos públicos canalizados para esses locais.
Os motivos propulsores dessas novas estratégias de gestão urbana são
os mais diversificados: em Barcelona, por exemplo, foram as Olimpíadas
de 1992; em Bilbao, a construção do museu Guggenheim, de autoria de
Frank Gehry. Em todos os casos, porém, destaca-se o papel da arquitetura
a serviço do marketing cultural.
No caso específico
do projeto de Niemeyer, pode-se verificar que a região do Altiplano
Cabo Branco, onde se pretende implantar a Estação Ciência, vem passando
por um acentuado processo de transformação nos últimos anos, no que
se refere ao uso e ocupação do solo, com a proliferação dos condomínios
fechados de alto padrão. Segundo o arquiteto Germano Romero, em entrevista
ao jornal Correio da Paraíba (09/10/05), a construção da Estação
Ciência, Cultura e Artes, deverá consagrar a tendência de localização
de condomínios fechados para a população de alta renda no Altiplano
Cabo Branco. "Daí a preocupação da administração municipal em criar
uma legislação específica para essas incorporações, até mesmo com um
zoneamento que somente permita ali condomínios horizontais". Pode-se
prever, portanto, que essa área da cidade deverá passar por uma intensificação
do processo de gentrification já em curso, com a formação de
guetos de elite vivendo em cidadelas muradas e pretensamente isoladas
dos problemas da cidade real. Essa fórmula urbanística, que vem se alastrando
desde os anos 70 nas principais metrópoles brasileiras – a de construção
de shopping centers e condomínios fechados, como opção de moradia para
as classes média e alta –, reflete a tendência atual de fragmentação
urbana resultante da tentativa de configuração de novos espaços, regidos
pela lógica da especulação imobiliária e da segregação sócio-espacial.
Para um prefeito que se elegeu com base num programa de governo voltado
principalmente para o atendimento das demandas dos excluídos, ações
como esta são, no mínimo, incoerentes e contraditórias.
Para finalizar, gostaria
de enunciar algumas indagações sobre o tema em questão e, ao mesmo tempo,
deixar claro que, no meu entender, deveriam ser retiradas todas as interferências
deletérias ao meio ambiente na falésia do Cabo Branco, de forma a desacelerar
seu processo natural de erosão. Já que se trata de implantar nesse local
um projeto de um profissional de notoriedade internacional, porque não
resgatar o projeto do paisagista Burle Marx, do início dos anos 80?
Porque se construir um equipamento que, além de colocar em risco um
dos principais patrimônios ambientais da cidade, pode vir a se tornar
mais um "elefante branco" na cidade, como é o caso do Espaço
Cultural? Porque, ao invés disso, não se investe na reciclagem dos galpões
industriais do conjunto Matarazzo, a exemplo do magnífico projeto de
Lina Bo Bardi para o SESC-Pompéia? Lembrando que, no caso do complexo
Matarazzo, o potencial de aproveitamento é ainda muito maior que o da
antiga fábrica localizada no bairro da Pompéia, em São Paulo. São 15.500
m2 de área construída, distribuídos por 10 galpões e outras
construções menores, num terreno de 6 ha, que comportaria não apenas
o programa previsto para a Estação Ciência, como também várias outras
atividades de cunho científico, artístico e cultural. Ressalta-se, ainda,
a importância simbólica desse patrimônio representativo da história
da industrialização da Paraíba, situado no Varadouro - local de origem
da cidade, com potencial para se tornar um belíssimo parque ecológico,
histórico e cultural, a partir da recuperação das condições ambientais
do rio Sanhauá e de sua vegetação de mangue.
Se a questão em jogo
é criar novos atrativos turísticos para a cidade, uma das principais
razões para uma política efetiva de reabilitação do centro histórico
reside no fato de que ele configura, de maneira muito mais densa do
que qualquer outra área da cidade, o suporte físico e significante de
uma memória coletiva hoje ameaçada de extinção. Os turistas não estão
em busca apenas das belezas naturais, eles procuram também a história
e a cultura local.
Com esta opção pelo
Cabo Branco, em detrimento do Varadouro, Ricardo Coutinho lamentavelmente
pode estar perdendo a oportunidade de entrar para a história como o
prefeito responsável pela revitalização de um mais belos centros históricos,
entre as diversas cidades brasileiras, e correndo o risco de entrar
para a posteridade como o prefeito responsável pelo desmoronamento da
falésia do Cabo Branco.
[Sandra Mara Ortegosa,
Professora Titular do Departamento de Arquitetura e Urbanismo do Unipê,
João Pessoa, João Pessoa PB] |