De: Ligia Tavares
Data: Saturday, November 05, 2005 7:15 PM
Assunto: Obra de Niemeyer na Falésia do Cabo Branco

Tenho acompanhado as discussões em torno da falésia do Cabo Branco há muito tempo. Na qualidade de professora de geografia da Universidade Federal da Paraíba, a barreira do Cabo Branco tem sido um laboratório maravilhoso para o estudo de várias dinâmicas que ali se reúnem e que de forma rápida e intensa modelam aquele relevo a olhos vistos: são os ventos, a ação do mar, da chuva e sobretudo a erosão, intensificada pelos maus usos na parte de cima da falésia. Acompanhar uma dinâmica de relevo em espaço curto de tempo só é possível porque aquela formação geológica é extremamente frágil. Lembro de pedir aos meus alunos que coletassem uma amostra da barreira desmoronada e levassem para casa para ver o que aconteceria. Uma experiência incrível para os alunos, pois em uma semana aquele pequeno bloco aparentemente sólido virava poeira e se esfarelava. E isso é exatamente o que acontece com a barreira, quando desprovida de uma vegetação que permita a manutenção da umidade necessária à coesão de suas partículas de argila, que viram poeira, sem essa umidade e desabam.

A falésia viva só recebe essa denominação e existe enquanto tal porque o mar solapa as suas bases, fazendo desmoronar os blocos, proporcionando aquela paisagem. É portanto natural que isso aconteça, sendo o processo de abrasão marinha a essência dessa paisagem tal qual a admiramos do Rio Grande do Norte até o Espírito Santo e partes do litoral norte do Rio de Janeiro, quando então a paisagem litorânea muda completamente.

Alguém por exemplo já pensou em fazer esse processo parar em outras praias dos estados citados? Evidente que não. Mas aqui em João Pessoa isso é discutido pois trata-se de uma capital que tem na falésia um de seus cartões postais, sendo por isso um ponto geoestratégico, que nesse governo vem sendo visto como elemento de planejamento estratégico tal qual expôs muito bem a professora Sandra Mara Ortegosa em seu texto.

Observa-se porém que o processo natural de desmoronamento de blocos vem sendo acentuado pelo uso indevido no topo da falésia, a saber: fluxo viário, ausência de sistema de drenagem eficiente, desmatamento e abertura de trilhas não planejadas. Um diagnóstico recente realizado pela Secretaria de Meio Ambiente do Município, em abril de 2005, identificou pontualmente os impactos ambientais na parte de cima da falésia, sugerindo medidas urgentes para mitigá-los, sem que nenhuma providência fosse tomada até então, apesar dos alertas. A solução deste relatório para atenuar os impactos, identificados como de alto risco, tendo por base uma metodologia utilizada pela Nature Conservancy, foi a revegetação imediata de toda a parte superior da falésia, com detalhes para os tipos de vegetação e os procedimentos adequados para tal. Se olharmos o projeto proposto pela prefeitura observa-se, de imediato, uma atenção para com a edificação, o estacionamento e uma ausência quase absoluta de vegetação, contrariando a recomendação feita pela Secretaria de Meio Ambiente. Sendo assim, um projeto que respeitasse os problemas ambientais da Barreira não se posicionaria naquele local, mas em outra área mais afastada na direção do altiplano e porque não nas proximidades dos bairros dos Bancários e Mangabeira, que são bairros populares e que sofreriam impactos positivos maravilhosos com a instalação de uma estação municipal de ciência, arte e cultura?

Outro estudo, realizado nos anos 90 pelo Professor Paulo Rosas do Departamento de Geociências da UFPB provou haver uma relação entre a trepidação dos carros nas pistas da falésia e o ressecamento e esfarelamento da argila e dos outros sedimentos que compõem aquela formação geológica.

Sendo assim, os estudos existem e provam que o impacto ambiental das vias automotivas, de pedestres e de moto-cross, atualmente existentes no local, são altos e todos os estudos apontam para a necessidade da diminuição imediata do uso viário, de pedestres e para o replantio de espécies que contribuam para a estabilização da falésia, bem como árvores nativas.

Isto posto, como uma obra arquitetônica no local e sua consequente intensificação do uso do solo poderia não ter impacto negativo?

[Ligia Tavares, professora do Departamento de Geociências da Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa PB]