| De:
Reginaldo Marinho
Data: Wednesday, November 09, 2005 12:40 PM
Assunto: Paradoxos
O que não falta na
intenção do prefeito Ricardo Coutinho de construir a Estação Ciência
no topo do Cabo Branco são paradoxos. Os "cientistas" que
assessoram o prefeito de João Pessoa estão na contramão do pensamento
científico internacional e desconhecem os fatos alarmantes que preocupam
o mundo diante do aquecimento global resultante do desequilíbrio atmosférico
gerado pela emissão descontrolada de gases que intensificam o efeito
estufa.
Fui um dos primeiros
a aplaudir, em artigo publicado neste mesmo portal em 11/01/05, a iniciativa
do prefeito Ricardo Coutinho que criou a Secretaria de Ciência e Tecnologia,
pensei que essa Secretaria fosse relacionada ao título que a define
e cuidasse da promoção da Ciência e da Tecnologia no âmbito municipal.
Entretanto, as ações dessa "secretaria" estão dissociadas
das razões que deveriam nortear a sua criação.
A ausência do espírito
científico, na gestão municipal, ganha um emblema de dimensão planetária
com a idéia de construir a Estação Ciência no topo do Cabo Branco, em
um local inadequado e que de certa forma simboliza a nossa cidade, a
ponto de existir um movimento de grande repercussão que pretende mudar
o nome da capital para Cabo Branco. Sem dúvida que até ficaria lindo.
Aquele é um referencial geográfico que está no inconsciente de todos
os paraibanos.
A beleza das falésias
foi relatada no primeiro documento elaborado no Brasil, a Carta de Pero
Vaz de Caminha que assim descreve: "Traz, ao longo do mar, em algumas
partes, grandes barreiras, algumas vermelhas, algumas brancas; e a terra
por cima é toda plana e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a
ponta é toda praia rasa, muito plana e muito formosa." Essa rica
descrição do primeiro cronista do Brasil é idêntica à paisagem que está
impregnada no imaginário paraibano.
Do ponto de vista
geológico e diante das ameaças que esse relevante ponto geográfico vem
sofrendo, ao longo dos anos, em conseqüência do avanço do mar, causa
preocupação a todas as pessoas de bom senso. Com um solo arenoso, o
Cabo Branco não oferece qualquer resistência às ações das marés e a
tendência é o agravamento dessa situação, os "cientistas"
que cercam o prefeito da capital precisam ser avisados urgentemente
para que não se construa um monumento em um local inadequado e que daqui
a vinte anos seja necessário fazer uma intervenção de grandes proporções,
no mar, para proteger essa construção, pois, quanto ao Cabo Branco,
sendo uma falésia viva, portanto, regida por uma dinâmica natural, não
creio que deva ser alterada por qualquer ação humana.
Seguramente devemos
proteger esse patrimônio natural como já prevê a legislação federal
e estadual. Em ambos dispositivos legais ficam estabelecidos a proibição
de edificações na faixa de cem metros da linha de ruptura de uma falésia.
No caso da legislação estadual, mais específica, o Cabo Branco é assegurado
como área de preservação permanente. Esse é mais um paradoxo. O secretário
de Planejamento Luciano Agra disse no debate realizado em Sessão Especial
na Câmara Municipal que a lei é subjetiva. O secretário sendo arquiteto
sabe que cem metros têm a mesma dimensão em qualquer lugar do planeta
e o projeto polêmico está localizado a 58 metros da linha de ruptura,
e creio que diante das ameaças planetárias atuais, por causa da elevação
do nível do mar, em conseqüência do derretimento das calotas polares
e das geleiras eternas que cobrem as cordilheiras, esses cem metros
sejam insuficientes.
Outro paradoxo importante
relaciona-se a uma lei de autoria do próprio prefeito, que quando era
vereador, conseguiu aprovar uma medida que estabelece a exigência de
concurso público para obras municipais superiores a mil metros quadrados.
Ele não respeita a lei de autoria dele mesmo.
Mais paradoxal, ainda,
foi a ausência da vereadora Paula Frassinete em um debate em sua própria
casa, a Câmara de Vereadores, ela que já foi um ícone na defesa de nosso
patrimônio ambiental. Tão paradoxal quanto a atitude da vereadora Paula
Frassinete, que saiu à francesa, foi a ausência da ouvidora municipal
arquiteta Rossana Honorato, sempre ativa e contundente na defesa das
intervenções urbanas positivas e já é o segundo debate sobre esse projeto
que a ouvidora não participa, parece que ela não quer nem ouvir falar
do Cabo Branco. E, finalmente, o único paraibano premiado com medalhas
de ouro nos principais salões europeus de tecnologia, justamente com
um invento na área de engenharia e arquitetura não foi consultado para
a elaboração do programa da Estação Ciência, que até hoje ninguém sabe
o que ela vai abrigar.
[texto publicado originalmente
no portal Wscom e enviado pelo autor como participação
desse fórum de debates]
[Reginaldo
Marinho, pesquisador premiado com medalhas de ouro em exposições tecnológicas
com projetos na área de Engenharia Civil. Prêmios conferidos em Genebra
e Londres. Membro da Associação Brasileira de Jornalismo Científico,
João Pessoa PB]
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