| De:
Euclides Oliveira
Data: Wednesday, October 26, 2005 2:43 PM
Assunto: Debate "favelas do Rio"
Prezado colega Jorge
Mário Jáuregui;
Aqui em São
Paulo também temos este problema dos condomínios, horizontais
ou verticais que nada mais são do que a expressão da vontade
das classes média e alta de se segregarem espacialmente do restante
da população e, por consequencia, da própria cidade.
As incorporadoras e corretoras abocanharam este filão e, sob
o pretexto de uma falsa segurança, criam conjuntos a cada dia
mais sofisticados (e mais caros), transformando-os em verdadeiros clubes,
com piscinas, quadras de esportes, "espaços gourmets",
academias de ginástica e o que mais possa passar pela cabeça
dos seus enlouquecidos corretores. Os condomínios horizontais,
onde os pobres só entram como faxineiros ou jardineiros, possuem
clubes, shoppings, escolas, universidade, segurança própria
e me pergunto, em meus momentos de pessimismo, se um dia não
contarão, também, com um exército particular. Sabemos
que tudo isto se deve a imensa desigualdade social que existe neste
país, mas, como você diz muito bem, ruas, praças
e bairros vão assim ficando abandonados, fecha-se o comércio
de vizinhança, erguem-se shopping-centers um atrás do
outro e a vida urbana, tão rica na diversidade que lhe é
própria, vai se esvaindo com tudo isto.
Permito-me contar-lhe
um caso que aconteceu comigo: no ano passado meu escritório ganhou
um concurso público para o plano urbano de um novo bairro na
região da Barra Funda, em São Paulo. Na área escolhida
havia uma pequena favela, que o Edital pedia, acertadamente, que fosse
remanejada dentro do próprio bairro. Resolvemos o problema destinando-lhes
lotes em meio ao tecido urbano, onde seriam erguidos prédios
de interesse social pelo orgão municipal competente; assim, pensávamos,
eliminariamos o problema dos "guetos" em que se constituem
habitualmente os conjuntos habitacionais para famílias de baixa
renda, pela sua própria configuração espacial.
Muito bem, o júri elogiou a solução, mas quando
o projeto chegou à Emurb (Empresa Municipal de Urbanização),
a conversa de nossos colegas foi outra; " vocês estão
loucos, os incorporadores nunca vão aceitar isto, a CDHU também
não, etc., etc.". Sou formado a 35 anos e sempre houvi falar-se
mal do modelo "BNH" de conjuntos habitacionais isolados, mas
estranhamente, na hora em que foi proposta uma solução
que, ao contrário de segregar as diferenças sociais, promovia
sua coexistência no mesmo espaço urbano, nossos colegas
arquitetos e urbanistas foram contra. E durma-se com um barulho destes.
Cordialmente
[Euclides Oliveira,
arquiteto, São Paulo SP]
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