| De:
Jorge Mário Jáuregui
Data: Wednesday, October 26, 2005 5:50 PM
Assunto: Debate "favelas do Rio"
Estimado Euclides,
Entendo perfeitamente
bem seu pessimismo quanto ao equacionamento do problema da segregação
urbanístico-social, quando somos defrontados com situações
dos representantes do poder público que nos colocam muitas vezes
"de fato", entre a espada e a parede, modificando unilateralmente
nossas propostas.
Eu parto do ponto
de vista de que nós devemos contribuir não só para
eliminar as barreiras, mas também, e fundamentalmente, para imaginar
(e formalizar) novas formas de convivência das diferenças,
através do projeto de espaços públicos e edificações
(inclusive habitacionais) de alta qualidade formal, espacial e ambiental.
Para isto devemos
lutar pela ecologia nas suas três vertentes; ecologia mental (isto
é, pela "higienização" intelectual, a
despreconceitualização na própria abordagem do
conjunto de questões que o Projeto Urbanístico-Social
deve encaminhar), a ecologia social (isto é, a contribuição
para a revisão do "socius", quer dizer, do conjunto
das relações sociais estabelecidas), e finalmente, a ecología
ambiental (que como sabemos, se refere à sustentabilidade das
novas proposições; sustentabilidade num sentido amplo).
A "cidade"
que esta sendo construída hoje, e sobretudo a sua "urbanidade",
sabemos que não só não é democrática,
mas que, pelo contrário, exacerba as diferenças. Isto
tem um ponto de responsabilidade nosso, dos arquitetos urbanistas, tanto
do lado dos que projetamos, quanto do lado dos que julgam, aceitam e
induzem também de alguma forma as propostas, seja como funcionários
do poder público, nas suas três instâncias, quanto
como juris de concursos públicos ou semi públicos (por
convite), ou em qualquer outra das muitas modalidades em que os arquitetos
temos a ver com o que existe e com o que se propõe que venha
a existir (o projetado).
Por este conjunto
de razões, creio que um debate aberto, envolvendo todos os meios
de difusão, é um dos bons caminhos para argumentar e propor
soluções, tanto teóricas quanto projetuais, concretas,
para este enorme campo de restrições e posibilidades que
constitui hoje o urbanístico-social-ambiental e o relativo à
segurança do cidadão. Segurança que sem dúvida
passa pela qualificação e democratização
do espaço público, do acesso à urbanidade, pela
eliminação de barreiras, e por políticas habitacionais
sociais consistentes (no bojo de uma política econômica
não contraditória, que de um lado estabelece juros estratosféricos
e do outro pretende o estímulo ao crédito barato). Projetando
pelo contrário, pontos de encontro de convivência das diferenças,
com valor exemplar para o conjunto da sociedade. Por isso não
existe exército particular capaz de garantir isto; só
uma cidadania esclarecida e profissionais com amplo sentido ético
das suas ações, é que poderão exigir e contribuir
para mudar o estado das coisas.
[Jorge Mário
Jáuregui, arquiteto, é autor do artigo que origina esse
Fórum de Debates]
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