| De:
Jorge Mario Jauregui
Data: Monday, November 07, 2005 4:57 PM
Assunto: resposta a Rodrigo Azevedo
Estimado Rodrigo,
O medo de intervir no território
do Município do Rio não é de dez anos para cá.
Como é notório, ele se alastra desde os anos 80 quando
as "intervenções" se reduziam a obras elementares
de infraestrutura parcial, contenções parciais e arruamentos
parciais. Isto de parcial é bastante elucidativo de como se atuava
(e inda se atúa) nas favelas não urbanizadas pelo programa
Favela-Bairro, Bairrinho ou Grandes Favelas (como Rio das Pedras por
exemplo). A crise econômica é no nível da economia
do povo, porque como agente viu, no nível macro, dos grandes
grupos econômicos, nacionais ou estrangeiros, tudo funciona muito
bem, inclusive com elogios (sempre suspeitos) dos organismos de financiamento
internacionais.
Quanto aos novos investimentos
buscarem preferencialmente territótios virgens, "sem complicadores",
poderiamos dizer que eles não mais existem hoje na cidade. Agente
está vendo ser erguida a "vila olímpica" para
o Panamericano de 2007 ao lado da Cidade de Deus (para a qual não
existe nehum programa de re-urbanização previsto). Re-urbanização
porque os moradores de Cidade de Deus se consideram eles mesmos re-favelizados,
por terem sido "removidos" de favelas da cidade do Rio para
"conjuntos residenciais" na periferia longínqua, típica
atitude da época da ditadura (e que alguns "desatualizados"
defendem ainda como "solução"). Mas não
é só Cidade de Deus que existe na direção
Barra-Jacarepaguá. Há uma quantidade de outras favelas
(incluída a do autódromo municipal) que o próprio
"desenvolvimento" da Barra gera, e para o qual o poder público
continua sem uma política antecipadora de problemas. Claramente
falta uma política habitacional bem estruturada e de longo alento.
Mas a paisagem da cidade não está congelada, ela pelo
contrário está em permanente mutação e sem
uma política pública à altura dos desafios.
Considero que mais do que
pudor em gerir seu próprio território, o que o Rio tem
é um déficit de iniciativas coordenadas nas três
instâncias do poder público, e também da parte da
sociedade civil, sempre passiva demais frente ao drama urbanístico-social-ambiental,
que "alguém" irá resolver. É verdade
que a situação não é diferente na área
central da cidade, no Porto do Rio ou nas zonas norte ou oeste. Estamos
sim, diante de uma falta de iniciativas para equacionar devidamente
os problemas, muito coplexos por certo, e que demandam uma ecologia
mental (despreconceitualização e desideologização
da aproximação a todos os múltiplos aspectos que
envolve a formulação de uma política de desenvolvimento
urbanístico e social), uma ecologia social (a revisão
do conjunto das relações sociais existentes, o "socius",
convocando todas as partes envolvidas) e uma ecologia ambiental (pensar
o desenvolvimento como algo estreitamente relacionado às localizações
territoriais, os territórios produtivos, o que envolve a consideração
simultânea do patrimônio físico e o capital social).
Mas o comando deste processo
não é capitaneado (nem convêm que o seja) somente
pela nossa classe.. Ele demanda tanto capacidade técnica, conhecimento
local e convocatória ampla das lideranças, quanto decisão
política. Por tanto, é tarefa para um conjunto de cidadãos
das mais variadas procedências, capazes de pensar o "bem
comum", o "bem público", que é a cidade
desde uma posição ética. Isto é, desde o
lugar onde é necessário "fazer o que deve ser feito",
sem buscar agradar ninguém, sem buscar seduzir.
[Jorge Mario Jáuregui,
arquiteto e urbanista, é autor do artigo que originou esse Fórum
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