De: Alessandro Fernandes
Data: Monday, November 07, 2005 11:26 PM
Assunto: comentário sobre favelas

A questão atual das favelas passa por muita hipocrisia e muita politicagem. Favela é uma excepcional fonte de votos, tanto para a esquerda como para a direita, e se assim não fosse, provavelmente a questão teria sido resolvida (ou colocada, pelo menos) muitos anos atrás.

Não vejo nenhum problema na opinião das pessoas, contra ou a favor das remoções. Desde que pague impostos, a opinião de qualquer leigo é tão boa e válida quanto as nossas, não importando quantos cursos de pós graduação e experiência prática tenhamos em sociologia, antropologia, filosofia ou favelologia. Imagino como se sente o morador de São Conrado, que paga um dos maiores (talvez o maior!) IPTU do país e se vê ilhado no que já ganhou o jocoso apelido de "faixa de Gaza". Não sei se ele é fascista em pedir uma solução ao demagogo prefeito que temos aqui desde 1992, mas talvez ele preferisse pagar um imposto proporcional à qualidade de vida que possui.

A hipocrisia e a mania chata do "politicamente correto" parece que nos impede de encarar o problema de frente. O edital do IAB carioca para o concurso de  urbanização da Rocinha, por exemplo, em nenhum momento fala sobre o tráfico de drogas, quando sabemos que é isso que mais incomoda e apavora quando se pensa em favela. É como se ele não existisse, ou, pior, como se fosse uma coisa esporádica, sazonal, que aparecesse só de vez em quando para vender alguns jornais. É como se fosse o Programa Espacial Brasileiro.

O resultado das políticas que temos tido nas últimas décadas está aí pra quem quer ver:

  • um movimento migratório intenso da classe média para sair do Rio, principalmente entre os jovens com formação superior, que não vêem condições de trabalhar dignamente em sua cidade natal;
  • o expressivo número de empresas que fechou suas portas por aqui ou que se mudou para outros estados (geralmente SP);
  • o fechamento da Bolsa de Valores, depois de 160 anos;
  • o desprezo com que somos tratados pela mídia;
  • o desprezo que o jovem tem para com a própria cidade;
  • o caos generalizado na urbanidade.

Até a supremacia no futebol (até isso!!!) já perdemos.

Ao que parece, as discussões têm se apoiado em bases sem lastro, o que resulta em propostas e soluções urbanística e economicamente inócuas, mas eleitoralmente muito eficientes. É como se discutíssemos se a Terra é chata ou piramidal e propuséssemos soluções para revestir suas arestas.

Sinto que essa polêmica levantada pelo O Globo levará a lugar nenhum. Sinto que profissionais de alto nível como o Jáuregui não vão conseguir ver suas idéias convertidas numa cidade melhor. Sinto que novos políticos aparecerão com velhos discursos e mesmas práticas. Sinto que tenho 35 anos, olho pra frente e não vejo nada. Sinto pena.

Sinto muito.

[Alessandro Fernandes, Rio de Janeiro RJ]