| De:
Assunta Viola
Data: Monday, February 20, 2006 10:41 AM
Assunto: Contribuição para o debate atual sobre as favelas
do Rio
Prezado Jorge,
parabéns pelo
seu texto e pela lucidez com que vc coloca, aspectos importantes quanto
à urbanização de favelas, seja no Rio de Janeiro
que em qualquer cidade do mundo, no que concerne obviamente aos aspectos
mais prementes para arquitetos e urbanistas - a construção
do espaço construído, levando-se em consideração
aspectos sociais e econômicos.
Ainda me pergunto,
por mais que leia sobre o assunto na imprensa especializada e na bibliografia,
o porquê de tanto descaso em relação a habitação
de massa no Brasil. Obviamente o problema que mais chama a atenção
é o das favelas, mas se olharmos com mais cuidado a habitação
de modo geral, veremos que na favela o que salta aos olhos é
a miséria, mas a forma de se apropriar do espaço privado
e público repete-se em todo o resto das cidades, como vc bem
colocou em seu texto.
Quisera tivéssemos
apenas um problema localizado de falta de qualidade urbanística
e arquitetônica apenas no que tange à produção
voltada para as camadas mais pobres. Seria apenas uma questão
de foco e havendo incentivo governamental logo resolveríamos
a questão. Mas não é assim. A boa Arquitetura e
Urbanismo no Brasil, infelizmente, sempre torna-se mais a exceção
do que a regra. Não que devamos ter um plano rígido onde
nos pautar para construirmos nossas cidades, porque obviamente elas
são organismos vivos e autônomos, que não devem
mesmo ser controlados com rédeas...
Mas educados a crescer
de forma salutar e não perversa como se observa, seria no mínimo
desejável, tendo em vista inclusive a nossa história da
Arquitetura Brasileira!
Ainda me pergunto
como no Brasil a Arquitetura poderia voltar a ter a importância
estratégica que teve em anos passados, como expressão
cultural e como elemento de organização espacial. Do mesmo
modo que temos o samba no pé, como teríamos a urbanidade
no sangue? Será através do poder dos governos ou do poder
do capital? Será imposto por decreto federal?
A Cidade é
uma forma de inúmeros procedimentos de se viver em grupos. Não
é natural viver em cidade, não é natural todo o
processo de organização dos mecanismos da vida cotidiana
para que milhões de pessoas convivam num mesmo espaço.
Não creio que tenhamos esse gene, nós, seres humanos,
o instinto se perdeu, sobrou um pouco de razão...
A educação
urbana e ambiental é fundamental em cidades como São Paulo
e Rio, por exemplo, que recebem milhões de pessoas que não
conseguem nem se quer se aculturar – e isso não depende
muito da situação sócio-econômica, mas muito
mais cultural. Os mesmos problemas que vemos em favelas vemos se repetir
em trechos sofisticados e igualmente informais, em São Paulo
por exemplo, como no sofisticado Parque Ibirapuera, que tem uma área
invadida por mansões. Por aqui vários, córregos
que passam por áreas nobres como essa recebem esgoto porque os
moradores se recusam a ligar o esgoto domiciliar à rede pública
- obviamente para não pagar, em declaração feita
pelos próprios moradores em jornais! Esses mesmos córregos
depois alimentam o lago do Parque, tombado pelo Patrimônio Histórico
e que valoriza enormemente o m2 construído das mesmas mansões
que poluem o lago. A lógica é a mesma, e realmente, gostaria
de poder compreender. Parabéns pelo seu texto, um dia entenderemos,
espero!
[Assunta Viola, arquiteta
e urbanista, São Paulo SP] |