| De:
Euclides Oliveira
Data: Friday, November 18, 2005 1:59 PM
Assunto: Berlim: cacos e ruínas
Prezado Jorge Coli,
Li seu belo artigo
com interesse e admiração, mas permito-me fazer, sobre
ele, algumas observações.
Bernard Huet, ex-editor
da revista L'Architecture d'Aujourd'Hui, escreveu certa vez
que não existiu uma arquitetura "facista" ou "estalinista"
mas apenas uma arquitetura do período facista ou estalinista;
em ambos os casos e em outros tantos que um grupo social queira exprimir
o seu poder através da arte, o resultado é o Formalismo,
geralmente baseado no neo-classicismo, oriundo da arquitetura do Império
Romano e menina-dos-olhos da burguesia triunfante. Walter Benjamin ressaltava
que o facismo é o maior dos "formalismos", pois ele
"pratica uma estetização dos anseios da sociedade
a fim de mascarar seus conflitos".Vem dele também uma explicação
do kitch, "uma mentira estética", que bem
define o neo-classicismo, hoje tão utilizado com intenções
mercantilistas. De resto, alguma arquitetura boa foi produzida durante
o estalinismo (o neo-construtivismo russo), e o facismo (Giuseppe Terragni),
pouca coisa, é verdade, mas o mesmo sucedeu com as outras artes,
sob ditaduras.
Quanto a perenidade,
realmente alguém escreveu (não me lembro quem, no momento)
que "a bela arquitetura produz belas ruínas" mas acho
absoluta sandice prever a imortalidade, ou mesmo a duração,
de uma determinada tipologia arquitetônica; François Chaslin,
outro ex-editor da A.A., nos advertia que não podemos teorizar
sobre o futuro da Arquitetura pois seríamos "ultrapassados
pela violência da História e pela força incoercível
do inesperado e do casual". Por outro lado, preocupa-me a demasiada
transitoriedade de certa arquitetura (as "vanguardas mercantilistas"),
seu efeito nocivo sobre as cidades, que necessitam de memória,
de edificações que passem por várias gerações,
formando assim a essência e a história do lugar, enfim,
a "urbanidade". Preocupa-me a arquitetura como marketing de
si própria, voltando assim ao formalismo de que falamos acima,
que procura obscurecer o real, apagar as diferenças. Apesar do
risco de cansá-lo, Jorge, vou fazer uma última citação,
esta de Kenneth Frampton, crítico e historiador de Arquitetura:
"...a arquitetura dos anos 20 e 30 (purismo europeu) me apaixona
pelo seu comprometimento social, mas tenho de reconhecer que seus modelos
brancos acusavam a idéia de temporalidade. Grande parte desta
arquitetura não envelhece bem, não assimila o tempo. Isso
(também) é verdade para arquitetos como Rem Koolhas; seus
edifícios não são concebidos para permanecer no
tempo. É claro que isto coloca uma série de questões
sobre a mídia: até que ponto a carreira do arquiteto é
construida pela maneira que sua obra fotografa, se é fotogênica
ou não; muitas vezes um edifício só interessa quando
é novo e está equipado com certo tipo de mobiliário.
Antes, não se fazem fotos e depois, não interessa o que
acontece com o prédio". Quanto às décadas
de 20 e 30, acho que o problema era tecnologia inadequada; quanto aos
dias de hoje, concordo com o Kenneth Frampton que há uma grande
quantidade de edifícios que nítidamente são feitos
para a mídia fotografar e publicar, e não para o homem
habitar, viver, trabalhar. Você mesmo diz que Berlim tem algo
das Exposições Universais. Pergunto; serão lugares
para serem visitados, admirados, ou para servirem de moradia, para o
viver, em suma, de seus habitantes? O que será que um berlinense
pensa de sua Berlim? Já quanto ao modernismo, acho que o que
ele nos legou de melhor foi seu generoso humanismo.
Aceite um abraço
[Euclides Oliveira,
arquiteto, São Paulo SP]
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