De: Jorge Coli
Data:
Wednesday, November 23, 2005 10:50 PM
Assunto: Berlim: cacos e ruínas

Prezado Euclides,

Você me deixou muito feliz demonstrando interesse por minha crônica. Temos pontos de vista diferentes. Busco retomar alguns momentos de seu comentário, na tentativa de entender melhor minhas próprias convicções.

Creio não ter empregado, em nenhum momento, as expressões “arquitetura fascista” ou “estalinista”, com as quais você abre sua mensagem. Centrei-me no pólo Speer-Hitler, já que minha intenção era opor o projeto do passado e cidade de hoje. Não quis discutir a produção de um regime em sua generalidade. Mas sua observação conceitual traz um nó que, na minha formação de historiador, eu desataria de modo bastante pragmático. Temos duas escolhas, segundo a circunstância do raciocínio, ou da perspectiva. De um lado, considerar que toda a arquitetura produzida pelos regimes fascista, nazista ou estalinista são, de fato, fascistas, nazistas, ou estalinistas. É um pouco como a visão de Baudelaire sobre a modernidade: moderno é tudo aquilo que vem produzido contemporaneamente, sem embates entre tradições e rupturas. Fecunda visão, por sinal, se aplicada para a arquitetura do século XX. Assim, a Casa do Fascio, em Como, de Terragni seria fascista, como fascista seria a reitoria da Universidade de Roma, concebida por Piacentini. De outro lado, aceitar que existem traços ideológicos perceptíveis no próprio objeto arquitetural: é a concepção mais corrente. Todos sabem o que significa quando alguém diz: a obra de Piacentini é fascista ou a obra de Terragni é moderna.

Parece-me, no entanto, que é mais justo compreender esses conceitos a partir da História. Ela nos diz que a relação entre o fascismo e a cultura foi muito diferente daquela que o nazismo estabeleceu. O fascismo se apoiou nos modernos, nos futuristas, no Bardi da “Tavola degli orrori”, em arquitetos como Terragni. O estalinismo, desde cedo, buscou neutralizar as vanguardas, consideradas como idealismo burguês, e prescrevendo regras estéticas, coisa que o fascismo não fez. O nazismo não se deteve em orientações muito desenvolvidas para o campo da cultura: teve, antes, a brutalidade das palavras de ordem, e uma militância ativa, fervorosa, violenta, contra as vanguardas.

Disso tudo, brota a idéia que a modernidade não teve cor ideológica fixa. Ela pôde servir a gregos e a troianos. Manteve, no entanto, um ponto comum com os projetos ditatoriais de poder; como eles, foi contaminada pelo vírus da época: o autoritarismo.

Você afirma que o neoclassicismo tornou-se a menina dos olhos da burguesia triunfante. Não me parece. A burguesia se serviu dos estilos, ou melhor, das formas arquiteturais, de maneiras muito diferentes segundo circunstâncias, e de modo algum se identificou com o neoclassicismo, nem mesmo com as tradições clássicas. A villa La Roche ou a villa de Noailles são exemplos de arquitetura para uma burguesia triunfante (mesmo se os Noailles fossem aristocratas de origem: eles souberam se transformar em milionários “burgueses”).

A questão sobre a perenidade: muitos arquitetos têm a ambição, trazida pelos grandes exemplos do passado mais remoto, de que suas obras permaneçam através dos tempos. O que é muito legítimo. Outra coisa é preparar, romanticamente, as obras para se tornarem ruínas.

Em todo caso, penso ser injusto dizer que a arquitetura de Koolhas não envelhece bem: não sabemos ainda como ela vai envelhecer.

As grandes exposições universais foram feitas para não durar, mas elas criavam um espaço sedutor de convivência, pitoresco, cheio de imprevistos – o que a solenidade artística da arquitetura “para sempre” muitas vezes tende a eliminar, impondo a beleza “superior” concebida pelo arquiteto. Dito isto, vários edifícios construídos apenas para um momento, graças à sua beleza, ou sua força simbólica, sobreviveram ao caráter episódico das exposições universais, e hoje fazem parte de um patrimônio importante. Mesmo o pioneiro Crystal Palace teria chegado até nós, não fosse o incêndio muito tardio, de 1936.

Berlim não é, como Brasília, um lugar para ser antes admirado do que “vivido”. Servindo de guia, os funcionários da embaixada da Holanda além de mostrarem orgulho por uma arquitetura que sentem como bela, assinalaram, várias vezes, o prazer de trabalhar lá dentro, o sentimento de harmonia e conforto que experimentam ali. A praça do Sony Center tornou-se um local muito acolhedor, aonde os berlinenses vão com gosto; é animada, serve de ponto de encontro. Sobretudo, lá, as pessoas estão muito bem, inseridas numa escala verdadeiramente humana. O perímetro exterior das embaixadas nórdicas virou um passeio agradabilíssimo, cuja leveza luminosa eu tentei comunicar por meio da fotografia que o Abilio inseriu no link.

Quantas vezes ouvimos queixas dos usuários em edifícios modernos, prestigiosos por suas formas, mas tão difíceis de conviver? Quantas praças do século XX, ambiciosas formalmente talvez, são, de fato, capazes de congregar e de seduzir? Neste Brasil, quantas, ao contrário, não são plataformas de cimento, áridas como o Saara?

Enfim, chego às últimas linhas do seu texto, ao melhor legado modernista, como você o define: generoso humanismo. Humanismo é uma ótima expressão, mas tenho uma birra muito forte com generoso, generosidade. São palavras que pressupõem o princípio de dom desinteressado. Resta saber se quem recebe está disposto ou quer, de fato, receber esse dom. Generoso, generosidade, podem, parece-me, esconder muito de afirmação autoritária. “É para o seu bem”, como dizem tantos pais e mães para os filhos, generosamente. Será mesmo?

Um abraço, pedindo perdão pelas elucubrações, pelo tamanho desta mensagem, que terminou muito maior do que eu previa. Sinal do quanto fiquei estimulado pelo seu texto, tão inteligente e tão rico.

[Jorge, historiador, é autor do artigo que origina esse fórum de debates]