| De:
Euclides Oliveira
Data: Friday, November 25, 2005 5:01 PM
Assunto: Berlim: cacos e ruínas
Prezado Jorge Coli,
Feliz fiquei eu por
merecer, de sua parte, uma resposta tão trabalhada e consistente;
gostaria, no entanto, de justificar ainda algumas de minhas opiniões,
mas peço-lhe que as considere como meras reflexões de
um arquiteto sobre a sua profissão e não como afirmações
de um estudioso do assunto,o que, absolutamente, não é
o meu caso.
Ao citar o Bernard
Huet era minha intenção dizer que, independentemente da
ideologia reinante, existe uma Arquitetura que, em sua forma, usa uma
linguagem cujos códigos a maioria da população
reconhece como expressão de poder, discricionário ou não,
das classes ou grupos sociais dominantes. Assim, penso, os arquitetos
da burguesia "triunfante" do Renascimento reintroduziram as
ordens clássicas como significantes de uma nova organização
social (embora os fundamentos desta nova Arquitetura fossem as formas
geométricas puras, o conhecimento das leis da perspectiva, a
matemática), abandonando temporariamente o Gótico, por
demais ligado a supremacia da Igreja. Leon Battista Alberti percebeu
bem a natureza desta transição quando justificou que "nas
Artes não acontece a paganização do Cristianismo
mas sim a cristianização do Paganismo". E assim (acho
eu), emergiu da Renascença o Neo-classissismo, que durou, em
suas diversas nuanças, até os dias de hoje. Parece-me
evidente, no entanto, que não foi apenas este estilo que serviu
como símbolo de supremacia de classe; aí estão
o "International Style" com sua forte identificação
com o capitalismo financeiro e o "High Tech", como expressão
da nova economia e do poder globalizado do capital, para complementar
o quadro acima.
Concordo plenamente
com sua análise da cultura sob os regimes estalinista e nazista.
Já quanto ao facismo, houve realmente um grande debate entre
os racionalistas de Terragni e os Neo-clássicos um tanto ecléticos
de Piacentini, porém estes últimos "ganharam a parada";
a União Nacional dos Arquitetos Italianos terminou por declarar
publicamente, no início da década de 30, que "a arquitetura
racionalista era incompatível com as exigências retóricas
do facismo". De resto, mesmo nos estados democráticos houve
grande dificuldade por parte da população em geral em
aceitar o realismo, por ser ele abstrato demais, por faltarem-lhe os
signos aos quais estavam habituados. Concordo consigo também
que houve uma parcela da aristocracia, ou burguesia, que adotou o modernismo,
mas geralmente dentro de um projeto mais amplo de poder; além
das residências milionárias, vieram os "arranha-céus"
norte-americanos e, depois de Mies, os prismas de vidro do estilo internacional
e até mesmo por aqui, em nossa São Paulo, veio o patrocínio,
por parte da aristocracia tupiniquim, do movimento moderno liderado
por Mário de Andrade.
Quanto à arquitetura
de Koolhas não envelhecer bem, a afirmativa é do Keneth
Frampton e não minha. Mas acho, realmente, que ele se inscreve
no rol dos pertencentes ao "Star System" que produz uma arquitetura
com intenções, antes de tudo, "fotogênicas".
O arquiteto Peter Einseman escreveu que certa vez foi convocado ao Japão
pelo presidente de uma grande corporação; durante a entrevista
entre ambos, ouviu do executivo a seguinte frase "...cover, cover,
I want cover...". Einseman respondeu que, naturalmente, o seu edifício
teria uma cobertura, ao que o japonês replicou, agitando uma revista
pela capa "no, cover, cover...".
Repare que arquitetos
como Le Corbusier, Frank Lloyd Wright, Louis Kahn, adaptavam sua arquitetura
aos locais onde as construiam (vide Chandigard, Taliesin West, Dacca).
Hoje vemos o Richard Meyer, por exemplo, utilizar a mesma tipologia
arquitetônica nos gramados de New Jersey e no bairro gótico
de Barcelona, meio na base do "não se mexe em time que está
ganhando". E a mesma coisa fazem tantos outros arquitetos; Mário
Botta, Tadao Ando, os Desconstrutivistas em geral. Acho todos eles profissionais
de grande talento, mas suas tipologias quase não variam, seus
edifícios são projetados com um olho na mídia e
o outro no prêmio Pritzker...
Quando falei de Berlim
(que só conheço por meio de revistas), reconheço
que, no fundo era em São Paulo que eu estava pensando; é
aqui que me assusta esta arquitetura globalizada de marketing, que me
incomodam os Néo-Clássicos mercantilistas, etc. Compartilho
com você a sua admiração pelo edifício das
embaixadas Nórdicas; esta, tenho certeza, não foi uma
obra feita para "ser fotografada", e veja você, foi
projetada por arquitetos jovens, fora do "Star System"!
Ao ler textos sobre
Arquitetura de colegas estrangeiros e mesmo de filósofos como
Jean Baudrillard, julgo perceber, às vezes, uma certa angústia
perante as certezas do "Estado do Bem-Estar", da vida programada
do nascimento até a morte, em cidades solidamente ancoradas na
história; sinto neles uma nescessidade de procurar o diferente,
de transgredir conceitos, de mudar sempre, até de chocar, embora
a rebeldia hoje acabe por ser assimilada pelo Sistema (o penico de Duchamp).
Aqui no terceiro mundo, pelo contrário, temos contradições
e diferenças em demasia, lutamos literalmente para por o pão
na mesa todos os dias, vivemos o paradoxo de não termos trabalho
num país onde faltam milhares de residências, escolas,
hospitais,etc. Não precisamos de "reinventar a Arquitetura
toda segunda-feira de manhã", como dizia o velho Mies.
Para encerrar, quanto
ao "legado modernista", permita-me citar aqui um trecho de
um artigo do arquiteto Giancarlo de Carlo, recentemente falecido, membro
do "Team X", que se contrapunha aos CIAM e à Carta
de Atenas do nosso Le Corbusier.
"É geralmente
sabido que a arquitetura moderna começou com um profundo engajamento
político e social, e que muitos poucos traços deste
clima persitem hoje. [...] Todos eles (os arquitetos modernistas)
sentiam que uma solução para tal problema (habitação
popular) seria uma maneira de mudar o mundo; se todos pudessem morar
em habitações de baixo custo, higiênicas, confortáveis
e sábiamente desenhadas a sociedade encontraria um equilibrio
mais estável, melhor relacionado com a liberdade e a justiça.
E assim, o mundo seria um lugar diferente. Esta é uma premissa
falsa ou verdadeira? Bem, poderíamos discutir sobre isto por
muito tempo e chegar a quaisquer tipos de conclusões. Mas uma
coisa é certa; que os arquitetos modernos do "período
heróico" acreditavam nessa equação simples.
E que, iluminados por esta fé, produziram um grande número
de obras admiráveis. [...] Vejam vocês, eu sou de uma
geração posterior mas cresci nesta atmosfera. Meu interesse
era dirigido para a Arquitetura, mais ao mesmo tempo eu a pensava
como um campo de empreendimentos onde eu poderia agir sobre causas
materiais que pudessem ajudar a mudar e melhorar o mundo".
Um forte abraço
[Euclides Oliveira,
arquiteto, São Paulo SP] |