| De:
Jorge Coli
Data: Friday, December 02, 2005 12:13 PM
Assunto: Berlim: cacos e ruínas
Caro Euclides
Acho, de fato, que temos pontos
de vista diferentes. Por exemplo, acredito que as catedrais góticas
foram a máxima expressão da cultura dos burgos (“burguesas”,
portanto, com funções civis, além de religiosas);
e não consigo enxergar, nos projetos de São Pedro de Roma
ou de Versalhes, que retomam as tradições clássicas,
a evidência de alguma arquitetura burguesa.
Sem discutir os nomes de arquitetos
modernos que você trouxe para ilustrar uma adaptação
aos locais onde construíam (embora creia que essa discussão
traria, pelo menos, muitas nuances), lembro apenas um. Revela uma violência
inaudita, e foi obra de um contemporâneo ilustre daqueles nomes.
Trata-se do prédio Pan Am, por Gropius, em Nova Iorque. Primeiro
grande edifício de concreto na cidade (o que significa, já,
ignorar as tradições locais de construção),
ele se insere na Park Avenue como uma barragem visual, cega e obtusa,
impondo suas faces largas ao olhar como um imenso paredão. Tudo
tão diferente da delicada inserção que o NY Central
(ou General) Building promovia, edifício admirável pelo
acabamento e pelo esquema tão moderno de circulação
interna, com o tráfico de veículos passando por seu interior.
Ele é hoje esmagado por Gropius. Foi, estou convencido, o maior
estupro arquitetural da história (perdoe-me a palavra forte,
mas a brutalidade autoritária do projeto me deixa muito crispado)
e só o projeto ideológico e estético da arquitetura
dita moderna poderia tê-lo concebido.
Quanto ao marketing e aos
arquitetos: um arquiteto marqueteiro pode ser um gênio, e pode
não ser. E vice-versa. Trata-se mais de um ponto de vista da
ética sobre os indivíduos do que sobre o resultado do
que eles fazem. Um grande arquiteto pode ser moderno ou não,
marqueteiro ou não.
Enfim, caro Euclides, para
não continuarmos nesta troca de mensagens – valeria mais
um bate-papo pessoal e prazeroso – uma última observação.
Como disse no início, temos pontos de vista diferentes. Mas,
parece-me, estamos unidos no amor pela arquitetura, e isto é
o mais importante.
Um abraço,
grato pela sua paciência
[Jorge, historiador,
é autor do artigo que origina esse fórum de debates]
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