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01
Autor:
Mario Cesar Carvalho
Data: 28 de setembro de 2005
Documento: artigo “Torre ao lado do Masp passa por embate”,
publicado no jornal Folha de São Paulo
Apregoada como a
salvação do Masp, a torre que Júlio Neves pretende levantar ao lado
do prédio de Lina Bo Bardi (1915-1992) tornou-se uma fonte de problemas
para o museu. Neves, o presidente do Masp (Museu de Arte de São Paulo),
enfrenta conflitos em duas frentes: com o patrimônio histórico do município
de São Paulo, que reprovou o projeto e deve vetar uma segunda proposta,
e com a Vivo, a patrocinadora do prédio, que não quer saber de controvérsias
envolvendo o nome da empresa.
O novo projeto foi
submetido à prefeitura há cerca de um mês. O problema central é com
o patrimônio histórico. O presidente do Masp obteve R$ 12 milhões da
Vivo com o compromisso de erguer uma torre que levasse o nome da operadora
de celular.
A idéia parecia
um ovo de Colombo – como não tinham pensado nisso antes, um anexo para
o Masp? O edifício ao lado do museu na avenida Paulista, o Dumont-Adams,
estava vago e poderia servir de base para uma torre. O Masp usou o dinheiro
da Vivo para comprar o imóvel – R$ 8,4 milhões já foram pagos, e o restante
será quitado até 2007.
Vista para o
mar
Júlio Neves desenhou
não uma torre qualquer, mas uma estrutura de 110 metros de altura, o
equivalente a um prédio de 30 andares, da qual seria possível avistar
o mar em dias claros, segundo ele.
A torre foi concebida
como um belvedere. A cúpula abrigaria um café com 13 mesas; o prédio
que sustenta a torre teria uma loja do museu e escola de arte.
Com a receita gerada
pelo café, pela escola e pelos patrocinadores, seria possível acabar
com o déficit do museu, de R$ 1 milhão por ano, como Neves relata aos
empresários a quem pede apoio ao projeto – em entrevista à Folha,
ele disse que o museu teve um superávit de R$ 143 mil no ano passado.
O plano começou
a dar errado logo na primeira instituição a que foi submetido: o patrimônio
histórico. A arquiteta Lia Mayumi, chefe da seção técnica de Projetos,
Restauro e Conservação do Departamento de Patrimônio Histórico, classifica
a proposta de Neves de "solução mirabolante e espetacular".
Aponta que "ela surge como uma tentativa de compensar o convencionalismo
da proposta de mascaramento do edifício Dumont-Adams com vidros espelhados".
Mayumi faz dois
questionamentos: "Seria o Masp a instituição a quem cabe a tarefa
de oferecer aos cidadãos da cidade e do mundo a maravilhosa vista da
cidade de São Paulo do alto da cota 920 [a 920 metros acima do nível
do mar]? Cumprir tal tarefa vale o preço de criar uma torre que compete
em altura, cor, forma e materiais com o edifício do Masp, furtando deste
último a primazia da condição de monumento?"
Mônica Junqueira
de Camargo, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP
e representante do Instituto dos Arquitetos do Brasil no Compresp (Conselho
Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental
da Cidade de São Paulo), propôs o veto da torre em fevereiro último
por ela "interferir negativamente na ambiência do bem tombado"
– o prédio de Lina Bo Bardi.
Junqueira de Camargo
disse à Folha que a tarefa do Compresp é garantir a integridade
do bem tombado e não arbitrar sobre a qualidade do projeto. "Confesso
que é difícil não julgar o projeto, mas temos muitas vezes que abstrair,
caso contrário não aprovaríamos nada."
Como não houve mudanças
significativas no segundo projeto, a tendência é o Compresp manter o
veto à torre.
O secretário de
Cultura da prefeitura, Carlos Augusto Calil, diz que a questão arquitetônica
é um "falso problema". "Sou contra a torre seja ela feita
por meio de concurso público ou pelo Niemeyer. Não é uma questão de
belezura ou de lisura do negócio, ainda que essas coisas pesem."
A questão, segundo
ele, é como administrar o museu: "Não é possível que entidades
culturais inventem coisas para se sustentar. O Louvre vai ter o quê?
Um shopping? O Masp é mais importante que a torre e tem condições de
se sustentar sozinho", defende.
Oposição
Calil e o prefeito
José Serra articulam o primeiro grupo organizado de oposição a Neves
desde que ele foi eleito presidente do Masp há dez anos. O ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso, que já defendeu o projeto de Neves, foi convencido
por tucanos de São Paulo de que a torre não é a salvação do Masp e agora
se alinha com os críticos à empreitada.
Carlos Brakte, arquiteto
que presidiu a Fundação Bienal por quatro anos, acha que artifícios
como a torre fazem parte do leque de recursos de museus do mundo. "O
MoMA fez uma torre, o Louvre promove até casamentos. Sem isso, é difícil
sustentar um museu", diz, referindo-se ao Museu de Arte Moderna
de Nova York.
Junqueira de Castro
cita os mesmos museus e acrescenta a Tate Modern para defender que qualquer
obra ao lado do Masp seja escolhida por concurso público. "O prédio
da Lina é inovador em escala mundial. Para ficar ao lado do Masp, tem
de ter o mesmo peso", afirma.
Paulo Mendes da
Rocha, o arquiteto que arrancou elogios unânimes ao interferir no prédio
da Pinacoteca projetado em 1897 por Ramos de Azevedo (1851-1928), não
opina sobre a proposta da torre. "O Júlio é meu colega de escola.
Fica uma coisa de nhenhenhém. O nosso debate está muito fechado, é um
círculo vicioso. Eu queria que viesse alguém de fora e opinasse."
Sobre o concurso,
porém, diz ser contra: "Concurso tem um sentido festivo. Você não
faz concurso para um problema. O concurso é a melhor maneira de produzir
um desastre de maneira indiscutível". Um bom exemplo, para Mendes
da Rocha, é o vale do Anhangabaú: "Fizeram concurso para construir
um jardinzinho ali embaixo". O Masp, para ele, merece um destino
melhor.
O veto do patrimônio
histórico e a reação negativa de parte dos arquitetos levou a Vivo a
repensar o apoio à torre projetada por Neves. A empresa avalia se o
concurso não seria a melhor saída. A intenção da Vivo é fugir de controvérsias,
principalmente depois que uma das acionistas da operadora, a Portugal
Telecom, foi envolvida no escândalo do "mensalão" como interlocutora
do lobista Marcos Valério de Souza.
Em nota enviada
à Folha, a empresa nega que já tenha tomado a decisão de bancar
a torre. "A Vivo não tomou nenhuma decisão sobre a proposta de
parceria com o Masp (...). Sendo assim, a empresa se reserva ao direito
de se posicionar formalmente sobre o projeto na medida em que tenha
efetivamente tomado uma decisão quanto ao patrocínio."
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