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06
Autor:
Mario Cesar Carvalho
Data: 26 de outubro de 2005
Documento: artigo “Conselho veta construção de torre do Masp”, publicado
no jornal Folha de São Paulo
A torre
que o Masp (Museu de Arte de São Paulo) planejava erguer no prédio ao
lado de sua sede, na avenida Paulista, foi vetada ontem pelo Conpresp,
o órgão da prefeitura responsável pelo patrimônio histórico. A construção
da torre, segundo a decisão, interferiria no Masp a ponto de descaracterizar
o prédio do museu.
O veto
tem caráter definitivo. A reunião do Conpresp (Conselho Municipal de
Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental) analisou
um recurso impetrado pelo Masp porque o projeto da torre já havia sido
indeferido por unanimidade em fevereiro deste ano.
A torre
do Masp seria patrocinada pela Vivo. A operadora de celular comprou
o prédio para o museu por R$ 12 milhões e tinha planos de colocar o
seu logotipo no alto da torre. "Masp Vivo" era o nome do empreendimento.
Dos sete
conselheiros que foram à reunião, cinco votaram contra a torre e o vereador
Juscelino Gadelha (PSDB) absteve-se. Sérgio Rubinstein, representante
da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) no conselho, foi o autor do único
voto favorável ao projeto.
Criada
pelo arquiteto Júlio Neves, presidente do Masp há dez anos, a torre
teria como base o edifício Dumont-Adams, que fica na esquina ao lado
do museu, e seu pico alcançaria 125 metros de altura. A torre abrigaria
um cibercafé e funcionaria como um belvedere do qual seria possível
avistar o mar, de acordo com Neves.
O recurso
apresentado pelo Masp foi analisado por Mônica Junqueira de Castro,
professora da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) e representante
do IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil) no Conpresp.
A professora
argumenta na proposta que a torre interfere nas "áreas envoltórias"
do museu. A idéia da lei é evitar que uma obra vizinha comprometa a
integridade do bem tombado.
O Masp
é tombado por órgãos do patrimônio histórico nas três esferas: Iphan
(federal), Condephaat (estadual) e Conpresp (municipal). Por causa do
tombamento, qualquer obra vizinha ao prédio do museu precisa ser aprovada.
O Condephaat aprovou a torre e o Iphan considerou que o projeto está
fora de sua jurisdição. Para a torre ser construída, não pode haver
veto de nenhuma instância, como o que foi anunciado ontem pelo conselho
municipal.
Mônica
Junqueira de Castro defende que a torre de Neves afetaria o prédio projetado
em 1958 pela arquiteta Lina Bo Bardi (1915-1992) e inaugurado dez anos
depois. "A proposta de mudança imponente, como está aqui apresentada,
acarretará um desequilíbrio na paisagem que conforma e complementa o
edifício", escreveu no voto que saiu vencedor na reunião do Conpresp.
A construção
da torre, na concepção da professora da USP, criaria uma competição
com o prédio de Lina e "resultará no enfraquecimento do caráter
simbólico de ambos". Na conclusão, ela escreveu: "Entendemos
que a torre proposta interfere de forma radical na escala do bem tombado,
descaracterizando-o de forma a comprometer sua integridade".
Concurso
Júlio Neves
tentou de última hora dois recursos para tentar salvar a torre: 1) apresentou
um parecer do advogado Toshio Mukai, segundo o qual o Conpresp não tinha
competência para analisar o caso da torre; e 2) levou uma proposta do
presidente do IAB, Paulo Sophia, para que fosse aprovada a reforma do
prédio comprado pela Vivo, e o Masp promoveria um "concurso fechado",
conduzido pelo presidente do museu, para escolher um novo projeto para
a torre. O parecer foi derrotado e a proposta, recusada.
A proposta
de Sophia fazia parte de um projeto maior do presidente do Masp para
aprovar a torre. Na última semana, o vice-presidente da Asbea (Associação
Brasileira dos Escritórios de Arquitetura), Marcio Mazza, fez circular
texto com apoio ao mirante. A lista incluía o próprio Sophia, presidente
do IAB, e seis ex-presidentes do instituto: Carlos Bratke, José Magalhães
Jr., Pedro Cury, Pedro Paulo de Melo Saraiva, Pedro Taddei Neto e Gilberto
Belleza.
Outro
lado
Júlio Neves,
presidente do Masp, não foi encontrado ontem pela Folha para comentar
o veto do Conpresp à torre que o Masp planejava construir. A reportagem
o procurou três vezes em seu escritório de arquitetura. A secretária
de Neves no escritório afirmou que ele não foi ontem ao escritório nem
sabia como encontrá-lo.
A Vivo,
que comprou o prédio para o Masp, afirmou, por meio de sua assessoria
de comunicação, que a empresa só vai se manifestar sobre o projeto quando
ele estiver totalmente aprovado. Sobre os recursos que antecipou ao
Masp, de R$ 12 milhões, a operadora disse que encontrará uma "solução
interna" para a questão.
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