| Anexo
11
Autor:
Ruth Verde Zein
Data: 12 de novembro de 2005
Documento: Carta para o Ombudsman da Folha de São Paulo [ainda não publicada]
Para o
Ombudsman da Folha de São Paulo:
Prezado
Senhor,
Um jornal
que se preze deve publicar os vários lados de uma questão polêmica,
e ouvir a todos os envolvidos.
Não é o
que está fazendo a FSP no caso da famigerada Torre que se quer construir
ao lado do Masp.
Projeto
polêmico e questionável, o argumento de que tal aberração traria possíveis
benefícios àquela instituição – única e frágil base em que se apóiam
seus defensores – não está nem esclarecido, nem muito menos provado.
Deve o Masp vender sua alma ao diabo? Deve nosso melhor museu paulista
ceder a pressões duvidosas e se comprometer-se para sempre com uma atitude
que, em breve tempo, se mostrará equivocada?
Quem conhece
algo do assunto museus e arquitetura, sabe que o MoMA-NY há duas décadas
cometeu o mesmo engano: deixou construir em seu terreno um edifício
de apartamentos de luxo para angariar uns trocados. Passada a crise
financeira – pois que as crises passam – com nova direção e finanças
saneadas, o MoMA se arrepende amargamente de ter que suportar um espinho
cravado em seu corpo. Cresceu e ampliou, mas não se livrou mais daquele
abacaxi. Vamos repetir a bobagem ou aprender com ela?
Exceto
por essa alegada pseudo-vantagem, nada mais avaliza a famigerada torre,
que só precisa de licença especial porque excede, de muito, a legislação
vigente. Deve a prefeitura abrir um privilégio para alguns particulares,
que usam o nome do Masp para viabilizar seus interesses? E mesmos e
o Masp momentaneamente ganhasse com isso: vale à pena? O diabo sempre
volta para cobrar a conta!!
O parecer
do Compresp não é uma opinião de exceção, nem romântica. É uma opinião
abalizada, fundamentada, e com princípios – qualidades, ao que parece,
que não fazem muito sucesso hoje em dia entre nós, mas que sem as quais
não se planta um futuro responsável. O parecer do Compresp reflete a
opinião de boa parte da intelectualidade responsável que conhece de
fato o assunto, e que não se deixa seduzir pelo canto da sereia do lucro
fácil e da inconseqüência nos atos e palavras. A opinião do Compresp
é corajosa e independente: aposta no correto, e não na pressão dos interesses
imediatistas.
E no entanto,
a FSP não publica, nem dá o espaço correto, de direito de resposta,
à arquiteta Monica Junqueira de Camargo, relatora do processo da Compresp.
Apenas promete vagamente, e nem cumpre, umas ridículas duas linhas nas
cartas ao leitor. Se foi citada no editorial, no mesmo espaço ela deveria
ser ouvida.
Isso, caso
a FSP fosse o jornal que diz ser. Coisa que estou começando a duvidar.
Ruth Verde
Zein, arquiteta
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