Anexo 15

Autor: Lia Mayumi
Data: 21 de dezembro de 2004
Documento: Parecer técnico do DPH

Parecer técnico de LIA MAYUMI, arquiteta do DPH – DEPARTAMENTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO – da Prefeitura de São Paulo, constante do Processo 2004-0.270.722-9, emitido em 21/12/2004.

O MASP é um bem arquitetônico tombado como monumento nacional, estadual e municipal, respectivamente pelos órgãos das 3 esferas do poder público – IPHAN, CONDEPHAAT e CONPRESP. Projeto de Lina Bo Bardi, foi concebido e construído durante as décadas de 1950 e 1960, e inaugurado em 1968. Desde então, muitas mudanças ocorreram no seu entorno imediato: a demolição de palacetes ecléticos para dar lugar a prédios de apartamentos e escritórios, a reforma da avenida Paulista , a construção de estações da linha do Metrô.

Ponto de interesse focal, tanto a partir da avenida Nove de Julho – de onde o prédio do MASP é visível em posição de destaque, implantado no nível de cota máxima sobre o túnel da avenida 9 de Julho –, como da avenida Paulista – onde, exatamente naquele ponto, a avenida desenha uma sutil inflexão convexa que rompe a sua trajetória reta –, o edifício possui também características, que lhe conferem monumentalidade, inerentes à qualidade do seu projeto arquitetônico.

A monumentalidade do edifício do MASP é aquela do monumento isolado, singular. A força expressiva do projeto de Lina Bo Bardi é tal, que torna o edifício um projeto “fechado”, acabado, irretocável, inextensivo, que não admite adições, replicações, e nem mesmo citações semânticas referenciadas naquela expressão arquitetônica única. O projeto arquitetônico parece ter atingido, neste caso, a condição de beleza preconizada por Leon Batista Alberti: “A beleza é a harmonia de todas as partes, ajustadas em tal proporção e vinculação que não é possível agregar, tirar ou modificar qualquer uma delas sem detrimento da obra”.


Fonte: MASP: a cor da paixão pela arte, folheto Suvinil/Glasurit/Basf. São Paulo, out/1990. p. 10

É pertinente, neste ponto, discutir a idéia do bem tombado em relação com o seu entorno envoltório. Cada qual no seu âmbito administrativo e respaldados respectivamente no Decreto-Lei Federal 25 de 1937, no Decreto Estadual 13.426/79 e nas Leis municipais 10.032 de 1985 e 10.239 de 1986, os tombamentos federal, estadual e municipal impõem restrições ao entorno do bem tombado, com o objetivo de evitar prejuízo à visibilidade ou destaque da edificação ou sítio tombado. A aplicação da restrição é prerrogativa dos órgãos oficiais responsáveis pela proteção do patrimônio cultural, a quem compete legalmente exercer o controle das transformações da paisagem envoltória do bem tombado, em nome da preservação deste último. Em relatório juntado aos Processos CONDEPHAAT 33.348/95, 33.594/95 e 36.73/97 (apenso a 41.31/01) relativos ao tratamento da área envoltória do Instituto Biológico (São Paulo), Ulpiano Bezerra de Meneses, Victor Hugo Mori e Vitor Campos enumeram alguns aspectos que caracterizam as restrições impostas pelo tombamento estadual – visualidade, destaque, ambientação, modificação do ambiente –, dentre os quais frisaríamos o aspecto do “destaque”. Este aspecto implica, de acordo com os autores, “hierarquia”, “subordinação”, o que por sua vez implica valor adjetivo. Pois, se o bem tombado tem valor substantivo, o entorno tem valor adjetivo – e caso o entorno tivesse valor substantivo, ele próprio deveria ser tombado, o que não é o nosso caso. E é aqui que queríamos nos deter.

Na vizinhança do MASP está o edifício Dumont-Adams. Ou melhor, o MASP surge nos anos 1960 na vizinhança do edifício Dumont-Adams, que lá se encontrava já construído. Exemplar da geração de edifícios de apartamentos em concreto armado, o edifício Dumont-Adams tem figurado, desde a inauguração do MASP-Paulista, como um elemento discreto na vizinhança do museu, testemunha e vestígio, remanescente de eras gloriosas e passadas da avenida Paulista. Não chega a ter valor como monumento arquitetônico, mas possui a dignidade característica daquele tipo arquitetônico portador de composição equilibrada, revestimentos de boa qualidade (mármore travertino e argamassa de travertino), fachadas bem compostas de filiação clássica, tripartida nos dois sentidos, vertical e horizontal, envasaduras generosa e adequadamente proporcionadas, com caixilharia de qualidade de manufatura robusta, dentre a qual se destaca a da porta principal do edifício no nível do chão.

O MASP deseja, agora, ocupar instalar um Anexo no edifício de apartamentos, que está desocupado há alguns anos. A nova destinação implica, sem dúvida, uma operação de reforma e adaptação. Assim, o projeto preliminar ora apresentado vem propor adaptações na planta-tipo, assim como nas plantas dos subsolos e nível da rua, de maneira a viabilizar o novo uso para áreas expositivas e administrativas do museu.

Se tal operação de adaptação é necessária no interior do edifício para viabilizar a nova destinação do prédio – plantas livres, modernos equipamentos de infra-estrutura – hidráulica, elétrica, rede lógica, climatização – , o mesmo já não se pode dizer da operação proposta para a parte externa do edifício. Através de um “mascaramento”, com pele de vidro reflexivo, das fachadas originais-existentes se pretende sinalizar uma “novidade”, apelando para recursos tais como o emprego de revestimentos aceitos pelo gosto comum como “modernos” ou atuais, resultando em um volume de superfícies espelhadas, de proporções desinteressantes, e absolutamente convencional.

A torre-mirante que se propõe construir, arrancando do ático do edifício Dumont-Adams até atingir a altura de 120 metros, merece comentário apartado. Solução mirabolante e espetacular, ela surge como uma tentativa de compensar o convencionalismo da proposta de mascaramento do edifício Dumont-Adams com vidros espelhados (O tema do espelho é retomado no coroamento da torre, nos níveis do Mirante). Afinal, nesse mascaramento acabaria se perdendo a qualidade plástica que se mantém intacta e preservada nas atuais fachadas do Dumont-Adams. A espetacular torre-mirante parece também pretender fincar no sítio a identidade do MASP enquanto instituição. Se é verdade que tal intenção existe, ela parece equivocada ao nosso ver, pois aquele sítio não se caracteriza como sítio do MASP; ao contrário, o MASP está no sítio, juntamente com outros elementos – o Parque Trianon, o Edifício Baronesa de Arari, a malha viária com seus canteiros, calçadas, e o edifício Dumont-Adams. A individualidade de cada um dos elementos que constituem aquela vizinhança é que confere organicidade e equilíbrio temporal e histórico àquela área da cidade. Assim são as cidades, tradicionalmente.

E justamente devido à existência de um sentido de organicidade temporal daquela vizinhança – refletida nos estilos e volumetrias sóbrios, anônimos e autênticos – é que podemos afirmar que a idéia de “hierarquia” e “subordinação”, à qual nos referimos anteriormente, não existe, enquanto situação criada a priori, na relação do MASP com a sua área envoltória. Prevalece no conjunto do MASP com o seu entorno imediato uma idéia de organicidade, advinda da convivência das individualidades de cada construção, o MASP incluído entre elas.

Contudo, a presença do MASP implica, e impõe hierarquia, no momento em que ele é elevado à categoria de monumento, e quando, já ele nesta condição, se estabelece a idéia do entorno. A vizinhança torna-se entorno, e adquire condição adjetiva, a partir desse evento. A discrição torna-se então atributo da vizinhança do bem tombado, necessário à valorização deste último. E neste contexto, é inadmissível acolher a idéia da introdução, neste entorno, de elementos indiscretos, espetaculares e competitivos com o monumento. Sob esta perspectiva, o pequeno prédio-espelho e a espetacular torre vermelha de 120 metros de altura tornam-se inaceitáveis como elementos a serem inseridos ao lado (a menos de 15 metros!) do bem tombado. Competem com o monumento, aspirando à condição monumental dele e, paradoxalmente, subordinam-se a ele – através do recurso da mimese cromática –, com uma qualidade de subordinação que só reforça a ausência de autonomia do projeto novo e em muitos aspectos esvazia a força expressiva do prédio do MASP.

Outro aspecto do projeto que suscita análise é o exame do agenciamento do programa arquitetônico. O MASP-Paulista foi concebido numa época em que se dispensava o local do Café. Hoje o Café é, juntamente com a Lojinha, item obrigatório nos programas museológicos. Mas, será necessário instalá-lo a 120 metros de altura? Não seria mais adequado o Café instalar-se em nível próximo da calçada, onde o contato com a vida urbana – e que vida urbana intensa temos naquela vizinhança! – proporcionaria interessantes situações sociais? Ou por que não instalar-se no nível do ático do edifício Dumont-Adams? Seria o MASP a instituição a quem cabe a tarefa de oferecer aos cidadãos da cidade e do mundo a maravilhosa vista da cidade de São Paulo do alto da cota 920? Cumprir tal tarefa vale o preço de criar uma torre que compete em altura, cor, forma e materiais com o edifício do MASP, furtando deste último a primazia da condição de monumento? Pois não está claro para os arquitetos que os anexos que venham a ser criados jamais devem competir com a monumentalidade das estruturas arquitetônicas, ou gerar relações espaciais que venham perturbar a monumentalidade do bem arquitetônico? O desejo de outra monumentalidade – competitiva, repetimos – não nos parece admissível, neste caso. Mas é ele que fundamenta a construção da torre, um apêndice plasticamente desconectado do volume do edifício Dumont-Adams (que, aliás, certamente teve suas fachadas – em estilo – “neutralizadas” pelo “mascaramento”, para minimizar a desconexão arquitetônica – estrutural, plástica, compositiva – evidente entre o prédio existente e a torre proposta.).

Sobre o emprego insistente da cor vermelha, emprestada dos pórticos do MASP, no fuste da torre e em pilar localizado sob o viaduto Carlos Comenale (sobre o canteiro central da avenida Nove de Julho): como já foi dito anteriormente, a reiteração rubra pode ser interpretada como uma tentativa de “demarcar um território” do MASP, um desejo de expressar, através da continuidade física inexistente, a extensão e expansão simbólica do MASP. Ora, é tão notória a extensão do alcance daquela instituição cultural, internacional, que se torna quase totalmente sem sentido tentar “circunscrever” um espaço de influência do MASP através da expansão de um padrão cromático de identidade institucional no espaço urbano. Acrescentaríamos mais: essa tentativa, ao contrário do que pretende, nada parece acrescentar à instituição, pois se assemelha àqueles esforços de tempos de crise, nos quais se apela para o recurso da auto-promoção como forma de re-afirmação. Não cremos que este seja o caso do MASP; a instituição, vigorosa, dispensa tais artifícios, ou pelo menos deveria dispensá-los. Mas, se de fato existir uma necessidade de renovação e afirmação da imagem da instituição, outras maneiras há de atendê-la. O que não se pode admitir é que o espaço público, urbano e coletivo (das ruas, viadutos, calçadas, praças) seja o campo onde as instituições exerçam suas campanhas publicitárias. Existem maneiras mais contidas e elegantes, virtuais ou não, muito mais eficazes e condizentes com a atividade museológica de uma grande instituição de cultura como o MASP.

O vermelho, adotado por Lina Bo Bardi no projeto do MASP-Paulista, acabou por tornar-se uma referência cromática identificadora do MASP. O vermelho está presente na logomarca da instituição e nos objetos a ele relacionados. Isto não significa, contudo, que espalhar o vermelho no espaço urbano da vizinhança acarrete benefícios, nem para a imagem da instituição, nem para o espaço urbano, onde nossos olhos são obrigados, cansados, a olhar o sucateamento da beleza que esta cidade já teve melhor.

Feitas estas considerações, propomos o indeferimento do projeto, sugerindo:

a) conservar as fachadas do edifício Dumont-Adams, adaptando o seu interior segundo as necessidades da expansão física do MASP;

b) restringir ao edifício do MASP, na situação existente, o emprego do “vermelho”;

c) instalar o Café e Mirante nos volumes arquitetônicos existentes (MASP e edifício Dumont-Adams);

d) não permitir colunas, banners ou tótens de propaganda na vizinhança, respeitando a legislação municipal que regula os anúncios em São Paulo.

e) recomendar a recuperação da organização espacial original do MASP, tanto nos seus espaços internos como externos, pois ela foi alterada sem autorização dos órgãos de preservação do patrimônio histórico.

Será necessária a análise pelo IPHAN, além do CONDEPHAAT (este último já aprovou o projeto aqui apresentado).

Em 21/dez/2004

Arquiteta Lia Mayumi

Chefe (1999-2005) da Seção Técnica de Projetos, Restauro e Conservação
DPH/ SMC