| De:
Euclides de Oliveira
Data: Wednesday, January 18, 2006 2:46 PM
Assunto: Barra da Tijuca e o custo do urbanismo moderno
Daniel, o escritor
Pedro Nava escreveu em suas memórias que o Rio de Janeiro é
uma cidade norte-americana construída sobre uma cidade francesa,
que por sua vez foi construída sobre uma cidade colonial portuguesa.
Eu ainda conheci um pouco da cidade francesa, pois nasci em 1946 e acompanhei
as mutações que a cidade sofreu, não apenas com
o crescimento demográfico mas com a mudança da Capital
Federal para Brasília e principalmente, com a desastrosa (pelo
menos para o urbanismo) Administração Carlos Lacerda,
na qual este, juntamente com o seu Secretário de Obras, o famigerado
Marcos Tamoio (que mais tarde também foi prefeito e a quem os
cariocas apelidaram de "Marcos Tramóia") liberou os
gabaritos que ordenavam a cidade (criando os recuos ridículos
que você cita), fornecendo, assim, os meios para os especuladores
imobiliários acabarem com o Rio. Não foi apenas a coesão
urbana, de cidade européia, e sua escala agradável ao
homem, que a cidade perdeu.
Eles destruiram sua
maravilhosa paisagem natural, construindo nas encostas mamutes de concreto
e aço, alteraram sua tipologia para pior, destruiram suas antigas
qualidades ambientais, paisagísticas e urbanas, ao ponto de modificarem
as práticas sociais e os próprios mitos locais. Nesta
época eu cursava a FAU, no Fundão, e ali vários
professores (a maioria) defendiam as novas normas, dizendo que, agora
sim! teríamos prédios com quatro fachadas, "como
em São Paulo", os edifícios teriam "volume",
ou seja, sacrificava-se a unidade do quarteirão em benefício
dos tais "volumes", que de resto resultavam dos recuos exigidos
pela lei, e não da concepção do arquiteto. O resultado,
podemos ver tanto no Rio quanto em São Paulo (onde moro desde
1971); quarteirões que mais parecem prateleiras de supermercados,
com sua sucessão de prédios extravagantes como que tentando
atrair a atenção do passante para si.
Até agora falei
do Rio que termina no Leblon, vamos então para a Barra de mestre
Lúcio Costa. Sempre achei que esta seria uma grande solução
urbana se tivesse sido implantada à maneira do "quartier
de La Defènce", em Paris. Ali, constroi-se o novo e o diferente
à vontade, mas deixa-se em paz a cidade tradicional. A Barra
estava ali,"caindo de madura", para desempenhar este papel
para o Rio de Janeiro, se não fosse o Carlos Lacerda... Bom,
não adianta chorar sobre o leite derramado. O plano do Lúcio
Costa tem os mesmos defeitos e qualidades de Brasília, que são
os da "Carta de Atenas", do nosso L.C. Não podemos
culpá-lo pela sua concepção voltada para o transporte
individual, pois, na época do plano, ainda não tínhamos
idéia do impacto mortífero que o automóvel causaría
nas nossas cidades, na atmosfera, no planeta. Pelo contrário,
havia então um "lobby" mundial contra o transporte
coletivo, por parte da indústria automobilística (o Henry
Ford dizia que seu sonho era que cada homem, na terra, possuisse o seu
automóvel; Na Índia, no Paquistão, na China, então,
seria uma beleza!).
Concordo consigo que o plano
urbanístico da Barra pode e deve ser modificado, não tem
ele o caráter simbólico de Brasília e o Rio já
teve tantos planos urbanos... Restará sempre o difícil
problema de acessibilidade pela zona sul da cidade; por Jacarepaguá
é possível pensar-se até em um trem suburbano,
um pré- metrô, ou coisa que o valha. É isto.
Uma última observação,
Daniel, esta de caráter genérico: o urbanismo dito "científico"
não surgiu para substituir o urbanismo "artístico"
da Renacença e do Barroco apenas para resolver problemas higiênicos
como iluminação e ventilação, mas para solucionar
o problema da habitação proletária, problema este
que, por aqui, está longe ainda de ser enfrentado e resolvido.
Meus cumprimentos pelo seu excelente artigo e um abraço.
[Euclides Oliveira,
arquiteto, São Paulo SP]
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