| De:
Lucas Guimarães
Data: Wednesday, February 15, 2006 2:49 PM
Assunto: Barra da Tijuca e o custo do urbanismo moderno
O projeto da Barra da Tijuca, assim como o de Brasília, está
muito próximo do conceito de cidade linear elaborado pelo espanhol
Arturo Soria y Mata na década de 1880 e que tanto influenciou
o pensamento urbanístico moderno. Antes de Lúcio Costa,
Le Corbusier e alguns construtivistas soviéticos já haviam
proposto variações desse tema em diferentes partes da
Europa. Em Brasília, os eixos monumental e rodoviário
correspondem a duas “vértebras de locomoção”
de Soria y Mata (a primeira guardando a função de capital
do país; a segunda, a de uma cidade para 500.000 habitantes –
o contingente humano julgado necessário para fazer funcionar
a capital). Na Barra da Tijuca, a cidade linear está novamente
presente ao longo da Avenida das Américas e da atual Ayrton Senna
(note-se que nesse projeto Lúcio Costa repetiu a predominância
da função residencial em um eixo e institucional em outro).
O termo “vértebras de locomoção”,
cunhado para designar os eixos das cidades lineares, deixa evidente
a preocupação de seu inventor em priorizar o bom funcionamento
da cidade em termos de circulação de pessoas, bem como
dos serviços essenciais (distribuição de áqua,
esgoto, luz, gás). É devido a essa busca pela otimização
dos serviços que uma cidade deve prestar que a cidade linear
manteve sua influência por décadas entres os urbanistas
modernos, entre os quais Lúcio Costa – e não por
mero formalismo, é sempre bom ressaltar.
A idéia, portanto, presente no projeto da Barra da Tijuca de
colocar residências e comércio ao longo da Avenida das
Américas, tendo ainda núcleos mais adensados, é
perfeitamente compatível com uma boa solução para
transporte de massa. A possibilidade de se implantar apenas uma linha
de metrô com estações nessas áreas mais densas
é muito mais eficiente do que um sistema de metrô para
atender uma cidade com traçado em malha como, por exemplo, Paris
onde são necessárias 14 linhas de metrô, mais cinco
de trens de subúrbio cortando a cidade. Uma cidade mais pobre
do que Paris com traçado em malha tem dificuldades para implantar
um sistema de transporte que atenda suas necessidades – é
caso do Rio de Janeiro, onde nas zonas sul e norte (com traçado
homogeneamente denso e em malha) o metrô conta com apenas duas
linhas e está longe de atender satisfatoriamente a demanda por
transporte público.
Se a Barra da Tijuca é mal servida por transporte de massa,
claramente não se deve a idéia que balizou seu projeto,
e sim, antes de tudo, pela não implantação de um
sistema de transporte de massa, simplesmente. Pode ser, é verdade,
que haja erro no dimensionamento do projeto: densidades insuficientes
ou superfície muito extensa dos núcleos, distanciamento
inadequado entre eles, etc. Mas novamente, a idéia permanece
válida, pois houve erro de detalhamento, não de concepção.
Não é o caso da condenação de um modelo
urbanístico, mas sim de seu aprimoramento – e talvez seja
sinal também da necessidade se formar quadros técnicos
mais capacitados ou, caso ele já exista, proteger suas determinações
da pressão de grupos políticos e econômicos. Entre
a idéia e a implantação de um projeto urbano há
muitos obstáculos e se, após sua execução,
o resultado é insatisfatório, condena-se a idéia
mesmo quando era ela o que de melhor havia durante todo o processo.
E a incapacidade técnica e o lobby político e econômico
permanecem incólumes, prontos para arruinarem a próxima
boa proposta para a cidade.
[Lucas Guimarães]
|