| De:
Euclides Oliveira
Data: Thursday, February 16, 2006 4:08 PM
Assunto: Barra da Tijuca
Caro Daniel, peço
desculpas mas vou mais uma vez meter minha colher no teu prato para
comentar a mensagem do nosso colega Lucas e, ao mesmo tempo, lamentar
a tua informação de que, incorporadoras oportunistas já
estejam importando o "estilo de vida da Barra" para empreendimentos
imobiliários em bairros tradicionais do Rio de Janeiro. Já
"baixei o pau" no Carlos Lacerda e no Marcos "Tramóia,"
pela nefasta atuação da dupla no desenvolvimento urbano
do Rio, em mais da metade de minha mensagem anterior. Assim sendo, passo
a citar uma passagem do arquiteto e crítico Hugo Segawa, de quem
sempre admirei os artigos, sobre o assunto em pauta:
"...não
há perda mais dolorosa que o fenecimento da memória
do lugar (não doi como o pré-infarto, é uma dor
extremamente refinada). Não é à toa que existem
acordos internacionais salvaguardando sítios significativos
em casos de guerras (embora de duvidosa eficácia) porquanto
uma das principais estratégias de dominação (territorial)
era o apagamento das referências urbanas das populações
subjugadas, destruindo relações e ritos sociais consagrados.
O processo de substituição das superfícies habitáveis
em nossas cidades maiores é tão devastador quanto um
conflito bélico..."
Ou seja, destroi-se
a cidade anterior e abandona-se sua tipologia histórica para
erguer-se, em seu lugar, condomínios habitacionais auto-suficientes
que desestruturam a vida urbana como tumores no tecido dos seus bairros.
Quanto a cidade linear,
meu caro Lucas, os exemplos de Soria y Mata, dos construtivistas russos
(no caso, a OSA) e do L.C. são emblemáticos. Soria y Mata
chegou a propor uma cidade com uma única rua de 500m. de largura
cujas extremidades poderiam ser [....Cádiz, São Petersburgo,
Pequim ou Bruxelas...]. Imagine-se tirando férias na Europa e
em vez de fazer o trajeto Barcelona, Madrid, Lyon, Paris, Bruxelas,
pegando uma super estrada, ladeada por imensos edifícios, que
te levaria diretamente de Barcelona à Bruxelas! Quanto à
OSA, o Kenneth Frampton diz, em sua "História crítica
da arquitetura moderna", que as próprias autoridades soviéticas
(pré- Stalin) cansaram-se de suas intermináveis discussões
teóricas e convidaram para elaborar o plano de uma nova cidade
(Magnitogorsk) os arquitetos esquerdistas da República de Weimar,
mais "pragmáticos e experientes". Quanto ao nosso L.C.,
eu estava em Paris quando da comemoração dos cem anos
do seu nascimento e fui visitar a enorme exposição sobre
sua obra no Centro Georges Pompidou. Quando olhei o seu "Plan Voisin"
desenhado sobre o mapa da cidade, que eu via ali, ao vivo, bem na minha
frente, só pude pensar "pô, este cara estava maluco!".
A cidade linear, com
sua rígida hierarquia de ruas, tende a uma ocupação
"territorialista" do solo, com ilhas urbanas acessíveis
apenas por uma via de alta velocidade. Esta dissociação
espacial leva, acredito eu, a uma segregação das classes
sociais, como se vê em Brasília, ficando assim a cidade
fechada para a diversidade de ritos e costumes e, consequentemente,
para a riqueza de contatos humanos próprios da vida urbana tradicional.
Às vezes imagino se isto não levaria a uma "urbs"
em que os ricos e poderosos habitariam imensas torres, ligadas entre
si por um "mono-rail" elevado, ou coisa que o valha, enquanto
que os "despossuídos" viveriam em suas casinhas ou
favelas, junto ao solo, sem nenhum contato físico com "os
lá de cima".
Quanto ao transporte, público ou privado, lembre-se que a circulação
é apenas uma das funções da via pública;
ela é, igualmente um espaço de trocas, de encontros, de
bate-papo descontraído em seus cafés e botequins, da conversa
jogada fora com o jornaleiro, do passeio com o cachorro... Para encerrar,
volto às citações, esta do filósofo Jean
Baudrillard:
"Para reencontrar
o espírito de uma obra, um objeto, um parque, uma arquitetura
[...] é preciso que ele represente uma alegia, um desafio,
que envolva o fortuito. [...] Esta seria a forma de um objeto que
voltou a ser cidade, onde seria novamente possível mover e
não apenas trafegar, onde andar a pé, brincar a pé
e repousar deixariam de ser uma fantasia. Sonhar sempre é possível".
Um abraço para
ambos do Euclides Oliveira
P.S. Quanto ao metrô,
São Paulo e a Cidade do México começaram a construir
os seus no mesmo ano; só que, enquanto São Paulo tem hoje
pouco mais do que quarenta estações, a Cidade do México,
também situada no terceiro mundo, tem mais de duzentas. Acho
que o motivo desta disparidade não é difícil de
advinhar...
[Euclides Oliveira,
arquiteto, São Paulo SP] |