De: Rogério Gomes
Data: Thursday, July 06, 2006 1:55 AM
Assunto: Fórum de Debates Minha Cidade 154 - Barra da Tijuca e o custo do urbanismo moderno

Caro Walter,

Concordando (mesmo que atrasado) com o que já foi dito pelo Daniel e apoiado por Euclides, acredito que ainda existe uma distancia entre “alterações simples” no plano diretor da Barra e repensar o que hoje esta acontecendo com o Plano Lucio Costa.

Acredito que haja hoje na Barra um problema grande de escala humana. A Barra esta perdendo a escala do homem e ganhando a escala do negócio, do empreendimento. Com uma proposta de minimizar custos se constrói mais e ao mesmo tempo, muito em função a uma legislação baseada no plano original e que avaliza este tipo de ocupação. Um empreendimento imobiliário hoje não é interessante se não apresentar uma oferta de 300 a 400 unidades de uma só vez. Praticamente uma quadra inteira de um bairro como Copacabana. Ou seja o que numa cidade mais adensada levaria 10 anos pra se ocupar de forma madura e natural, na Barra, por causa de sua proposta verticalizada, se ocupa em 1 ou 2 anos. È lógico que o mercado viabiliza essa rapidez, essa demanda, mas o plano diretor também tem culpa neste processo quase animal de ocupação.

Estamos vivendo agora um momento interessante no urbanismo da Barra. O momento em que se discute o plano para ocupação da área definida como Centro Administrativo do Rio de Janeiro. Esta área delimitada pelo plano diretor foi reservada para abrigar as sedes administrativas e do governo que seriam transferidas do centro, na época do Rio Capital Federal. Com a mudança da capital para Brasília, esta área ficou de lado ou como possível expansão da Barra. Por sua localização e distancia e pouca infra-estrutura despertou pouco interesse imobiliário até hoje. A legislação da área limitava apenas o numero de projeções por quadra a quatro, e um gabarito definido pelo cone de aproximação do aeroporto próximo. Com isto teríamos construções de 7 a 30 andares sem nenhum problema, a não ser o péssimo terreno (turfa atingindo em alguns pontos 10 metros de profundidade) e a dificuldade de alocação de vagas, visto que o subsolo se torna inviável com este tipo de terreno. Por isso a prefeitura aceitou modificar a legislação aceitando inclusive propostas para debate muito em função de uma solicitação dos empresários e de uma preocupação com a ocupação urgente de certas áreas antes que estas sejam invadidas por favelas.

O interessante é que nesta discussão já surge uma preocupação com “a busca da esquina perdida” e com uma forma de ocupação mais próxima destes modelos que discutimos.

Mas se não houver uma participação efetiva da sociedade, principalmente através das secretarias de planejamento, quem tentará traduzir o novo modelo de ocupação será o mercado imobiliário que continua apontando para o modelo testado, discutido e não aprovado que conhecemos. E isto fica até preocupante, quando se sabe que o poder público não tem condições de executar a infra-estrutura básica, dependendo assim da boa vontade dos empresários proprietários destas áreas.

Por isso meus amigos, creio ser interessante um acompanhamento deste novo processo urbanístico, pois poderá ser uma chance de vermos na prática o que conversamos.

[Rogério Gomes, Arquiteto, Rio de Janeiro RJ]