De: Eric Verhoeckx
Data: Sexta-feira, 21 de abril de 2006 13:35
Assunto: "Não pode, naturalmente" e os meios democráticos

Bom dia (de Tiradentes),

"Quem sabe se não é assim mesmo, de Quixote em Quixote, [...] iremos conseguir mudar o sentido dos ventos e das pás dos moinhos..." disse Cecilia Rodrigues dos Santos. Aqui o Sancho Pancha!

Senti falta, no bom artigo da Cecília, de uma certa atualização, já que desde novembro 2005 e abril 2006, um fato significativo pelo menos houve a respeito desta novela: o veto do então prefeito, publicado no "Diário Oficial da Cidade" de 7 de janeiro 2006, que diz que a Secretaria Municipal de Esportes tem planos para a construção do Museu do Futebol nas instalações do estádio, em parceria com a Fundação Roberto Marinho, ressalta que será firmado um convênio com a Confederação Brasileira de Tênis para a reforma das quadras existentes no complexo do estádio, com a intenção de realizar torneios nacionais e internacionais e que tem planos de buscar recursos com a iniciativa privada para financiar reformas no estádio do Pacaembu e ainda diz que gostaria de reconstruir a concha acústica, derrubada para dar lugar ao tobogã em 1970. Não sei em que pé está esta lista de boas intenções, e não sinto nem de longe uma vocação de defender o (ex) prefeito e sua administração mas que naquele dia teve um surto de "não pode, naturalmente", teve. Talvez por assim acabar com as esperanças do Corinthians, clube interessado no estádio, e que tem um famoso torcedor na figura do atual presidente da República.

Pois é: o "não pode, naturalmente", me soa um argumento bastante perigoso, expressando saudade de uma sociedade passada supostamente bem menos prolixa... Se eu (ou qualquer um de nós) fosse (pudesse!) em sã consciência aplicar meu / seu 'bom senso' à realidade da cidade de São Paulo, assim, 'naturalmente'. só sei de uma coisa: tchau tristeza, tchau democracia! Olha lá o estado da nossa democracia que precisa de um prefeito para - sorte dele e nossa neste caso - vetar a vontade dos nossos representantes.

Concordo com o Paulo Mendes da Rocha que só pode ter saudade do futuro (1). Estamos ainda longe do ideal mas temos leis e novos instrumentos como o Estatuto da Cidade, o Plano Diretor; e até tivemos uma pálida tentativa, agora parada, de criar formas de participação popular direta nas decisões. Estamos a caminho...

Há ainda outros argumentos igualmente perigosos no texto da Cecília quando ela diz: "teimo mais uma vez em renovar meus argumentos técnicos em defesa do nosso patrimônio público de interesse cultural". Durante o debate promovido pela FAU-Mackenzie em 28 de março, sobre a Vila Itororó, um conjunto habitacional no Bixiga, tombado, que recentemente voltou a ser alvo de interesses privatizantes, o arquiteto José Eduardo Lefèvre, coordenador do projeto junto à Secretaria Municipal de Cultura, disse: "Não vou entrar no debate. Sou técnico, não sou político". E foi embora (2).

Uns anos atrás quis fazer uma brincadeira meio séria e pedi a uns amigos arquitetos para indicarem 3 prédios em São Paulo que gostariam de ver implodidos e me assustei com as sugestões. Tenho minhas esperanças que abaixo das camadas de argumentos e opiniões haja alguns pontos consensuais prontos para aflorar, mas por enquanto estamos para dar frente à arbitrariedade insana virando política oficial com consultores imobiliários 'técnicos' no poder.

Abraços

Notas

1
"A natureza é um trambolho". In Caros Amigos <http://carosamigos.terra.com.br/da_revista/edicoes/ed61/paulo30.asp>.

2
"Arquitetos se recusam a debater com moradores; pressão agora é por audiência pública". In Mídia Independente <www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/04/350931.shtml>

[Eric Verhoeckx, holandês, autônomo, antropólogo, arquiteto, morador do centro desta cidade]