De: Cecilia Rodrigues dos Santos
Data: Wednesday, April 26, 2006 3:03 PM
Assunto: Resposta a Eric Verhoeckx

Caro Sancho,

Aliás, o segundo Sancho deste exército (atenção moinhos! estamos crescendo!). Antes de você, Eric, o Abílio já tinha assinalado a sua preferência pelo fiel escudeiro, menos arrogante segundo ele, e tão presente quanto o cavaleiro da triste figura. Eu ficaria com a dupla tão bem construída por Cervantes. Mas vamos lá, e por partes, seguindo a orientação metodológica de Jack - o estripador, a mais adequada considerando meus “perigosos argumentos”.

Primeiro o texto publicado, conforme foi assinalado, partiu de um parecer elaborado por mim enquanto conselheira do CONDEPHAAT no ano de 1994, e foi encaminhado ao Vitruvius no final do ano passado, respondendo à provocação de uma determinação legal. Como eu não tinha ilustrações, ele ficou aguardando até que o Abílio conseguisse as belas e oportunas imagens que no final acompanharam a edição. No momento em que foi ao ar, não achei que deveria atualizá-lo apenas em função das promessas e boas intenções de políticos, veiculadas pela imprensa entretanto. Até porque me interessa menos a sempre remota possibilidade dessas promessas anunciadas se concretizarem; veja que, inclusive, sempre é possível que, cada doze anos, volte a mesma grande idéia. Interessa mais reavivar o debate sobre o tratamento a que vem sendo submetido o patrimônio público de interesse cultural, e os diversos tipos de privatização, além dos conseqüentes ônus ou, até, benefícios.

Quanto à parceria da prefeitura (Secretaria dos Esportes e não da Cultura, vale assinalar) com a Fundação Roberto Marinho para a instalação de um “Museu” do Futebol (as aspas são minhas) no Estádio do Pacaembu, não gostaria de entrar publicamente no mérito dessa proposta, que vim a conhecer em circunstâncias oficiais que não vêm ao caso. Apenas talvez seja importante esclarecer aqui que a proposta inicialmente apresentada não tratava da preservação do bem tombado. Pretendia instalar, em algumas de suas salas, um daqueles dispendiosos e “moderníssimos museus ”(sic), livres do “entrave de acervos antigos e empoeirados”(sic) que costumam ficar “esquecidos em mausoléus”(sic). Esses novos “museus” (de novo aqui as aspas são minhas), segundo parece, têm feito enorme sucesso entre o público.

Quanto ao parecer do Dr Lucio, às vezes esqueço que Lucio Costa e sua obra não são tão conhecidos e estudados como deveriam e mereceriam, e acabo economizando nas referências. Lucio Costa nunca argumentaria, muito menos oficialmente como foi o caso, com base no seu conhecido bom senso. Por trás dessa simplicidade, um pouco cansada de tantos absurdos e impropérios que sempre grassaram nos órgãos de preservação, está o resumo de toda sua competência profissional, de seu conhecimento e de sua experiência. Lucio Costa arbitrário? Não pode, naturalmente. Mesmo quando equivocado, Dr Lucio não conseguiria ser arbitrário. Mas, você tem razão, isso fica claro apenas para quem conhece um pouco de Dr Lucio.

Sobre a citação do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, de que “só pode ter saudades do futuro”, acredito que deveria ser lida no contexto não só da entrevista (que não conheço), mas principalmente de sua vida, de sua obra e do seu trabalho. Se fosse vista dessa maneira ficaria evidente não se tratar de negar a história e o passado, e sim de considerá-los conscientemente, criticamente, na construção do futuro. Recomendo um passeio pela Pinacoteca, olhando em volta com olhos de ver; com certeza essa visita deve situar melhor a frase do Paulo do que qualquer colocação que eu venha a fazer.

Ainda, quando digo “argumentos técnicos” adoto um jargão da área de patrimônio e preservação. Nós, que atuamos nesse campo, nos auto-nomeamos “técnicos”, de maneira talvez excessivamente humilde porque de fato somos, a maioria, especialistas, professores e pesquisadores, com trabalhos elaborados a partir de sérias bases conceituais. Como somamos a esse conhecimento, a experiência nos canteiros, escritórios e instituições que tratam da restauração e da preservação dos monumentos, acabamos por priorizar a prática ao nos definirmos como “técnicos”. O arquiteto, professor, Dr. José Eduardo Lefèvre é um desses “técnicos”. Como no momento ele também “está” presidente do CONPRESP, apenas presumo ( por não ter estado presente ao debate citado) que possa ter se sentido eticamente impedido de se manifestar sobre alguma questão. Pois é, isso ainda existe. Entre alguns “técnicos”, pelo menos, existe.

E para finalizar, emendando com o início da argumentação e fechando o ciclo, incluo aqui trechos de um comentário, ainda sobre o Pacaembu, e que retrata bem em que “meio democrático” e com que “meios democráticos” lidamos. E como é custoso, além de estudar e trabalhar, exercer a cidadania em São Paulo!

Na manhã de sábado último, decidi ir à feira do Pacaembu. Pois aquilo que deveria ser uma atividade aprazível de uma manhã de sábado transformou-se em mais um absurdo motivo de indignação, reforçando as preocupações contidas no texto sobre o Pacaembu, se é que precisavam de reforço. Todas as terças, quintas, sextas e sábados instalam-se feiras livres na praça fronteira ao estádio. Há talvez uns 50 anos elas estão ali, convivendo com o futebol, fazendo parte da vida dos bairros próximos, e até de roteiros turísticos da cidade. Pois nesse dia, estupefata, constatei que a praça fronteira ao estádio, tombada assim como o estádio é bom que se diga, foi toda loteada em ZONA AZUL, portanto transformada em estacionamento pago, inclusive para quem vai à feira. O piso está riscado de branco delimitando vagas, e um paliteiro de postes com placas de informação sobre o estacionamento foi espalhado pelo local. Ou seja, a praça foi completamente descaracterizada para que o espaço público pudesse ser alugado.

Os guardas da CET presentes no local, uma boa meia dúzia deles, atentos aos infratores, bloquinhos de multa apostos, disseram que não “é apropriado” mas a decisão tinha sido da prefeitura. Já os feirantes, revoltados com a medida, segundo relataram tiveram uma reunião com o sub-prefeito que, ironicamente, sugeriu que fossem reclamar com a responsável: a CET. E está montado o circo kafkaniano que deve garantir o absurdo por tempo indeterminado!

Então eu pergunto de novo: pode? ou não pode?

Será que os responsáveis por tantas intenções de recuperação do estádio estão atentos como deveriam?

Será que é mais uma medida democrática? Ou será que é arbitrária e autoritária?

Será que houve a necessária aprovação dos órgãos de preservação?

Será que a tal privatização, que continua pairando sobre o local, não estaria se insinuando a partir da praça, pela porta da frente do Estádio?

Será que não dá nem mais pra ir à feira sossegada?

Será o Benedito?

[Cecilia Rodrigues dos Santos, arquiteta, é autora do artigo que origina esse fórum de debates]