| De:
Euclides de Oliveira
Data: Wednesday, May 03, 2006 8:24 PM
Assunto: O estádio do Pacaembu é do povo...
Cecília, adorei a frase
que você citou do Dr. Lucio (não pode, naturalmente.) e
aproveito para narrar um fato que presenciei há uns trinta e
sete anos atrás, que demonstra a seriedade e a solidez de caráter
com que o mestre tratava os assuntos ligados ao patrimônio histórico
da nação. Nesta época eu era estagiário
de um escritório de arquitetura cujo titular (permitam-me não
citar seu nome) trabalhara muitos anos, como estágiário
e depois como arquiteto, com o Dr. Lucio. Depois de algum tempo, o mestre
conseguiu (seu prestígio internacional era imenso) que seu pupilo
fosse trabalhar na França, no escritório do Bernhard Zerfhuss,
onde ele ficou por alguns anos acompanhando a obra da sede da UNESCO,
em Paris. Voltando ao Brasil, abriu seu próprio escritório
mas continuou muito amigo do Dr. Lucio (era esta a única maneira
dele se referir ao mestre, em público ou em particular). Pois
bem, o escritório foi então convidado para participar
de um concurso privado para a sede de um Banco, em um terreno que fazia
esquina com a praça Pio X e a Av. Rio Branco, dando também
para a rua da Alfândega; o prédio faria frente, portanto,
para a igreja de Nossa Senhora da Candelária e o gabarito para
a praça era, senão me engano, de dez pavimentos mais térreo,
mezzanino e cobertura. Meu chefe, então, "bolou" um
partido em que o edifício seria segmentado em três volumes
contínuos e justapostos, valendo-se dos diferentes gabaritos
da Pio X, da Av. Rio Branco e da rua da Alfândega (os dos dois
últimos eram maiores do que o da praça). Satisfeito com
sua solução, que achava que era a "sacada" para
ganhar o concurso ( e era realmente uma solução engenhosa),
levou-a, por precaução, para a apreciação
do Dr. Lucio, pois a Candelária era e é, naturalmente,
um edifício tombado. Lembro-me que quando ele voltou da entrevista,
acorremos todos para saber o que dissera o mestre. "Não
pode ser, H., o gabarito tem de ser o da praça Pio X" fora
o único comentario do Lucio Costa ao projeto e, podem acreditar,
nem passou pela cabeça do meu chefe argumentar ou discutir o
partido, apenas disse-nos, "o Dr, Lucio não deixou, vamos
fazer com um único gabarito" e nada mais lhe foi perguntado
(por nós, estagiários). Assim era o Dr. Lucio. Um abraço.
[Euclides de Oliveira,
arquiteto, São Paulo SP]
|