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ano 6, vol. 9, abr. 2006, p. 160
Brasília DF Brasil
   
 

Cidades aniversariam? Brasília faz 46 anos
Aldo Paviani

     
    Catetinho, 1956. Acervo Arquivo Público do Distrito Federal

Ao contrário das demais cidades brasileiras, que têm datas comemorativas de fundação ligadas a povoamento historicamente demarcado, Brasília foi inaugurada com data e festividades política e administrativa estabelecidas desde fins dos anos 50 do século 20. Estabeleceu-se que seria inaugurada em 21 de abril de 1960 e ninguém contestou outra data, pois Juscelino Kubitschek em seu Plano de Metas incluiu a “Meta Síntese” configurada na construção da nova Capital. Poderiam alguns imaginar que a cidade teria outra data inaugural, como a construção do Catetinho, em outubro de 1956. Se assim fosse, Brasília se aproximaria de seu meio centenário de existência. Mas, esse seria um preciosismo histórico, nada acrescentando à expansão e povoamento do território do Distrito Federal e Entorno, a partir do início das obras. Em Brasília, não há propriamente um aniversário. Há uma data comemorativa de sua implantação e em torno dela se organizam eventos que demarcam os grandes feitos e se enaltecem obras com inúmeras festividades.

As comemorações poderiam salientar como diria Milton Santos, “os fluxos e os fixos” que resultaram na metrópole de 2,3 milhões de habitantes da Brasília de 2006. Esses fixos e fluxos agigantaram-se ao ser comparada a cidade de hoje com a imaginada pelos construtores, sobretudo por Lúcio Costa. O plano piloto do grande urbanista projetava um centro urbano com 500 mil habitantes, estipulado pelo governo JK.

Brasília é exemplo de crescimento vertiginoso e, como as demais metrópoles, abriu espaços para núcleos urbanos periféricos demograficamente importantes, mas esparsos no território do DF. O dinamismo demográfico exigiu a solução de povoamento polinucleado, sem o padrão do que se convencionou denominar de “planejamento urbano”. A rigor, o planejamento urbano faria a cidade coincidir com o Plano Piloto; ao contrário, o afluxo populacional e a falta de previsão obrigaram os governantes a criarem núcleos distantes do centro, como Taguatinga, em 1958. Sucessivamente, projetaram-se outros núcleos, eufemisticamente denominados cidades-satélites. E o processo de povoamento pontual, esparso no território deve continuar, com futuros bairros como “Setor Noroeste”, “Catetinho”, “Setor Oeste” e outros.

 


Juscelino Kubitschek na inauguração de Brasília. Foto M. M. Fontenelle. Acervo DPHA-DF


Equipamentos esportivos em superquadra. Foto Marcel Gautherot. Acervo DPHA-DF

     
Super-quadras na Asa Sul, dezembro de 1990. Foto Duda Bentes. Acervo do Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico do DF    


Núcleo Bandeirantes. Foto M. M. Fontenelle. Acervo do Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico do DF


Mercado Livre, Núcleo Bandeirantes. Foto de autor desconhecido. Acervo do Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico do DF

 

Qual a previsão para o futuro? A depender da dinâmica demográfica, econômica e da existência ou não de projetos regionais (nacionais), aventamos dois cenários: um pessimista, com o continuado povoamento esparso, inclusive nos anéis externos ao DF, criando-se uma metrópole que engolfaria o Plano Piloto – tal como ocorreu com Belo Horizonte. Nesse espaço haveria caos urbano, com desemprego maior do que o atual; falta de habitações condignas e favelas ocupando as várzeas, matas ciliares e nascentes. Faltariam espaços de reserva para usos futuros – federais e do GDF, inclusive para a implantação de novas atividades produtivas e de serviços. Os transportes urbanos seriam insuficientes e precários, reflexos da demanda periferia-centro, acarretando congestionamentos no Plano Piloto. Haveria carência de escolas e professores para a rede de ensino comprometendo a educação de crianças e jovens. Os hospitais públicos e privados não teriam leitos suficientes para a população do DF e Entorno. O território do Entorno receberia, como atualmente, o excedente populacional do DF, dando sinais visíveis de inchaço e violência urbana, reproduzindo a favelização de Brasília. Entorno e Brasília seriam uma cidade só, conurbada.

No cenário otimista, o Plano Piloto estenderia os benefícios da urbanização a todo o território. Haveria exemplar rede escolar de ensino fundamental e médio a ponto de não haver crianças e jovens fora da escola. As universidades abririam faculdades em diversos pontos do DF e Entorno para que os universitários não necessitassem deslocar-se até o centro. Os hospitais, bem distribuídos no território e bem equipados, não submeteriam a população a filas de espera nos corredores e macas hospitalares. Planos de habitações populares acabariam com o déficit de moradias. As atividades econômicas possibilitariam a abertura de novas vagas, com a disseminação no DF de novas lojas, indústrias e serviços, a ponto de absorver grande parte da população economicamente ativa (PEA) das localidades, extinguindo o “comércio ambulante”. O trem metropolitano atenderia a maior parte do DF, suplementado por empresas de ônibus que cobririam toda malha urbana, agora dotada de pistas cimentadas e de maior durabilidade. A rede de transporte público reduziria a circulação de automóveis, dado que o petróleo, escasseando, poria um freio ao uso individual de veículos.

A partir dos 46 anos de Brasília, pelo labutar de sua população e governos, esperamos que a segunda hipótese possa ser vislumbrada no ano de 2050, com motivos palpáveis para comemorar.

     

Aldo Paviani é pesquisador associado da Universidade de Brasília – UnB

Artigo publicado originalmente no Correio Braziliense. Brasília, 19 abr. 2006, Caderno Opinião, p. 19.

   
     
    Minha Cidade 160 – abril 2006
   

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