De: Michelly Ramos
Data:
Thursday, May 11, 2006 7:04 PM
Assunto:
Minha Cidade 161 Vitória ES Brasil

Caros Colegas,

Em primeiro lugar, quero dizer que fiquei imensamente feliz em acessar o Vitruvius e ver algo sobre a minha cidade, mais ainda em ver um debate em torno do projeto da PMV na Praia de Camburi. Pude perceber que não existem mais fronteiras para um bom debate, tanto pela minha distância de Vitória, quanto pela coragem de publicar um trabalho que impele tantos questionamentos (estamos diante de novas formas de espaços públicos contemporâneos!). Sobre o questionamento, queria dizer, citando as palavras de um grande professor de desenho e planejamento de cidades, Percy Johnson-Marshal, que se algumas idéias estão sujeitas a críticas é, em parte, porque ao menos estão ali para que todos possam vê-las, e também porque a sabedoria do juízo a posteriori está muito estendida.

Na verdade, quero levantar algumas questões, especialmente em torno dos espaços públicos contemporâneos – o que está sendo mais discutido neste fórum. Como estou há um tempo longe de Vitória, e sinceramente um pouco desinformada dos projetos para a cidade, muito me surpreendeu este estudo para a orla – não que ela não mereça um bom tratamento urbanístico, paisagístico e arquitetônico. Lembrei-me de um livro de Flávio Villaça (Espaço intra-urbano no Brasil) em que ele fala exatamente dos espaços de interesse da "burguesia", os quais sempre são o eixo de crescimento dessa classe e, por conseqüência, o foco de intervenções do poder público. Ao lembrar desse livro, transportei a idéia num sentido mais restrito, talvez, à do privilégio dado a essa classe pelo poder público – e aqui, concordando com Daniel e Fabiano, num privilégio dado a uma classe "consumidora do privado".

Outra coisa que me incomoda é a questão do propósito da arquitetura. E me questionei, ao ler os debates, sobre o seu sentido. Se ela tem que ter sentido, se é capaz de promover mudanças de comportamento, se ela dá sentido de comunidade: são questões que me perseguem. Creio que a arquitetura, ou a falta dela, pode promover espaços de debate. Se uma obra, um objeto, é um constructo, o sentido à ela vai ser atribuído de diferentes maneiras, pois o lugar só é "lugar de fato" a partir do momento em que damos sentido a ele. Neste ponto, cabe questionar quais os sentidos que queremos dar – e eles podem ser muitos em uma mesma obra. A atribuição do sentido é pessoal; o julgamento também. Logo, conformar espaços públicos é trabalhar com todas as classes, com todas as idades, com todas as cores e com todos os públicos possíveis e imagináveis, o que não é fácil.

Talvez eu não esteja sendo muito prática nesse levantamento de questões, mas concordo com as críticas apontadas em relação aos espaços públicos. Na verdade, pouco conheço do projeto, mas imagino que ele deva ser cheio de qualidades. Todas as questões que foram levantadas só o enriquecem pois, afinal, com quem vamos discutir nossas reflexões senão com nossos pares?! (sem esquecer é claro de todos os "atores" que usam a cidade). Mas quero parabenizar os debatedores. Aos que tem coragem de expor seus projetos, as suas indagações e as suas críticas; os que acendem e deixam aceso; todos estes fazem, na verdade, um exercício intelectual quase subliminar.

Abraço.

[Michelly Ramos, arquiteta urbanista, São Carlos SP]