De: Antônio José Pedral Sampaio Lins
Data: Monday, May 22, 2006 5:22 PM
Assunto: Opinião emocionada!

Como freqüentador assíduo do Parque do Aterro do Flamengo, compartilho a preocupação de todos quanto as desfigurações que estão em processo. Mais uma vez, creio, a justiça oferece argumentos para a desfiguração de um bem tombado. Quantas vezes já ouvimos histórias semelhantes antes. O pátio do Convento do Carmo, desfigurado e desfigurando ambiência da Praça XV, entre outros. Não sou daqueles que olham somente para o passado, achando que tudo em volta deva ser congelado no tempo. Na minha opinião estamos diante de um caso concreto de interese econômico, em nome das competições do PAN. Após os jogos será, com toda a certeza, a expansão do "negócio" de quem explora a Marina da Glória, que, além de tudo, privatizou, por contrato toda a região dos piers, praias, instalações esportivas e de apoio. O local, todo o fim de semana, é cedido a feiras e shows musicais, servindo claramente aos interesses do empreendimento e não ao dos esportes nauticos ou públicos. Privatizou-se o que foi público um dia. Falta pouco para transformar a Marina, que deveria ser pública e accessível em um clube privado, como o Yate Club. Quem sabe nos próximos dois ou três anos isto acontecerá?

Consideremos, numa visão maior, que o Aeroporto Santos Dumont também está em processo de expansão e ampliação. As novas instalações destinadas a estacionamento e novas áreas destinadas ao embarque e desembarque de passageiros, embora fora da área de proteção, irá interferir com a paisagem que pretendeu-se, um dia, preservar. O aeroporto que tem um significado especial para os arquitetos - obra paradigmática do Movimento Modernista no Rio de Janeiro, dos Irmãos Roberto - sempre foi o diferencial no movimento de chegada e saída dos turistas na cidade; embarque e desembarque pela pista, como nos velhos tempos. A ampliação em curso, irá, com certeza, aumentar a movimentação de aeronaves no tráfego aéreo do entorno do Aterro e do bairro do Flamengo. Tudo em nome do "progresso, segurança dos passageiros e desenvolvimento da cidade". Argumento fartamente usado pelas elites no passado para desfigurar a cidade, seu Centro Histórico e sua Paisagem.

Ambas as obras são fruto, com certeza, do "GRANDE NEGÓCIO" que viraram as cidades, de um modo geral. Não importam mais as memórias e os seus significados para seus moradores e visitantes. Fruto da ambição desenfreada do capital, que tem na cidade seu espaço de multiplicação, estamos órfãos, também de autoridade e contrôle do espaço público. O prefeito (em minúscula mesmo, pois não merece mais que isto) se omite e, em nome de uma "Neo liberalidade" insana, está enterrando nossa cidade em um processo galopante de descaso com o espaço público e simbólico de nossa cidade. O poder judiciário se resguarda atrás de legislação contraditória elaborada pelos mesmos que estão na espectativa dos "EXCELENTES NEGÓCIOS". Aonde anda o Ministério Público? Será que atentou para o fato?

[Antônio José Pedral Sampaio Lins, Arquiteto e Mestre em Urbanismo - PROURB/FAU-UFRJ]