| De:
Antonio Carlos Cardoso Guedes
Data: sexta-feira, 28 de março de 2008 10:48
Assunto: Artigo "Mar revolto na Marina
da Glória"
Já não
basta a enganação como a construção de garagens
para o pan e agora Olimpíadas. A idéia agora é
transformar a marina num shopping... E haja terreno... Que tal destruir
o parque inteiro para fazer um imenso palco? Veja artigo "Mar revolto
na Marina da Glória", de Gabriela Temer e publicado no Jornal
O Globo.
[Antonio Carlos Cardoso
Guedes, Rio de Janeiro RJ]
Mar
revolto na Marina da Glória
Jornal O Globo, Caderno Zona Sul, quinta-feira, 27/03/2008,
p. 24 a 31
De Gabriela Temer

Relatório do TCM aponta
supostas irregularidades na gestão da área e usuários dizem que local
virou praça de eventos
A exploração da Marina
da Glória pela Empresa Brasileira de Terraplanagem (EBTE) volta a estar
no centro de uma tormenta. Usuários dizem que a Marina está abandonada,
e acusam a companhia de não investir na atividade fim do espaço, que
teria sido transformado numa praça de eventos. Um dossiê a que O GLOBO-Zona
Sul teve acesso, elaborado pelo Tribunal de Contas do Município em 2006,
também aponta para o descumprimento de itens do contrato de cessão de
uso voltados para a parte náutica. O documento questiona ainda a ampliação
da exploração da área por mais 30 anos, apesar da situação de falência
da administradora, que na época apresentava um passivo de R$ 2,7 milhões,
e levanta suspeitas de irregularidades na prestação de contas da empresa.
A Marina da Cidade
— empresa criada pela EBTE para gerenciar a concessão — paga mensalmente
ao município R$ 14.778 pela exploração da área, que tem cem mil metros
quadrados e dois pavilhões que podem ser alugados por valores superiores
a R$ 15 mil por dia, segundo a própria EBTE. Apesar disso, e contrariando
o Estudo de Viabilidade Econômica, que previa prejuízo contábil apenas
até o quinto ano de concessão, a empresa continua sem dar retorno após
12 anos de exploração. E, de acordo com usuários do espaço, a companhia
não vem investindo na melhoria e modernização de serviços e equipamentos
náuticos, como coleta de esgoto e instalação de hidrômetros individuais
para as embarcações. Nem mesmo as defensas (proteção colocada no píer
para evitar danos aos barcos) são fornecidas pela Marina da Cidade.
— A atividade fim
da Marina, que é funcionar como um porto, não vem sendo cumprida. O
espaço se transformou numa praça de eventos — diz Antonio Guedes, que
tem uma embarcação ancorada na Marina. Obrigações contratuais ligadas
à manutenção da área náutica também não estão sendo cumpridas. A cessão
prevê que a empresa concessionária deve assegurar o bom estado de funcionamento
do cais, píeres flutuantes, fingers e demais equipamentos naúticos.
Equipes do GLOBO-Zona Sul, entretanto, estiveram no local nas últimas
semanas e verificaram que parte das instalações estava em mau estado.
Um dos fingers estava afundando e diversos trechos dos píeres de madeira
estavam sem piso. E um deles foi preso ao pilar de sustentação com cabos
de aço.
Píer previsto em
contrato não foi erguido

O dossiê elaborado
pelo Tribunal de Contas do Município (TCM) em 2006 também aponta para
o descumprimento de itens previstos no contrato de cessão de uso da
Marina da Glória. Ao assumir a exploração da área, o porto contava apenas
com dois píeres. Pelo documento, assinado em 1996 e com validade de
dez anos, a concessionária deveria aumentar a infra-estrutura para quatro
píeres, com oferta de 50 vagas em cada um deles. Mas, até 2006, quando
expirava o prazo de concessão, a Marina da Cidade tinha construído apenas
um píer, com capacidade para 36 barcos de até 50 pés.
Na época, a empresa
alegou que não havia demanda que justificasse o investimento. Apesar
de o relatório do TCM ter apontado o descumprimento da obrigação, o
Termo Aditivo foi assinado, ampliando a exploração por mais 30 anos.
Hoje, passados mais dois anos, a marina continua contando com apenas
três píeres. Questionado sobre a prorrogação da cessão de uso mesmo
diante dessas condições, o prefeito Cesar Maia se defende: — A fiscalização
do cumprimento do contrato cabia ao Comitê Olímpico Brasileiro e à confederação
correspondente.
O pedido foi deles,
e o "ok" foi deles. Vou pedir que a refaçam, pois eles nos
deram o "de acordo", que não é nossa especialidade. O diretor
de planejamento da EBTE, José Alfredo Correa, alegou novamente que ainda
não ergueu o quarto píer porque não há demanda. Mas explicou que dispõe
de um atracadouro removível, que pode ser disponibilizado em dias de
evento. Ainda segundo ele, a empresa não teria a obrigação de construir
as quatro estruturas.
— Não temos obrigação.
O contrato diz que temos de fazer, mas não diz quando. Mas nós não deixamos
de receber ninguém aqui por falta de espaço — defende-se. Correa admite
ainda as falhas na conservação do espaço e na prestação de serviço,
mas minimiza o problema recorrendo a números que acabam contradizendo
a alegação de que não há demanda para a ampliação dos atracadouros.
— O índice de satisfação é alto, e prova disso é que estamos com a disponibilidade
de vagas totalmente tomada.
Mas, evidentemente,
qualquer serviço implica em falhas, que procuramos corrigir prontamente
— diz ele, que completa. — A terceira edição da Volvo Ocean Race, em
2009, será aqui. O que significa que temos a aprovação dos críticos
tecnicamente mais preparados para julgar o nosso serviço. Não é a opinião
do experiente regatista italiano Giovanni Soldini, vitorioso em mais
de uma dezena de competições internacionais e mundiais. De passagem
pelo Rio de Janeiro depois de cruzar o Atlântico na regata Jacques Vabre,
da qual também saiu vencedor, Soldini critica a infra-estrutura da Marina
da Glória, tachando-a de o pior porto que já tinha visto e dizendo que
nunca mais voltaria ao local.
— Cheguei ao Rio por
volta das 7h e só consegui ser atendido e obter informações três horas
depois. Não há estrutura, o espaço para ancorar os barcos é pequeno
e sem área para manobra. E ainda faltou água. A vaga é caríssima, não
há nada que justifique o preço. Na Europa, por este valor, ficase numa
marina com piscina, área de lazer e tudo o mais — reclama ele. Correa
atribuiu a falha no fornecimento de água à Cedae: — Ele (Soldini) chegou
aqui num dia em que houve um problema com a bomba da Cedae.
Contas também estão
sendo questionadas
Supostas irregularidades
na prestação de contas da Marina da Cidade também são apontadas pelo
dossiê elaborado pelo TCM. O relatório questiona a contratação da EBTE,
por parte da Marina da Cidade, para prestar serviços na realização de
eventos, uma vez que, pelos contratos de cessão do espaço comercial,
cabe à empresa que aluga a área arcar com todos os investimentos referentes
a instalações de equipamentos, montagens, infra-estrutura e demais atividades.
O levantamento feito
pelo tribunal mostra que, em dezembro de 2004, por exemplo, a Marina
da Cidade apresenta na sua demonstração de resultados despesas de R$
981.405.
Deste total, entretanto,
R$ 938.156 referem-se ao pagamento de ser viços prestados pela EBTE
em instalações elétricas, hidráulicas e construção de estandes provisórios
para uma série de eventos realizados ao longo do ano. O dossiê chama
atenção, ainda, para o fato de a despesa ser bem maior do que a arrecadação
(R$ 553.462) obtida com o aluguel do espaço naquele mesmo ano.
De acordo com os analistas
do TCM Marcelo Ribeiro e Marco Aurélio da Silva, que assinam o relatório,
os serviços prestados pela EBTE não encontrariam respaldo nos próprios
contratos de cessão do espaço para os eventos. Especialistas que analisaram
o documento a pedido do GLOBO-Zona Sul acham que os pagamentos feitos
pela Marina da Cidade à EBTE poderiam caracterizar uma distribuição
disfarçada de lucros.
O prefeito Cesar Maia,
dessa vez, sugere uma fiscalização do governo federal, embora o contrato
seja municipal: — Caberia uma fiscalização da Receita Federal.
Outro questionamento
feito pelos técnicos do TCM diz respeito ao risco de a Marina da Cidade
não ter condições financeiras para implementar as melhorias previstas
na prorrogação da cessão de uso, uma vez que a empresa estava com uma
dívida de R$ 2,7 milhões. O presidente do Instituto Brasileiro de Estudos
em Finanças e Administração Pública, Nelson Rocha, faz a mesma ressalva.
E sublinha que as contas da cessão deveriam ser fiscalizadas pela Secretaria
municipal de Fazenda com mais rigor.
— A prorrogação não
tem cabimento. Entre 2001 e 2005, a empresa só teve prejuízos. Ela é
insolvente e a ampliação só seria cabível e houvesse outras variáveis
futuras no mercado que pudessem revalidar este quadro — afirma. O diretor
de planejamento da EBTE, José Alfredo Correa, rebate alegando que, se
as dívidas fossem postas nas contas da EBTE, elas serias insignificantes.
— A concessão foi dada à EBTE com a exigência de que ela constituísse
uma empresa para administrar.
Mas o investimento
é da EBTE. Se puséssemos este valor na EBTE, não haveria insolvência
— diz ele. Correa admite, porém, que a Marina da Cidade não vem dando
retorno. — Temos um plano de investimento para aumentar a oferta de
vagas. Não esta dos ganhando dinheiro, ainda, mas achamos que esse é
um bom negócio e que, em breve, teremos um retorno.— completa.
Mais uma obra embargada

Mais uma obra realizada
sem licença pela EBTE foi embargada esta semana. Técnicos da Secretaria
municipal de Urbanismo vistoriaram a Marina da Glória segunda-feira,
e constataram que a empresa estava erguendo um prédio irregular para
abrigar um novo restaurante. O imóvel estava sendo construído no lugar
de uma antiga lanchonete, considerada irregular pelo Iphan. A operação
ocorreu após alerta do GLOBO Zona-Sul.
Os técnicos verificaram
que a obra não tinha licença nem da prefeitura, nem do Iphan. O diretor
de planejamento da EBTE, José Alfredo Correa, alega que a movimentação
no trecho não caracterizava uma obra, e sim uma demolição. Ele admita,
porém, que a área estava sendo preparada para dar lugar a um novo e
luxuoso restaurante. — Havia uma lanchonete ali, mas o prédio estava
deteriorado e nós demolimos. Deixamos a fundação no mesmo local e estamos
cimentando o piso enquanto aguardamos a autorização da prefeitura para
construir o novo restaurante — diz Correa. O arquiteto e urbanista Canagé
Vilhena, consultor do Crea-RJ, rebate a alegação e informa que, tecnicamente,
uma demolição é uma obra. — É uma obra de engenharia que necessita de
licença da prefeitura — afirma.
Apesar da tentativa
dos seguranças da Marina da Glória de impedir que fotografias fossem
feitas pelo lado de fora, equipes do GLOBO-Zona Sul estiveram no local
área semana passada e constataram que, além da movimentação de terra,
funcionários estavam instalando novos alicerces no terreno. Perguntados
sobre a atividade, os trabalhadores responderam que estavam construindo
um novo restaurante. A intervenção também ultrapassou a área delimitada
pelas antigas fundações, com possíveis danos às vegetação local. O superintendente
do Iphan, Carlos Fernando de Andrade, diz que a demolição da lanchonete
atende a uma antiga reivindicação do instituto. Mas adverte: — Se a
demolição for prenúncio de uma construção nova, não conta com a nossa
autorização.
EBTE diz que vai
cortar estacas fincadas na baía
A polêmica sobre as
obras de construção da garagem de barcos da Marina da Glória, embargadas
em 2006 pelo MP federal e pelo Iphan, promete entrar em um novo round.
Em entrevista concedida ao GLOBO-Zona Sul, o diretor de planejamento
da EBTE, José Alfredo Correa, e o advogado Luiz Paulo Viveiros de Castro,
representante da empresa, anunciaram que as dezenas de pilares de concreto
fincados nas águas da Baía de Guanabara serão cortados. Indagados a
respeito da ação que determinou a paralisação das obras e sobre a retirada
das estacas, Viveiros respondeu: — Já cortaram aquilo? Não? (falando
com Correa). Bom, nós vamos fazer isso agora. Perguntado, então, se
a iniciativa não seria uma forma de retomar a obra, ele declarou: —
Temos uma discussão judicial sobre isso e não vamos tirar as estacas
enquanto não houver uma decisão definitiva, porque tem-se alguns milhões
enterrados ali. Mas vamos cortar, já que ali ia ser cortado de qualquer
maneira para receber a laje da garagem. Agora, até para cortar tem de
tomar cuidado, porque quando formos fazer, alguém vai denunciar dizendo
que voltamos a construir.
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