Em nome do Parque
Fernando Magalhães Chacel, Arquiteto Paisagista
Para mim o Rio de
Janeiro é uma cidade-paisagem feita de sol, azuis e verdes.
Foi essa magnífica
paisagem geográfica que conferiu ao Rio o título de Cidade Maravilhosa.
Paisagem que causa
admiração e encantamento a todos aqueles que pertencem ao mundo dos
sensíveis, independentemente da latitude e longitude de suas origens.
Foi na paisagem
atlântica da Baia de Guanabara, da qual emerge o Pão de Açúcar, ícone
da nossa cidade, que surgiu o Parque do Flamengo.
Para que isso fosse
possível, o então Governo do Estado da Guanabara convocou nos idos
de 1960, brasileiros que se notabilizaram nos seus diversos campos
de atuação profissional para sonhar e realizar o mais importante parque
urbano da nossa cidade.
Da equipe interdisciplinar
que constituiu o Grupo de Trabalho do Aterro do Flamengo, toda ela
escolhida e formada por profissionais de alta competência, não posso
deixar de citar aqui Roberto Burle Marx, Affonso Eduardo Reidy, Luiz
Emygdio de Mello Filho e, naturalmente, a coordenadora do grupo, Maria
Carlota de Macedo Soares, a Lota.
Cinco anos depois
da formação desse Grupo, o carioca recebia para sua utilização e satisfação
um belo parque, harmonioso em seu desenho, coerente no seu funcionamento,
adequado na escolha de seus equipamentos, e onde o equilíbrio entre
o construído e o plantado contribuiu de forma incontestável para a
integração da paisagem cultural à paisagem natural.
É dentro dessa ótica
que gostaria de colocar-me como arquiteto paisagista e cidadão: não
posso aceitar esse mega projeto desenvolvimentista já em fase inicial
de implantação no Parque do Flamengo. Apenas nesse momento, deixo
de tecer comentários ou apreciar os aspectos jurídicos que buscam
apoiá-lo ou a ele dar sustentação.
Quero dar vazão
tão somente aos meus sentimentos.
Sentimento de tristeza
– ao constatar a falta de consideração e decoro em relação à paisagem
da nossa cidade – onde tudo parece ser permitido desde que gere proventos
para quem quer que seja.
Sentimento de insatisfação
– por não ter sido dada à sociedade a visibilidade necessária desse
mega projeto, através de informações precisas, confiáveis e esclarecedoras
de seus impactos negativos sobre o Parque, no que diz respeito a seus
aspectos físicos, bióticos e sócio econômicos.
Sentimento de indignação
– pela maneira antidemocrática como todo o processo vem sendo conduzido,
lembrando épocas sombrias e sinistras de um passado recente e ainda
presente na memória dos que viveram aqueles tempos.
Sentimento de repúdio
– pelo desrespeito demonstrado nesse projeto para com todos aqueles
que deixaram de existir e que legaram à nossa cidade, com seu trabalho,
dedicação, persistência, talento e genialidade, um dos parques urbanos
mais importantes do mundo. Não posso deixar de pensar qual seria a
reação daquelas pessoas neste momento tão difícil e delicado para
a preservação da integridade do Parque do Flamengo e da própria paisagem
carioca:
- Carlos Lacerda
reagiria com o poder de seus pensamentos e sua palavra desestabilizadora.
- Lota de Macedo
Soares reagiria com a sua coragem, persistência e sua atitude passionária
e apaixonada na defesa de seus ideais.
- Burle Marx reagiria
com sua belicosidade e com a afirmação de sua crença na defesa daquilo
que a natureza tem de mais belo.
- Affonso Reidy
reagiria com seu equilíbrio, sensatez e profundo conhecimento do
urbano.
- Luiz Emygdio
reagiria com a sua extraordinária sabedoria no campo da Botânica
e do Paisagismo; com a sua integridade, com a sua humanidade e com
a sua palavra certa nas horas incertas.
A nós, resta procurar
resgatar, com todas as nossas forças, esse espírito de luta e a crença
de que vale a pena acreditar, tão própria daqueles que nos antecederam.
O Parque do Flamengo e a paisagem de nossa cidade merecem. Iremos
certamente sentir-nos compensados e gratificados de lutarmos por eles,
com todas as armas que possamos empunhar, não importando estarmos
no segundo tempo do jogo e nem de como será difícil ganhar a partida.
Rio de Janeiro,
01 de junho de 2006.