De: Eduardo Barra
Data: Friday, June 02, 2006 11:56 AM
Assunto: SOS Parque do Flamengo - Depoimento de Chacel

Segue em anexo o depoimento de Fernando Chacel prestado na Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

Tomo a liberdade para incluir nesta mensagem um pequeno trecho de entrevista de Luigi Pirandello a Sergio Buarque de Holanda, por ocasião de sua passagem pelo Rio em 1927:

"Os arranha-céus no Brasil provêm de um erro profundo.[...] Penso muito que, de um modo geral, a arquitetura no Rio é quase uma ofensa à paisagem. Deve-se procurar sempre uma linha correspondente à da natureza."

[Eduardo Barra, arquiteto e professor, Rio de Janeiro RJ]

Em nome do Parque
Fernando Magalhães Chacel, Arquiteto Paisagista

Para mim o Rio de Janeiro é uma cidade-paisagem feita de sol, azuis e verdes.

Foi essa magnífica paisagem geográfica que conferiu ao Rio o título de Cidade Maravilhosa.

Paisagem que causa admiração e encantamento a todos aqueles que pertencem ao mundo dos sensíveis, independentemente da latitude e longitude de suas origens.

Foi na paisagem atlântica da Baia de Guanabara, da qual emerge o Pão de Açúcar, ícone da nossa cidade, que surgiu o Parque do Flamengo.

Para que isso fosse possível, o então Governo do Estado da Guanabara convocou nos idos de 1960, brasileiros que se notabilizaram nos seus diversos campos de atuação profissional para sonhar e realizar o mais importante parque urbano da nossa cidade.

Da equipe interdisciplinar que constituiu o Grupo de Trabalho do Aterro do Flamengo, toda ela escolhida e formada por profissionais de alta competência, não posso deixar de citar aqui Roberto Burle Marx, Affonso Eduardo Reidy, Luiz Emygdio de Mello Filho e, naturalmente, a coordenadora do grupo, Maria Carlota de Macedo Soares, a Lota.

Cinco anos depois da formação desse Grupo, o carioca recebia para sua utilização e satisfação um belo parque, harmonioso em seu desenho, coerente no seu funcionamento, adequado na escolha de seus equipamentos, e onde o equilíbrio entre o construído e o plantado contribuiu de forma incontestável para a integração da paisagem cultural à paisagem natural.

É dentro dessa ótica que gostaria de colocar-me como arquiteto paisagista e cidadão: não posso aceitar esse mega projeto desenvolvimentista já em fase inicial de implantação no Parque do Flamengo. Apenas nesse momento, deixo de tecer comentários ou apreciar os aspectos jurídicos que buscam apoiá-lo ou a ele dar sustentação.

Quero dar vazão tão somente aos meus sentimentos.

Sentimento de tristeza – ao constatar a falta de consideração e decoro em relação à paisagem da nossa cidade – onde tudo parece ser permitido desde que gere proventos para quem quer que seja.

Sentimento de insatisfação – por não ter sido dada à sociedade a visibilidade necessária desse mega projeto, através de informações precisas, confiáveis e esclarecedoras de seus impactos negativos sobre o Parque, no que diz respeito a seus aspectos físicos, bióticos e sócio econômicos.

Sentimento de indignação – pela maneira antidemocrática como todo o processo vem sendo conduzido, lembrando épocas sombrias e sinistras de um passado recente e ainda presente na memória dos que viveram aqueles tempos.

Sentimento de repúdio – pelo desrespeito demonstrado nesse projeto para com todos aqueles que deixaram de existir e que legaram à nossa cidade, com seu trabalho, dedicação, persistência, talento e genialidade, um dos parques urbanos mais importantes do mundo. Não posso deixar de pensar qual seria a reação daquelas pessoas neste momento tão difícil e delicado para a preservação da integridade do Parque do Flamengo e da própria paisagem carioca:

  • Carlos Lacerda reagiria com o poder de seus pensamentos e sua palavra desestabilizadora.
  • Lota de Macedo Soares reagiria com a sua coragem, persistência e sua atitude passionária e apaixonada na defesa de seus ideais.
  • Burle Marx reagiria com sua belicosidade e com a afirmação de sua crença na defesa daquilo que a natureza tem de mais belo.
  • Affonso Reidy reagiria com seu equilíbrio, sensatez e profundo conhecimento do urbano.
  • Luiz Emygdio reagiria com a sua extraordinária sabedoria no campo da Botânica e do Paisagismo; com a sua integridade, com a sua humanidade e com a sua palavra certa nas horas incertas.

A nós, resta procurar resgatar, com todas as nossas forças, esse espírito de luta e a crença de que vale a pena acreditar, tão própria daqueles que nos antecederam. O Parque do Flamengo e a paisagem de nossa cidade merecem. Iremos certamente sentir-nos compensados e gratificados de lutarmos por eles, com todas as armas que possamos empunhar, não importando estarmos no segundo tempo do jogo e nem de como será difícil ganhar a partida.

Rio de Janeiro, 01 de junho de 2006.