| De:
Jean-Pierre Janot
Data: Tuesday, August 08, 2006 5:54 PM
Assunto: Marina da Glória – Minha Cidade 162 – maio 2006
Prezados colegas,
Acho ótimo
que a classe se manifeste junto com a população contra
a deturpação de um patrimônio como o Parque do Flamengo,
mas por mais que eu saiba que para ter efeito, o discurso de protesto
tem que ser mais virulento e radical do que o determinado pelo bom senso,
acho que cabe a nós – arquitetos – trazer a discussão
para um nível mais razoável e construtivo; vejo vários
absurdos no projeto da expansão da marina (como a tal divisória
sobre a murada, a verticalização do pavilhão ou
a garagem náutica em frente à Varig), mas também
vejo alguns "desvios oratórios" no texto das nossas
colegas, e gostaria de levantar algumas questões:
– algum dos
colegas já viu (ou fez) obra sem tapume?
– passeio semanalmente
pelo Aterro e posso testemunhar: o posto de abastecimento já
existe no local (há anos!), o acesso a prainha não foi
fechado e a ciclovia foi simplesmente desviada, para não ser
interrompida!
– os espaços
e edificações da Comlurb, da FPJ e da GM, além
da torre meteorológica (desativada) faziam parte do projeto original?
E aqueles clubes, dentro da área tombada, têm arquitetura
compatível com o conjunto do Parque, ou com o vizinho MAM?
– existem banheiros
públicos – desativados – que poderiam ser vestiários
da GM, e quiosques suficientes para aquecerem suas marmitas, não
acredito que a diminuição da frequência das rondas
tenha usado esta desculpa...
– uma marina
é, e sempre foi, um (mero) estacionamento de barcos, mas para
isto precisa de píers, garagens de barcos, lojas e espaços
administrativos; precisa também de águas protegidas, e
a construção dos molhes (o existente, construído
pela Prefeitura e arrasado pelas ressacas, e o novo, projetado pela
marina) têm como objetivo principal quebrar as ondas maiores,
que impedem o pleno aproveitamento interno da marina (conforme o projeto
original, inclusive: a enseada tem aquele desenho en espiral para servir
de abrigo para barcos, ou não?);
– não
vejo o funcionamento da marina, mesmo operada por empresa privada, como
"apropriação de espaço publico": é
perfeitamente normal no mundo todo o controle de acesso a uma marina,
mesmo "pública", por razões de segurança
e funcionamento, e a meu ver, o espelho d'água da enseada faz
parte da marina, ou será possível o funcionamento desta
sem o uso daquele?
– por outro
lado, trata-se de contrato de concessão registrado, com direitos
e responsabilidades definidos, num local projetado para tal.
Não conheço
o teor deste contrato – alguém se habilita? – mas
é fato conhecido dos velejadores e proprietários de barcos
que a marina do Rio, como equipamento urbano de uma cidade como a nossa,
é pequena e sua densidade de ocupação é
irrisória. Acho que o foco da questão não deve
ser a existência da Marina, ou o transtorno causado pela obra
(tapumes, remoção de arvores, desvio da ciclovia...) mas
a obra em si, o projeto de expansão e seu impacto no Parque tombado:
– a expansão
da área da marina, que tem sido reinvidicada há anos pela
EBTE, deve ser questionada e controlada: a empresa alega um funcionamento
deficitário (bastante provável...) para solicitar vários
"incrementos" seja na ampliação de suas instalações
fisicas, seja na "programação extra" (shows
e eventos) da marina; alguns destes incrementos já foram incorporados,
por serem compativeis ou toleráveis, como a feira náutica,
a etapa da regata, ou mesmo a lona tensionada sobre o pavilhão
principal, mas vários outros estudos e projetos foram discutidos
e apresentados (inclusive na imprensa), sendo successivamente barrados
pelas autoridades competentes (IPHAN inclusive);
– antes mesmo
do projeto arquitetônico, o que deveria ser (ou ter sido) discutido
é o programa de funcionamento da Marina: se a modernização
e mesmo ampliação das instalações são
"defensáveis" acho que a inclusão de um centro
de convenções, por exemplo, é oportunista e questionável:
a cidade tem realmente carência de centros de convenção
de médio porte, mas será que tem sentido projetar este
enquanto o da cidade nova ainda está na fundação?
e a garagem de barcos? o pretexto de abrigar os barcos para as competições
do Pan esconde mal o objetivo final, que é criar vagas cobertas
com aluguel mais caro...
– a concessionária
provavelmente alega, talvez com razão, que os investimentos que
ela fará para as instalações do Pan tem que ter
um retorno, mas será que esta equação está
bem montada? qual o prazo pretendido para retorno? existe algun controle
da Prefeitura sobre o balanço financeiro da Marina?
– é óbvio
que a oportunidade e urgência do PAN devem ter sido pretexto para
pressões internas e algumas "flexibilidades", mas o
fato é que o atual projeto conseguiu uma licença de obras,
e quero acreditar (mas não ponho a mão no fogo) que, além
de ser concebido dentro dos procedimentos projetuais conscientes de
nossa classe profissional – afinal, a autoria é de uma
trinca de arquitetos renomados – , tenha sido visto e visado pelos
tais orgãos competentes, com seus respectivos pareceres tecnicos
(ou não?);
– daí
se colocam uma série de perguntas: que projeto foi aprovado?
Quem assinou? Quem opinou? Foi apresentado ao público? Aos orgãos
de classe? Foi discutido com nossos colegas? Será que poderemos
conhecer melhor este projeto? Sabemos que para as obras do Pan no Autódromo,
foi exigido um EIA RIMA, não foi o caso para a Marina? (outro
projeto citado, a expansão do Santos Dumont, teve uma discussão
bastante ampla e técnica – mas não foi um projeto
da Prefeitura e sim da Infraero...) será que esta discussão
não deveria ter occorrido durante o desenvolvimento do projeto,
ou nos estudos do Pan 2007?
– talvez ainda
não seja tarde demais para discutir o projeto como um todo, e
negociar algumas alternativas: se o estacionamento (40.000m2) é
subterrâneo, o que será feito na superfície? Não
seria lícito supor (ou exigir) uma reconstituição
do estado anterior, ou do projeto original? E o tal centro de convenções
com "quase 6 pavimentos", afinal é semi-enterrado ou
não? Seu impacto na paisagem é mesmo este do croquis apresentado?
Ou uma arquitetura "de qualidade" poderia ser melhor inserida
na paisagem? Será que não existem outras soluções
para separar a servidão interna (não é uma "via
irregular") do passeio público? E esta "garagem náutica",
como será? algo como os galpões do Iate Clube? Será
que não poderia ser uma solução integrando uma
reforma dos clubes? Ou algo desmontável e transitório?
Enfim , por aí
vai... Pode parecer pretensioso, mas acho que estas questões
– mais técnicas, menos políticas – poderiam
ser mais esclarescedoras, e talvez assim pudéssemos afinar um
pouco o discurso e dar uma opinião mais balizada, que poderia
ser útil tanto para a população como eventualmente
para o poder público... Quiçá para a propria EBTE...
Não quero
minimizar a importância das questões levantadas, acredito
piamente que o caminho do urbanismo moderno (oops, perdão, "contemporâneo"..)
seja através da participação, com informação
prévia e discussão aberta, e gostaria muito de ver nossos
orgãos de classe convocarem os arquitetos e os responsáveis
municipais para uma sabatina com os usuários e amigos do Aterro,
mas contra-parafraseando o velho bordão do de Gaule: "soyons
sérieux!"
Atenciosamente,
PS – soube que o IAB do Rio abriu uma comissão para discussão
e avaliação deste projeto, talvez seja um bon forum para
aqueles que quiserem participar.
[Jean-Pierre Janot,
arquiteto, Rio de Janeiro RJ] |