De: Nabil Bonduki
Data: Monday, August 28, 2006 12:28 PM
Assunto: Especulação imobiliária no Parque do Flamengo

O que está acontecendo no Parque do Flamengo é um absurdo contra o patrimônio público, ambiental e urbano brasileiro e um atentado contra a população não só do Rio de Janeiro, mas de todo o Brasil, que admira e se orgulha da paisagem carioca. Não podemos deixar que isto vá em frente, apesar da omissão da justiça e da participação explicita de um prefeito que está vendendo que não lhe pertence. Cesar Maia quer fazer o que o General Mendes de Morais, prefeito do Distrito Federal no final dos anos 40, não conseguiu: transforma a área num espaço para a especulação imobiliária.  

Como pesquisador da obra do arq. Affonso Eduardo Reidy, pude levantar todo o processo e disputa que envolveu a implantação do Parque do Flamengo, que está parcialmente apresentada no livro sobre o grande urbanista carioca que organizei. A idéia de privatizar o aterro do Flamengo é antiga, antecede até mesmo a sua criação. Nos anos 30, alguns estudos realizados na prefeitura do Distrito Federal propunham a completa ocupação da área ganha junto ao mar, assim como uma densa reurbanização da esplanada resultante do desmonte do Morro de Santo Antonio. Em 1948, quando Reidy assume a Diretoria do Departamento de Urbanismo e propõe um novo projeto para a Esplanada e aterro, ele entra em conflito com o prefeito Mendes de Morais, que pretendia financiar a intervenção (desapropriações, desmonte do morro e aterro) com a venda dos terrenos resultantes para o setor imobiliário. Como Carmen Portinho me relatou: "o prefeito queria fazer na beira do mar uma muralha de prédios". A oposição de Reidy foi forte e sua demissão (a primeira de três na Diretoria de Urbanismo) esteve ligada a este conflito. Mas, sem o aval de Reidy, isto não foi para frente.  

O que está se fazendo no Aterro é gravíssimo e abre um precedente que coloca em risco todo o parque. Não sei como posso ajudar, mas estou à disposição dos colegas do Rio para entrar nesta briga.

Um abraço

[Nabil Bonduki, arquiteto, São Paulo SP]