| De:
Eduardo Barra
Data: Thursday, August 31, 2006 11:03 AM
Assunto: Parecer ABAP - Parque do Flamengo
PARECER SOBRE A IMPLANTAÇÃO
DO COMPLEXO TURÍSTICO MARINA DA GLÓRIA NO PARQUE DO FLAMENGO
1. Introdução
Motivada por notícias veiculadas
através da imprensa e pela constatação do ritmo de obras empreendido
em pleno Parque do Flamengo, na região da Marina da Glória, em área
tombada pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
e pertencente a um dos mais importantes patrimônios urbano-paisagísticos
da cidade do Rio de Janeiro e do Brasil, a ABAP – Associação Brasileira
de Arquitetos Paisagistas vem a público manifestar sua opinião.
2. Parque do Flamengo,
patrimônio cultural do Rio de Janeiro
O Parque do Flamengo resultou
do aterro de uma larga faixa conquistada ao mar, utilizando o material
proveniente do desmonte parcial do morro de Santo Antônio, trabalho
iniciado no final dos anos 1950, tendo como referência o projeto de
Affonso Eduardo Reidy.
O Parque está situado numa
das áreas mais impactantes da cidade, tanto do ponto de vista da paisagem
natural quanto cultural, constituindo uma importante transição entre
a Baía de Guanabara e a malha urbana consolidada. Estende-se desde o
Aeroporto Santos Dumont até o Morro da Viúva e dali até o início da
Praia de Botafogo, com aproximadamente 120 hectares. Contém algumas
edificações de grande significado da arquitetura modernista, como o
Museu de Arte Moderna, de autoria de Affonso Eduardo Reidy; o Monumento
aos Mortos da II Guerra Mundial, de Hélio Ribas Marinho e Marcos Konder
Netto; o Restaurante Rio’s, de Marcos Konder Netto; e alguns pavilhões
de Affonso Eduardo Reidy.
A implantação do projeto de
paisagismo do parque deu-se a partir do início dos anos 1960, configurando
uma das mais importantes obras de Roberto Burle Marx, considerado internacionalmente
como o mais importante paisagista do século XX. Trata-se de concepção
de parque urbano totalmente inovadora para a época, em que duas grandes
vias expressas de ligação centro-sul foram compatibilizadas com a oferta
de áreas de recreação, esportivas, culturais e de lazer contemplativo.
A concepção original, mantida até hoje, não previa qualquer tipo de
fechamento ou interrupção do continuum visual e funcional do
parque, aberto à utilização de todos, em todos os seus ambientes e a
qualquer hora do dia.
A integração do parque à paisagem
natural fica evidente quando se usufrui de seus espaços internos, que
permitem perceber que caminhos, jardins e massas vegetais se complementam
em permanente movimento muito próximo às linhas da natureza, à exuberante
paisagem natural representada pelas montanhas – o Pão de Açúcar entre
elas – e a Baía de Guanabara. As perspectivas, que se descortinam de
todos os seus ângulos, valorizam a percepção destes elementos da paisagem,
constituindo um dos principais cartões postais de nossa cidade.
O tombamento do Parque do Flamengo
ocorreu ainda na fase inicial de sua implantação, tendo sido solicitado
desde 1964 com o objetivo de protegê-lo das pressões da especulação
imobiliária ao qual estava sujeito, como bem dizia Carlota de Macedo
Soares, uma das mais bravas defensoras de sua concretização: “Pelo seu
tombamento, [...] o Parque do Flamengo ficará protegido da ganância
que suscita uma área de inestimável valor financeiro, e da extrema leviandade
dos poderes públicos quando se tratar da complementação ou permanência
de planos. Uma obra que tem como finalidade a proteção da paisagem e
um serviço social para o grande público obedece a critérios ainda muito
pouco compreendidos pelas administrações e pelos particulares”.
Em 28/07/1965 o Parque do Flamengo,
em sua totalidade, foi inscrito no Livro Arqueológico, Etnográfico e
Paisagístico do IPHAN.
3. O projeto proposto
A ABAP tomou conhecimento do
projeto objeto deste parecer a partir da denúncia de cidadãos e de esparsas
notícias divulgadas em alguns veículos da imprensa carioca, a partir
de maio do corrente. Em seguida, levantou informações de diversas fontes
e participou da apresentação realizada pelos arquitetos autores do projeto
no auditório do IAB-RJ – Instituto de Arquitetos do Brasil / Departamento
do Rio de Janeiro, ocorrida em 29 de junho passado. Hoje sabemos tratar-se
de complexo de negócios e turismo com programa de atividades totalmente
alheio aos objetivos de uma marina, cujas obras avançam sob a justificativa
de urgência motivada pela proximidade dos Jogos Pan-Americanos.
Na verdade, todo este processo
teve início em 1995 com a concessão da área da marina à EBTE – Empresa
Brasileira de Terraplanagem e Engenharia. O projeto em processo de implantação
nessa área do parque prevê a transformação de área pública em área de
negócios, com centro de convenções, centro de exposições, instalações
de clube privado, shopping center, garagem para 2.000 veículos
e outras atividades, totalizando mais de 100 mil metros quadrados de
área construída. Estabelece ainda o cercamento de toda a extensão da
Enseada da Glória, fragmentando um panorama inestimável sob o pretexto
de proteção aos barcos ali estacionados, em quantidade muito superior
à capacidade do espaço disponível. Do outro lado da enseada, os bate-estacas
cravam as fundações de garagem náutica sobre laje a ser disposta sobre
o espelho d’água tombado pelo IPHAN, com cerca de 16 mil metros quadrados
de área, sobre a qual serão edificadas as garagens que chegam a atingir
18 metros de altura.
Além de apropriar-se de área
pública, toda esta a intervenção virá danificar irreparavelmente a paisagem,
atraindo volume de tráfego e de usuários incompatível com o nível de
tranqüilidade que se espera em um parque público. E vale a pena ressaltar
que não foram cumpridos os procedimentos naturais de aprovação de projetos
desta envergadura nos órgãos competentes, de preservação do patrimônio
cultural (IPHAN, INEPAC) e dos aspectos ambientais (FEEMA, IBAMA).
4. Posição da ABAP
O que está em jogo é o desvirtuamento
de um parque do maior interesse público com prejuízo do domínio cultural
coletivo carioca de um de seus bens mais preciosos.
Segundo o IPHAN, órgão federal
responsável pelo tombamento do Parque do Flamengo, o órgão se encontra
impedido de embargar as obras, uma vez que os concessionários da área
conseguiram, em 1999, uma liminar na Justiça Federal para executá-las,
com a responsabilidade de retorná-la à condição anterior caso a Justiça
Federal favoreça o Parque e não o concessionário. Há uma ação popular
interposta por cidadãos em 1999 e procedimentos e ações contrárias à
obra tramitando no Ministério Público.
A ABAP considera que construções
desta ordem não só virão ferir a concepção inicial do parque, como também
se contrapor à visibilidade que hoje se tem dos elementos geomorfológicos,
arquitetônicos e artísticos que compõem a bacia visual da parte mais
relevante da Baia de Guanabara, que inclui a praia do Flamengo e a enseada
de Botafogo, com seus bens protegidos por legislação específica.
Objetivando conseguir esclarecimentos
sobre o projeto em execução e a sensibilização das autoridades sobre
sua inadequação ao local, a ABAP encaminhou correspondência aos órgãos
que mantêm ingerência sobre a área do Parque do Flamengo, assim como
sobre qualquer obra que ali ocorra. De todas as cartas protocoladas,
apenas o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão manifestou-se,
tendo em vista tratar-se de área de domínio da União (SPU) cedida por
regime de aforamento para a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.
Na resposta, ratifica que o uso do solo do Aterro é regulado pelo IPHAN
e que a cessão se torna nula em caso de utilização diversa da que lhe
foi destinada (marina).
Diante do exposto, a Associação
Brasileira de Arquitetos Paisagistas manifesta-se contrária ao empreendimento
em curso, na expectativa de que as obras sejam embargadas imediatamente.
Rio de Janeiro, 28 de agosto
de 2006
[Eduardo Barra, Presidente
ABAP, Márcia Nogueira Batista, Coordenadora ABAP-Rio, Rio de Janeiro
RJ] |