| De:
Carlos Fernando de Moura Delphim, Ana Rosa de Oliveira e Claúdia
Girão
Data: Wednesday, September 13, 2006 6:30 AM
Assunto: Projeto de Revitalização da Marina da Glória: algumas considerações

Parque do Flamengo - Croqui de Fernando Tábora. Fonte: escritório Roberto
Burle Marx
O texto abaixo
descrito foi produzido Carlos Fernando de Moura Delphim, Ana Rosa de
Oliveira e Claúdia Girão. Buscou estabelecer uma abordagem ampla da
proposta de Revitalização da Marina da Glória, para subsidiar a formulação
dos quesitos de apoio ao juiz da ação popular, movida por Heitor Correa.
Foi posteriormente apresentado à Comissão Especial do IAB que discutiu
o projeto, complementando e subsidiando algumas questões levantadas
sobre o mesmo.
Do ponto de vista
técnico da preservação de bens culturais a proposta de Revitalização
da Marina da Glória não se sustenta. Um bem inscrito nos Livros de Tombo
que constituem o Patrimônio Cultural Brasileiro deve ser preservado
dentro das características tipológicas e programáticas com que se manteve
até a ação protetora do Poder Público. Prevalece sempre o padrão com
que a História o legou e, embora não seja excluído um natural dinamismo,
só podem ser aprovadas intervenções de manutenção, e conservação desses
bens sendo toleradas apenas leves alterações que valorizem sem descaracterizá-lo.
O valor e a individualidade de um bem tombado transpõe até a própria
vontade do seu criador quando se trata de intervir posteriormente na
obra. Compreende-se, portanto, que um bem tombado não pode ser modificado
nem por seu criador, nem por quem herdou sua griffe.
A proposta de Revitalização
da Marina da Glória, na orla do Aterro do Flamengo, do ponto de vista
estético, programático, ambiental e social não poderia ser mais agressiva
e incompatível com o Programa original do Parque.
1. Alterações das
funções do espaço, de sua leitura e das relações coletivas com o mesmo:
Espaços públicos e
privados geram relações específicas. A manutenção do patrimônio implica
em manutenção das relações para o qual o mesmo foi concebido. Em um
Parque, a proteção da função como área pública supõe a preservação do
ambiente de convivência e de prática coletiva do espaço. O projeto,
tal como se apresenta, representa dano irremediável, à própria identidade
e finalidade original do sítio, por transformar em centro de negócios,
com características de condomínio fechado e clube privado, uma área
de pública recreação associada a uma paisagem cultural coletiva, reconhecida
pelo tombamento federal usufruída por todos desde a criação do Parque
do Flamengo e que assim deve permanecer, acessível e aberta a todos.
O desrespeito à determinação
do tombamento e o adensamento de uma área non aedificandi, com
edificações não designadas no projeto original e a delimitação de uma
área no interior do parque, com barreiras ao livre acesso público e
funções associadas a serviços e comércios, introduz uma proposta de
relação e prática do espaço completamente dissociada da original, baseados
no lazer passivo lúdico e ativo associados, respectivamente à contemplação,
às caminhadas, ao uso da praia, das ciclovias, das quadras poli - esportivas,
parques infantis, etc.
Outras atividades
específicas da obra vêm a inserir elementos que interferem negativamente
na prática coletiva do espaço público, como o impacto do tráfego, as
barreiras físicas e a inserção, de novos e desproporcionais elementos,
volumes que irão se sobressair dentro da harmônica proporção do conjunto
urbano, o que resultará em impacto adverso às finalidades da preservação.
Por outro lado, do
ponto de vista histórico, a releitura que resultará de um documento
adulterado por este incremento será certamente empobrecida, soando como
uma perda de integridade e autenticidade, condições indispensáveis à
preservação.
2. Inserção e adensamento
de edificações - em área de parque, non aedificandi
Qual a justificativa,
sobre a real necessidade da implantação do empreendimento na área do
Parque?
Não é competência
deste parecer investigar se a criação de um centro de convenções é indispensável,
nem indicar alternativas para este ou outro local, mas se a característica
peculiar do Parque do Flamengo, tal como o concebeu o grupo de trabalho,
foi baseada entre outras nas premissas que buscaram: – “cuidar tanto
da beleza e conservação da paisagem, quanto da utilidade dela, ousando
oferecer ao pedestre, o seu quinhão de sossego e lazer, ao qual ele
tem direito (...), fazer novas praias, demolir as muradas que aprisionam
a cidade, roubando-lhe a vista”, qual seria a necessidade de inserir
construções desvinculadas em um parque já consagrados pelo uso e imaginário
popular? Menciona-se não apenas o impacto definitivo sobre a vida urbana
como aqueles decorrentes da própria implantação da obra.
3. Sofismas hipotéticos:
segurança, uso de “terreno baldio”
Indicam-se como sofismas,
hipotéticos efeitos da obra, que são, entretanto, fácil e imediatamente
identificáveis como efeitos negativos à preservação. Esses efeitos não
existiriam sem a implantação do empreendimento. Não é a edificação de
um grande complexo turístico que assegurará segurança aos usuários do
Parque e a turistas ocasionais, mas sim a aplicação de políticas públicas
e recursos que se voltem à melhoria das tão degradadas condições de
vida do cidadão do Rio de Janeiro, a oferta de empregos, educação, guarda
e vigilância não apenas para servir a um turista transitório, mas para
quem ali vive cotidianamente. A proposta mostra-se tendenciosa, ao propor
o uso de um veneno como antídoto.
Quando a obra tenta
se afirmar pela demarcação definitiva em área histórica tombada de um
pool de serviços e comércio como centro de convergência de agregação,
turismo, lazer entretenimento e cultura, tenta camuflar que perigos
bem maiores decorrerão de sua implantação e não de uma suposta insegurança
a que agora está exposta a área pelo descuido das autoridades públicas
que deveriam ocupar-se da mesma.
O que marca ou demarca
uma área não são as propostas parciais, mas a própria vida de uma cidade.
A vida, a apropriação coletiva de um espaço é ainda mais importante
que a própria implantação de novas atividades, a vida cotidiana deveria
ser objeto de proteção e respeito. A idéia parece mais uma tentativa
de pasteurizar a vida naquela área da cidade do que reconhecer e valorizar
seus diferentes aspectos.
Um dos valores que
mais definem um sítio é sua identidade cultural, o que inclui o nome,
as características mais originais, os aspectos que constituem marcas
indissociáveis naquilo a que se referem. O Parque do Flamengo é, como
a cidade do Rio, inseparável da localização e situação geográfica e
da relação mar e terra. Em vez de obstrução desta relação com um mega-empreendimento
turístico porque não reciclar os armazéns abandonados do Porto do Rio,
adaptando-os a novas e revigorantes funções? Porque não revitalizar
outras áreas, no verdadeiro sentido da palavra, em vez de intervir de
forma tão duvidosa em área já consolidada pelo uso e protegida pelo
tombamento? Porque não investir em segurança em vez de criar guetos
para o turista às custas da qualidade ambiental urbana? Porque querer
conjugar dois interesses antagônicos num mesmo espaço, subjugando as
operações de preservação às de inovação e àquilo que o projeto chama
de “desenvolvimento” que expõem o bem a pressões e impactos negativos,
com danos irreversíveis à paisagem e suas formas de uso?
4. Inserção de
novas volumetrias, obstrução da paisagem e alterações irreversíveis
na sua percepção
A execução de um projeto
como este, representaria um grave descumprimento do plano original não
apenas na área da extremidade da enseada da Glória, mas em todo o contorno
e espelho d' água da enseada, área de piqueniques, jardins circundantes
e costa da baía de Guanabara.
As edificações justapostas
criariam, em terra, um grande obstáculo visual que iria competir, senão
ofuscar as condições monumentais e a percepção dos bens tombados. Além
do adensamento de edificações, o empreendimento resultará em aumento
em altura construída, questão fundamental a ser considerada, dada a
magnitude da paisagem na qual se insere. Tais construções, se levadas
adiante, criarão um obstáculo visual irreversível diante do Pão de Açúcar
e dos morros da Urca e Cara de Cão para qualquer observador parado ou
em movimento. Conseqüentemente, constituirá um dano visual irreversível
à percepção da paisagem, para cuja preservação o Parque foi criado.
As premissas do empreendimento parecem, portanto, muito distantes das
inquietudes manifestadas por Carlota Macedo Soares: “A dificuldade naturalmente
é dosar e escolher o que é necessário para isso fazendo o mínimo de
arquitetura para não tirar a vista”. Nesse sentido a obra proposta vai
contra o próprio objetivo original do Parque, que segundo as palavras
de Mª Carlota Macedo Soares: “tal como o concebeu o grupo de trabalho,
é obra urgente e inédita: cuida tanto da beleza e conservação da paisagem
quanto da utilidade dela, ousa oferecer ao pedestre, paria da idade
moderna, o seu quinhão de lazer e sossego, ao qual ele tem direito,
mas que nenhum governo até agora pensou em lhe garantir”.
A visão desimpedida
à paisagem também está em risco pela apropriação física da enseada e
de uma paisagem pública de fruição coletiva que inclui o panorama
da enseada, a baía de Guanabara e o conjunto do Pão de Açúcar. Dentre
outras, pela proposta de inserção de uma “Divisória de proteção da Marina
da Glória” com chapas de policarbonato cristal com microfuros, de 1,95m
de altura justaposta à murada baixa que contorna toda a enseada da Glória.
5. Impactos de
novos equipamentos na circulação de águas interior da enseada, configuração
da praia
A forma da enseada
da Glória, foi cuidadosamente estudada, conforme se deduz do depoimento
de Berta Leitchic: "Quando ele [Reidy] fez o primeiro projeto da
forma do Aterro, aquela enseada, mandamos para o Laboratório de Hidráulica
de Portugal para saber se era viável. Cheguei a ir cinco vezes a Portugal,
ao Laboratório Nacional de Hidráulica, que acompanhou todos os estudos
do Aterro. O cais, as praias, todos os projetos foram estudados lá,
e vejam que até hoje está tudo em pé. Senão, o mar tomava tudo de volta,
com certeza. Quer dizer, já se tinha a noção de que são obras de engenharia
que têm que ser resolvidas, não é só o traço do urbanista. Tanto assim
que o Laboratório recomendou: 'A forma é muito fechada, a entrada é
pequena, haverá pouca circulação, portanto não deve ser feito nada de
esgoto para lá, não deve ter muitas bombas de gasolina nem nada na ponta'
".
6. Impacto viário
Sabe-se que o Parque
do Flamengo foi concebido como parte de um circuito que organiza o tráfego
de veículos entre as zonas sul, norte e centro do Rio, um complemento
que se articula perfeitamente com a malha urbana.
Desde os seus inícios
houve um grande esforço por parte da equipe Roberto Burle Marx e Arquitetos
Associados para que a organização das áreas ocupadas pelas vias e pelo
parque se desse de maneira equilibrada, evitando assim que “quase todo
o espaço do Aterro fosse ocupado para tráfego, deixando escassos espaços
intersticiais que teriam transformado o parque em inúmeros fragmentos
decorados com jardins e uma praia desconectada da cidade” (1) A SURSAN
havia proposto o estabelecimento de 4 pistas de alta velocidade e a
equipe de Burle Marx defendeu a proposta de um projeto viário com duas
pistas: queriam evitar a destruição do espaço de Parque que hoje se
inscreve na cidade como uma grande avenida, sem perder, no entanto,
sua identidade.
Nas palavras de Carlota
Macedo Soares: “Fica, pois, ao governo Lacerda, a tarefa de devolver
o mar ao carioca, tráfego dê ao cidadão o direito de usar o que é dele;
fazer novas praias, demolir as muradas que aprisionam a cidade, roubando-lhe
a vista”. Mª Carlota de Macedo Soares.
Baseado no exposto,
se entre as premissas da criação do Aterro do Flamengo um dos aspectos
preponderantes foi a construção de vias expressas planejadas para viabilizarem
o melhor fluxo de veículos entre o Centro e a Zona Sul, por que interferir
negativa e diretamente no fluxo desse tráfego com a implantação de um
empreendimento deste porte ao longo das vias? Foram avaliados o impacto
e sobrecarga no tráfego gerados pela inserção de um estacionamento para
aproximadamente 2000 vagas na Marina da Glória? E o impacto sobre o
Parque?
7. Adensamento
Como o projeto garantirá
a permanência das condições de visibilidade da Baía de Guanabara e a
percepção dos bens tombados no entorno como o Pão de Açúcar, Cara de
Cão, Floresta da Tijuca, edificações tombadas da praia do Flamengo?
Houve estudos estéticos, simulações , estudos hidráulicos, houve estudos
de impacto das componentes das obras na paisagem? O cumprimento da legislação
ambiental exime a prefeitura de seguir a legislação cultural?
Quais os estudos que
antecedem a obra referentes aos estudos geológicos, impacto do tráfego
de veículos, captação de água, critérios técnicos adotados para proteger
a paisagem, a circulação de água na baía? - Haverá alteração da identidade
espacial?
Porque o empreendimento
optou por usar área pública em detrimento da área privada em vez de
adquirir área em espaço urbano para assentar seus empreendimentos. Porque
usar espaços públicos como o Parque do Flamengo, consagrados pelo uso
e pelo imaginário para construir equipamentos de serviços diretamente
associados à cidade?
Nota
1
Fernando Tábora, arquiteto co-autor do projeto do Parque do Flamengo,
membro da Roberto Burle Marx e Arquitetos Associados de 1955 a 1964
(Entrevista a Ana Rosa Oliveira em 08/01/1997 em Barcelona.
[Carlos Fernando de
Moura Delphim – arquiteto IPHAN; Ana Rosa de Oliveira – paisagista e
pesquisadora do Instituto de Pesquisas jardim Botânico do RJ; Cláudia
Girão - arquiteta IPHAN; Rio de Janeiro RJ]
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