| De:
Márcia Nogueira Batista / ABAP
Data: Saturday, November 25, 2006 6:47 PM
Assunto: As obras no Parque do Flamengo e a ABAP
No ensejo da abertura da primeira
mesa com o tema Paisagismo e Memória, vimos trazer aos presentes
ao 1º Congresso Internacional da ABAP, nossas preocupações
com relação às obras que se iniciaram no Parque
do Flamengo.
Acredito que a maioria de vocês
esteja informada sobre esta questão. Em síntese, o Parque
do Flamengo, o maior projeto de paisagismo da cidade e talvez do país,
uma das mais importantes obras de Roberto Burle Marx, está ameaçado
por ações irregulares promovidas pela Prefeitura da Cidade
do Rio de Janeiro.
Essas obras iniciaram-se nas
vésperas do grande feriado de Páscoa deste ano, sem qualquer
informação anterior à população sobre
o que se pretendia. Os usuários do Parque foram surpreendidos
com a derrubada de dezenas de árvores para formação
do canteiro de obras. Daquela data aos dias atuais, ocorreram muitos
fatos, dos quais só aos poucos fomos tomando conhecimento. Uma
batalha jurídica movida pela empresa concessionária da
Prefeitura contra o IPHAN, nosso órgão federal de patrimônio,
tem tido revezes. Se em certo momento é concedida uma liminar
a favor da empresa, dias depois é revogada por outra a favor
do IPHAN, e assim continuamos à mercê dos órgãos
da Justiça Federal. O IPHAN é contrário à
intervenção, o que foi discutido em reunião de
seu Conselho Consultivo, que se mostrou unânime quanto à
inadequação da proposta e à forma como vem sendo
conduzida a questão.
A ABAP, juntamente com outras
entidades, entre elas o IAB/RJ e diversas associações
de moradores, se colocou contrária ao projeto proposto, pelos
motivos que passamos a expor. A ABAP tem informado regularmente sobre
os fatos que estão ocorrendo e declarando sua posição,
expressa no Parecer Técnico da ABAP, disponível em nosso
site.
1. O Parque do
Flamengo, Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro
Como é de conhecimento
geral, o Parque do Flamengo resultou do aterro de uma larga faixa conquistada
ao mar, utilizando-se de material proveniente do desmonte parcial do
morro de Santo Antônio. O trabalho iniciou-se no final dos anos
1950 e tem como referência o projeto de Afonso Eduardo Reidy.
O Parque, de aproximadamente
120 hectares, está situado numa das áreas mais deslumbrantes
da cidade, tanto do ponto de vista da paisagem natural quanto cultural,
constituindo importante transição entre a Baía
da Guanabara e a malha urbana consolidada. Estende-se desde o Aeroporto
Santos Dumont até o Morro da Viúva e o início da
praia de Botafogo.
A concepção
do projeto de paisagismo foi considerada totalmente inovadora para a
época. Duas grandes vias expressas de ligação centro-sul
foram compatibilizadas com a oferta de áreas de recreação,
esportivas, culturais e de lazer contemplativo, e algumas edificações
de grande significado da arquitetura modernista, como o Museu de Arte
Moderna, o Monumento aos Mortos da II Guerra Mundial, o Restaurante
Rio’s, local onde nos reuniremos para nosso jantar de confraternização.
O park-way de Burle Marx se caracteriza por uma total abertura espacial
e continuidade visual e funcional, utilizado por toda a população
urbana, em todos os seus ambientes e a qualquer hora do dia. A iluminação
facilita o intenso uso noturno das quadras de esporte. É totalmente
integrado à paisagem natural de seu entorno, uma bacia visual
composta por montanhas que incluem, dentre outras, o Pão de Açúcar
e o Corcovado, e pela Baía de Guanabara. As perspectivas, que
se descortinam de todos os seus ângulos, valorizam a percepção
destes elementos da paisagem, constituindo um dos principais cartões
postais de nossa cidade, a marca de identificação do Rio
de Janeiro, protegida pela legislação ambiental e cultural
brasileira.
O tombamento do Parque do Flamengo ocorreu em 1965, ainda na fase inicial
de sua implantação, tendo sido solicitado com o objetivo
de protegê-lo das pressões da especulação
imobiliária ao qual já estava sujeito naquela época.
2. O projeto proposto
pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro
A Marina da Glória,
que é parte integrante do Parque do Flamengo, vem sendo, há
muitos anos objeto de ocupações irregulares. Nela, a Prefeitura
se propõe a implantar um projeto que será responsável
pela transformação da área pública em área
de negócios e turismo, com centro de convenções,
centro de exposições, instalações de clube
privado, shopping center, restaurantes, atendendo a um programa de atividades
totalmente alheio aos objetivos de uma marina embutida num parque público.
As obras, apesar dos entraves jurídicos, avançam em ritmo
acelerado com a justificativa de urgência motivada pela proximidade
dos Jogos Pan-Americanos.
Além de apropriar-se
de área pública, a intervenção irá
danificar irreparavelmente a paisagem, com volumes construídos
a 17m acima do nível do mar, a garagem náutica implantada
numa placa de 15.800 m2 sobre o espelho d’água da enseada
da Glória e o complexo turístico com 36.000,00m2
O projeto propõe ainda
o cercamento de toda a extensão da Enseada da Glória,
fragmentando um panorama inestimável, sob pretexto de proteção
aos barcos ali estacionados, em quantidade muito superior à capacidade
do espaço disponível. Esses novos equipamentos atrairão
outros usuários que não se integrarão ao Parque
tal como foi projetado, gerando novo volume de tráfego e os inevitáveis
impactos adversos à paisagem dele decorrentes.
É importante também
ressaltar que não estão sendo cumpridos os procedimentos
legais de aprovação do projeto junto aos órgãos
de preservação do patrimônio cultural e ambiental.
3. Posição
da ABAP
Fazemos questão de afirmar
que nossa posição contrária ao projeto não
tem nenhuma relação com os Jogos Panamericanos, nem é
contra nossos atletas olímpicos, merecedores de nosso respeito,
admiração, torcida e orgulho. Mas vale lembrar que em
uma sociedade democrática, acima de interesses particulares,
devem prevalecer os interesses coletivos. Portanto, consideramos que
empreendimentos desse porte têm que ser apresentados de forma
transparente, obtendo sua aprovação pelas diversas instâncias
governamentais e pela sociedade civil.
O que não se pode admitir
é que premências como a do Pan, sirvam como pretexto para
se desprezar os procedimentos legais definidos pela legislação
cultural, ambiental e urbanística, que entre em choque com o
maior ícone visual do Rio de Janeiro e do Brasil: o Pão
de Açúcar às margens da Baía de Guanabara,
que empreendimentos de caráter totalmente privado se apropriem
de uma área integrante de um parque público, transformando
um ambiente tranqüilo, protegido das tensões cotidianas
da metrópole, sucesso de público nos últimos 40
anos, num megaempreendimento que reúne atividades que nada têm
a ver com o Parque ou com a Marina e cujo funcionamento exige a criação
de 2 mil vagas de estacionamento.
Propomos pois que os profissionais
de arquitetura paisagística reunidos neste Congresso aprovem
uma moção de repúdio às ações
governamentais e empresariais que atingem interesses paisagísticos,
urbanísticos, patrimoniais, ambientais da cidade e até
mesmo do país.
Rio de Janeiro, 23 de novembro
de 2006
[Márcia Nogueira
Batista, Coordenadora do Núcleo Rio da ABAP, Rio de Janeiro RJ]
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