De: Aldo Paviani
Data: Wednesday, June 07, 2006 2:21 PM
Assunto: Comentários p/Sandra Fayad

Muito interessante seu artigo sobre grades nas quadras 700 do Plano Piloto de Brasília. Ele reflete uma preocupação dos moradores de qualquer núcleo urbano do DF e de sua área metropolitana. Aliás, em qualquer metrópole, a população anda temerosa de que algo seu passe às mãos de outrem com violência ou não... Seu artigo foi analítico de uma reunião do Compresb, mas não foi conclusivo. Dessa forma, não sabemos se as grades permanecem ou não. Mas, tranqüilize-se: as elites brasilienses protegem-se, como protegem "grileiros" de terras públicas e particulares. E mais: esses grileiros privam da intimidade do poder, quando não atuam em cargos importantes, como já denunciado por dignos parlamentares na Câmara Legislativa. Assim, penso que as grades vão permanecer.

Mas, permanecendo ou não a insegurança vai rondar nas Quadras 700, como em todas as outras... Num país marcado por tamanha desigualdade social, tanta injustiça na repartição da riqueza, é de se esperar que a violência e agressões aumentem cm grades ou não... As grades são defesa precária, mas se elas não ocupam terra de uso coletivo nem as estipulações da Lei Orgânica, uma lei específica poderia regularizá-las sob um padrão determinado. Ocorre que muitas grades invadem terra pública, assim como nos setores comerciais locais (Sul e Norte) são construídas extensões de lojas, bares e restaurantes de forma ilegal e irregular. Governo algum pode regularizar essas ocupações que deturpam o Plano Piloto de Lúcio Costa. De forma semelhante, a população, o governo e os interessados deveriam debater soluções possíveis. Essas soluções, não devem se constituir em privilégios por vias legislativas. No legislativo são esperadas normas éticas de respeito à coisa pública e ao convívio civilizado. Mas, como resolver essas questões se em toda a escala social a discriminação, a apartação sócio-espacial é marca internacionalmente reconhecida para o Brasil.

Então, Sandra, as grades chamam um elenco de questões, inclusive aquelas ligadas ao aumento da violência, da redução do desemprego e do abandono de crianças em vias públicas, sem carinho, sem amparo e sem perspectiva. Vejo, portanto, a questão das grades não apenas sob a ótica do urbanismo e da arquitetura, mas como algo que chama ações que possam reduzir a falta de seriedade com a educação, o desemprego quase endêmico, da desigualdade de renda etc. Se a grade torna a cidade mais feia, que se dirá da pobreza? Sobre esse aspecto, acaba de ser “resolvida” a greve dos garis de Brasília: os que ganham salário mínimo de R$ 350,00 passarão a ter o salário de R$ 360,00!! Enquanto isso, no Congresso Nacional e no Judiciário há salários bem superiores a R$ 20.000,00. E há juizes desejando elevar seus ganhos mensais para R$ 25.000,00. Há “justiça” em tamanho tratamento desigual a cidadãos com iguais direitos e deveres? Não estaria o problema das grades residenciais das Quadras 700 ligado a essa desigualdade? Como vê, Sandra, a questão se envolve em um enorme cipoal...

E quanto ao Compresb? Ninguém sabe quem são os conselheiros e a quem representam. Pelo que se ouve, inclusive na imprensa, decidem muito ao sabor da vontade do soberano... e de se seus áulicos. Durma-se com “ruído” desses!!

[Aldo Paviani, geógrafo, professor da UnB, Brasília DF]