De: Euclides de Oliveira
Data: Monday, June 12, 2006 6:02 PM
Assunto: Um novo lugar para o velho centro

Prezada colega Raquel, você tem razão, o maior perigo na recuperação do centro velho de São Paulo é o de que nossas administrações municipais, em concluio com os especuladores imobiliários de plantão, destinem este lugar tão significativo da metrópole exclusivamente para a moradia e lazer das classes privilegiadas, tudo isto em um charmoso "cenário" histórico reconstituído. Basta caminharmos pelo local, hoje, para constatarmos o quanto ele é importante (como centro comercial, de lazer, passeios, etc.) para a população de baixa renda, é um dos poucos lugares não periféricos de Sampa que pode ser classificado como “sendo deles”. Acho também que, como você sugere, o debate sobre o centro deve partir de escolhas sociais e políticas independentemente da "vontade dos mercados" ou coisa que o valha; e que São Paulo não pode continuar a avançar indefinidamente sobre as áreas rurais circundantes principalmente sob a forma de “condomínios horizontais campestres”, que na realidade não passam de assentamentos de luxo agressivos ao meio ambiente e nocivos a boa relação cidade-campo.

Na realidade tudo parece tão óbvio, mas não o é para muita gente, inclusive para muitos colegas nossos. Em 2004 meu escritório ganhou um concurso de urbanismo (o chamado Bairro Novo) com um projeto que pretendia, ao contrário de segregar as diferenças sociais, promover a confrontação e coexistência delas no seio do bairro. Assim, ao invés de destinarmos um local específico para os edifícios de habitações de baixo custo, criando, desta maneira, um gueto social, distribuímos estes prédios por lotes espalhados pelos diversos quarteirões previstos no plano, visando à integração de sua população ao conjunto urbano.

O Júri elogiou a solução, mas ao chegar o projeto na EMURB começaram as contestações: “O mercado não vai aceitar”...”Quem vai querer morar ao lado de sua empregada”... “Você já viu um Singapura?”, etc. Ou seja, o preconceito social existe e é fortíssimo. Bom, nem o projeto foi adiante e nem recebemos ainda os nossos honorários completos... Mas acho que temos de falar, protestar, fazer barulho (por muito).

[Euclides de Oliveira, arquiteto, São Paulo SP]