| De:
Jovanka Baracuhy C. Scocuglia
Data: Thursday, June 15, 2006 6:45 PM
Assunto: Minha cidade 164
Prezada Profa. Raquel
Rolnik,
Vc tem toda razão
quando aponta a necessidade de ampliar os programas sociais voltados
para a habitação nos antigos espaços de "centros
das cidades", em especial, no Brasil. Estas áreas apresentam
infraestrutura e qualidades espaciais desperdiçadas nos últimos
tempos em nossas cidades. Em João Pessoa-PB a área delimitada
como Centro Histórico pelo órgão do patrimônio
apresenta o maior índice de áreas verdes da cidade e o
maior número de praças dentre todas as regiôes da
cidade. E o grande número de imõveis desocupados aumenta
a cada dia.
Esta é uma
questão apontada por todos que trabalham com esta temática
no meio acadêmico, mas ainda não levada a efeito pelos
governos responsáveis por tais políticas urbanas.
Parece-me que o Estatuto da Cidade pode ser um instrumento importante
neste processo, com destaque para a Outorga Onerosa, o Uso Capião
Urbano e as ZEIS, estas últimas se destacam porque muitas destas
áreas centrais, além de serem ãreas de preservação
histórica, arquitetönica e urbanística, são
áreas de preservação ambiental o que insere outros
agravantes ao descaso com que vem sendo tratadas.
Como exemplo gostaria
de citar o caso da cidade de João Pessoa - PB, fundada em 1585
às margens de um rio, o Paraíba, hoje ocupado em sua porção
mais antiga por uma favela com mais de 1500 moradores, a "Comunidade
do Porto do Capim" , ocasionando, em parte, a poluição
e assoreamento do rio e desmatamento da floresta tropical em seu entorno.
Porém, o mercado imobiliário e sobretudo o Estado - nos
seus poderes municipal, estadual e federal - são os maiores responsáveis
por permitirem estas ocupações, fecharem os olhos aos
problemas desta população, na maioria desempregada, sub-empregada
ou mal inserida no mercado informal, sem educação básica
nem atendimento a qualquer dos direitos sociais mínimos... Além
disto, durante mais de 40 anos, foi instalado um lixão às
margens deste rio Paraíba (próximo da citada àrea
de invasão iniciada há mais de 50 anos), só retirado
no final dos anos 1990 após processo de " revitalização"
de uma Praça e de um Largo (Praça Anthenor Navarro e Largo
de São Frei Pedro Gonçalves). Estas últimas foram
áreas estratégicas enquanto públicas e de importância
como conjuntos urbanos em termos históricos e patrimoniais. Encontra-se
também há muito tempo ocupada por " pensões"
que funcionam à noite como prostíbulos e fazem com que
a resolução do problema habitacional seja dificultada
quando se pensa em como compatibilizar estas atividades com as áreas
mais propícias à moradia como Rua da Areia e adjacências
na parte baixa da cidade ou na parte alta, as ruas General Osório,
Duque de Caxias entre outras.
A atual gestão
municipal está preocupada com esta questão habitacional
do "Centro Histórico" e iniciou negociação
com órgãos transnacionais e do governo federal para também
desenvolver políticas neste sentido. Já existe um Convênio
Brasil/Espanha de Cooperação Internacional, desde 1987,
trabalhando nos monumentos arquitetônicos e na formação
de jovens restauradores e multiplicadores destas ações
através da Oficina-escola de Revitalização do Patrimônio
Cultural de João Pessoa. Embora o respaldo dos governos locais
tenha sido precário e inconstante ao longo de todos estes anos,
evitou-se a perda de edificações importantes e houve uma
espécie de "valorização"/conscientização",
ao menos, da existência e valor deste patrimônio (potencial
turístico, histórico, memorial, cultural etc) e dos problemas
que a área do antigo centro (origem da cidade) enfrenta desde
os anos 1960 de maneira mais intensa.
Enfim, esse "amadurecimento"
no trato com o patrimönio cultural e com o urbano no Brasil é
lento por parte dos órgãos públicos enquanto a
dinâmica da degradação urbana e social é
exponencial, mas é este mesmo o caminho a ser seguido e antes
tarde do que nunca.
Gostaria de parabenizá-la
pelo excelente trabalho e postura frente às questões sociais/urbanas
no Brasil, você é sempre uma referência, talvez a
mais importante e coerente, nestes últimos anos, para nós
arquitetos, urbanistas, professores e cidadãos preocupados com
a qualidade de vida urbana no Brasil e no Mundo, diria até planetária.
Abraços cordiais
[Jovanka Baracuhy
C. Scocuglia, Docente do Departamento de Arquitetura e dos Programas
de Pós-Graduação em Sociologia e em Desenvolvimento
e Meio Ambiente na UFPB, João Pessoa PB]
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