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| ano
7, vol. 1, ago. 2006, p. 167 Rio de Janeiro RJ Brasil |
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A
morte dos pilotis do Estádio de Remo da Lagoa e o declínio do espaço público |
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| Os belos pilotis em V do Estádio de Remo da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, obra exemplar da arquitetura moderna brasileira, projetada por Benedicto de Barros (1), em 1954 e tombada por Lei Ordinária pela Câmara Municipal (Lei nº 4149 de 10 de agosto de 2005), serão em breve vedados por uma cortina de vidro, descaracterizando o estádio como espaço público, aberto e democrático. Em seu lugar, uma “praça” de alimentação à prova de chuva, de luz e calor solar e também de pedintes, de assaltos e de balas perdidas encerrarão, em total segurança e conforto térmico, os espectadores das competições de remo dos Jogos Panamericanos de 2007. E, quando este passar e com ele forem embora da cidade todos os atletas convidados, visitantes e turistas pagantes, 1.120 consumidores cariocas poderão freqüentar assiduamente a “praça”, isto é, o Shopping e 7 salas de cinema Multi-Plex anexas, 330 dos quais com direito a uma vaga de estacionamento. Cidade genérica maravilhosa, não ?! Como disse Rem Koolhaas, o pós-modernismo é o único movimento que teve sucesso em conectar a prática da arquitetura à prática do pânico. “Seus edifícios de formas complexas dependem da indústria do muro-cortina, de adesivos e agentes colantes cada vez mais eficazes, que transformam cada edifício em uma mistura de camisa de força e câmara de oxigênio” (2). Difícil é remar contra esta maré global agorafóbica, privatizante e consumista. Já protestaram contra a redução do espaço de remo pelo Projeto Lagoon, da Glen Entertainment, a FRERJ – Federação de Remo do Estado do Rio de Janeiro; o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro – COB, Carlos Artur Nusman; o dirigente desportivo João Havelange; os clubes Flamengo; Botafogo; Guanabara; Escola Naval e Piraquê; o Ministério dos Esportes, os grandes campeões de Remo, o Comitê Social do Pan e a Procuradoria do Estado do Rio de Janeiro (3). Já protestaram contra a sobrecarga do tráfego da área, já congestionada pelo acesso à Barra da Tijuca, todas as Associações de Moradores do entorno e adjacências da Lagoa , o Ministério do Transporte e o Ministério do Meio-Ambiente (4). Já protestaram contra a destruição do estádio tombado Oscar Niemeyer, os membros do Docomomo-Brasil e do Docomomo-Rio e uma centena de arquitetos e urbanistas de todo o país (5). Leis, abaixo-assinados, ações cívicas e declarações não têm conseguido comover os concessionários e as autoridades responsáveis. Os pilotis do Estádio de Remo da Lagoa já não se encontram mais cobertos pela parede de tijolo em estado de petição de miséria, mas sim por tapumes e placas com credenciais dos autores do projeto e logomarcas das firmas de construção que, em breve, irão apagar da memória mais um espaço público da cidade do Rio de Janeiro. É certo que o movimento moderno não conseguiu sustentar o V de vitória pela provisão de moradia mínima digna a todos os cidadãos, nem o V de vitória de um urbanismo não excludente, mas não se pode jogar fora a criança junto com água da bacia ou vender todos os ideais na bacia das almas ulceradas de pessimismo pós-modernista. Ok, let´s entertain ! Mas não ao custo de se correr o risco de um tsunami social. Isto seria o V de vitória da burrice. |
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| Proposta de Remodelação do Estádio de Remo | ||||||||||||||
![]() Proposta de Remodelação do Estádio de Remo |
A própria antropóloga anti-modernista Jane Jacobs, que em seu livro Morte e vida das grandes cidades norte-americanas (6) criticava os grandes viadutos e conjuntos habitacionais por secionarem e isolarem as vizinhanças, alertava que para não sucumbir à barbárie, toda cidade tem necessidade de espaços públicos abertos e acessíveis, isto é, não excludentes por meio de vidros, grades, seguranças e entradas pagas. Um espaço público onde todos podem entrar e sair permite que os cidadãos sejam expostos a diferentes pessoas e visões de mundo, à interação com pessoas heterogêneas vindas de lugares os mais espalhados e distantes, e a novas impressões e experiências. Inclusive à experiência do auto-domínio do medo. Paradoxalmente, uma das características da arquitetura moderna brasileira mais admirada e copiada e da qual devemos nos orgulhar é justamente a permeabilidade generosa, livre e criativa entre o que está dentro e o que está fora. A grandeza expressa nos pilotis do Estádio de Remo, do Edifício do MEC, do prédio da FAU-USP, das superquadras e das colunas dos palácios de Brasília e de tantos outros exemplos, deve ser preservada não apenas porque pertence ao nosso patrimônio histórico e artístico, mas também porque inspira iniciativas urgentíssimas de inclusão social como, por exemplo, foi a oferta de cursos para crianças das favelas próximas da Lagoa, antes do Estádio ter sido fechado e começado a degradar. Por outro lado, quando os remadores pan-americanos e turistas forem embora, a auto-sustentabilidade do estádio poderá ser viabilizada por cursos de treinamento, academia e spa de remo, atividades ao ar-livre de pequeno porte, conferências, recepções e pequenas lojas de artigos esportivos, paralelamente aos projetos esportivos de inclusão social. |
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Diversão sim, por que não? Mas sem necessidade de confinar e excluir. Nada contra o cinema, mas a atual proliferação de tantas salas de exibição pelas cidades obriga a refletir sobre o significado de um slogan publicitário de um distribuidor de filmes, muito repetido na minha adolescência carioca: “Cinema é a maior diversão”. No dicionário Houaiss, a terceira definição de diversão é uma “ação que tem a finalidade de desviar a atenção do inimigo” e na etimologia, o verbo latim divertère significa “afastar-se, apartar-se, ser diferente, divergir”. As futuras 7 salas MultiPlex do Estádio de Remo podem até vir a exibir em looping os premiados “Cidade de Deus“ e “Central do Brasil”, para citar dois exemplos de filmes que abordam a crise habitacional, mas jamais serão espaços que, entre outras coisas, “permitem que um sem-teto possa emergir de seu confinamento a uma imagem ideológica e declarar seu direito à cidade, seu direito à política”, como na definição de espaço público da crítica de arte Rosalyn Deutsche (7). Aliás, neste sentido e ironicamente, o cine drive-in no qual o ex-governador Lacerda, indevidamente, transformou o Estádio de Remo durante um período, seria mais propício. Basta viver a violência cotidiana das nossas cidades e não precisa ser um teórico da gentrificação (8) ou da globalização (9) para desconfiar que as bolhas de assepsia social que estamos importando – shoppings, condomínios residenciais, parques temáticos, enclaves de uso misto etc - estão furadas. Como disse recentemente em entrevista o vencedor do Prêmio Pritzker, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, a urbanidade depende também de formas e relações espaciais construídas “no sentido público, democrático, livre, esclarecedor, positivo” (10). Se você também é a favor da conservação do projeto original do Estádio de Remo da Lagoa, por favor, assine o abaixo-assinado. Notas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 |
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| Maria da Silveira Lobo, socióloga, doutora em arquitetura e urbanismo pela FAU-USP, professora e pesquisadora pela FAPERJ/EAU/UFF, membro do Docomomo-Rio e Brasil |
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| Minha Cidade 167– agosto 2006 | ||||||||||||||
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