De: Rafael Barberena
Data: Thursday, December 28, 2006 1:45 PM
Assunto: Facilitando a entrada do Cavalo de Troia

O Estádio de Remo da Lagoa é uma área pública mantida pela sociedade via Estado, tem na gratuidade de utilização de todo seu complexo o grande diferencial entre o público e o privado. Enquanto o privado visa angariar dividendos advindos do pagamento pela utilização da área e pelos serviços que possa prestar, aquele (público) traz consigo, enquanto manutenção, os impostos pagos diretamente ou agregados a produtos e serviços.

Uma característica dos serviços públicos é que todos pagam. Exatamente por isso seu caráter é “coisa pública”. Diferente dos serviços particulares, onde alguns podem pagar, tendo o caráter de “coisa privada”, restrita.

O Estádio de Remo foi construído e, vem sendo mantido há mais de meio século, pelos impostos pagos pela população da cidade. Nada mais justo que se consulte a sociedade, para saber se ela deseja doar, vender,manter ou reestruturar o patrimônio público.

Este logradouro, situa-se em uma área muito valorizada da cidade do Rio de Janeiro, conseqüentemente, vem sendo pretendida pelos interesses da iniciativa privada. O poder público por sua vez, omisso e desacreditado, facilita a sanha deste capital. A observação dos fatos recentes (implosão da arquibancada em 27.12.2006) nos leva a pensar que na calada da noite se esta transformando o Estádio de Remo em área privada atendendo aos interesses dos espertos de plantão. A grande desculpa dos gestores públicos que subvertem o principio público é de que “as verbas são poucas”, “os gastos são grandes”, etc. Estão na verdade substituindo um dever do Estado para mais uma restrição e obrigação populares.

Segmentos da comunidade do remo do Rio de janeiro, travam uma resistência singular para impedir a entrega deste importantíssimo patrimônio histórico, cultural e arquitetônico do remo brasileiro. No entanto, encontram-se abandonados e entregues a sua própria sorte pelos dirigentes da confederação nacional. Estes, se mantém sem nenhum compromisso com o remo e o seu destino.

Quanto aos investidores da iniciativa privada é legitima a postura que pretendam desenvolver a contento seus projetos e seus lucros, mas, aqueles que defendem tal postura devem levar a sério o comportamento liberal que adotam, criando suas próprias instituições privadas, portanto, integralmente pagas. Comprando na forma da lei, legitimamente, a sua própria área e nela construindo seus desejos e seus lucros, pois é nessa situação que o famoso “laissez-faire” (“deixar fazer”) defendido pelo liberalismo clássico se evidencia. Caso contrário, se constituem em “Cavalo de Tróia” dentro da “coisa pública”.

Finalmente, face o descaso e omissão dos titulares da confederação nacional, solicito aos dirigentes de todas as federações estaduais de remo, o apoio e a solidariedade a estes bravos que vem lutando para que se construa no Estádio de Remo da Lagoa um legado para as próximas gerações do remo brasileiro. Se aqui, no epicentro do problema não se conseguir nada, imaginem que importância vão nos dar aos pleitos justos e devidos em centros menos desenvolvidos. Pelo andar do barco se dependermos dos dirigentes da confederação nacional nem um mero banquinho de sentar vamos conseguir pelo Brasil afora, para organizar e assistir as regatas em nossos mares, enseadas, rios , lagos e lagoas.

[Rafael Barberena, Rio de Janeiro RJ]