De: Aldo Paviani
Data: Monday, February 05, 2007 6:57 PM
Assunto: Comentário ao artigo “Uma implosão em Brasília”, de autoria do Prof. Frederico Flósculo Pinheiro Barreto

A propósito do artigo do arquiteto Frederico Flósculo Pinheiro Barreto a respeito da demolição de esqueleto de hotel, irregularmente construído à beira do lago Paranoá em Brasília, desejo enviar-lhe meus cumprimentos pelo registro do fato de forma crítica e oportuna. De fato, Frederico Flósculo é um atento observador da evolução urbana de Brasília, tanto nos aspectos arquitetônicos quanto nos de ordem sócioespacial. Aproveitou a oportunidade para fazer um paralelo desta com outras célebres “implosões” em outros contextos urbanos. Isso utilizando certa ironia, pois a demolição à margem do lago Paranoá se fez justamente no início de um governo cujo vice-governador é notório “empreendedor imobiliário”.

O fato talvez faça supor alguns ajustes pouco divulgados pela grande imprensa e mídia local e nacional, que sintomaticamente se ateve mais à demolição física do vetusto esqueleto do que o que se passou nos bastidores. Falta uma imprensa investigativa que vá fundo nos porões onde se dão os acertos para além do “os custos da demolição serão pagos pelos donos do hotel”, enquanto fogueteiam que “as despesas de remoção dos escombros serão pagas pelo governo local”. De certo forma, Frederico levanta as suspeitas das tramas de bastidores ao referir a condição do “empreendedor” guindado à cúpula do governo do DF. Figura essa que empreendeu um conjunto habitacional de discutível gosto e oportunidade ambiental, justamente na outra banda do lago, no lado oposto do esqueleto demolido. Esse conjunto, diga-se abre largas páginas de propaganda nos jornais locais enaltecendo o “sucesso das vendas” e anunciando as etapas em andamento das fileiras de apartamentos – não muito distantes do Palácio Alvorada, este sim com inigualável assinatura de Niemayer.

Voltando à crítica de Frederico Flósculo, vale ressaltar as farpas que dirigiu ao atual governador, antes de o ser, ou melhor, quando era secretário de seu antecessor e que nada fez para obstar a pletora de centenas de condomínios irregulares ou ilegais (parênteses para discordar do bom colega que referiu “uma dúzia de bem-sucedidos loteamentos clandestinos”, quando estão tão evidentes até em “noite de Lua Nova”, quanto mais à bela e resplandecente luz do dia brasiliense). Igualmente bem colocada a crítica à grilagem “consentida”, uma praga no DF e uma violência contra a terra pública que se pensava ser “de reserva para as futuras gerações”, como referi em nossa coletânea que tratou da violência urbana em Brasília. Cita Frederico umas tantas demolições na agenda governamental, inclusive de barracos de ocupantes pobres, talvez para limpar o terreno para futuros empreendimentos imobiliários.

Resta saber até que ponto os pobres deverão pagar tributo à omissão dos governos (todos eles!) que não agendaram um programa de habitações populares de longa duração e com base em estudos sobre as necessidades sociais por habitação – não necessariamente com lotes “doados”, nem com o padrão vigente de “uma família, um lote; um lote, uma família” que amplia desnecessariamente “polinucleamento urbano” do DF. Um programa habitacional bem conduzido socialmente evitaria que as famílias pobres fossem “erradicadas” como ervas daninhas, nem fossem consideradas “invasoras”, quando na realidade são ocupantes de terras de outrem por falta de opção. Penso ter sido procedente a sugestão do arquiteto, também crítica, dirigida à Academia, muitas vezes omissa, quando não conivente com ações governamentais predadoras da terra pública ou mesmo do marco arquitetônico tão festejado aqui e em outros quadrantes geográficos.

Por fim, caberia dar o exemplo do gigantesco empreendimento Água Claras, um paliteiro de edifícios com cerca de 20 andares, ocupando o que teria sido uma outra opção – a de descentralizar serviços e atividades que necessariamente não deveriam ser implantados no já congestionado Plano Piloto, o centro da metrópole brasiliense. A mudança do projeto inicial, de 1983, para o que se desenvolve atualmente se fez sem grande alarde. Quer dizer, a demolição do esqueleto de hotel foi precedida de outras “demolições”, como a do projeto inicial para Águas Claras. Admito que outros arquitetos, urbanos e, porque não, geógrafos possam seguir os passos de Frederico Flósculo no sentido de colaborar criticamente com um outro modo de construir Brasília.

[Aldo Paviani, geógrafo e pesquisador associado da UnB, Brasília DF]