| De:
Frederico Flósculo Pinheiro Barreto
Data: Friday, June 08, 2007 6:54 PM
Assunto: Resposta a Antônio Menezes Júnior
Prezado Antônio Menzes
Júnior:
Não sei o que você
significa por "parcimônia", mas eu lhe asseguro que
fui parcimonioso no comentário sobre os descaminhos da escola
de arquitetura da UnB. Estamos em tempo de "defesas colegiadas
e corporativas", mas é justamente nesse tempo que devemos
atacar esses "colegiados de colegas" que deveriam fazer um
trabalho relevante para as nossas cidades - e que não fazem.
Aceita o desafio?
No caso de Brasília
é impressionante a falta de combatividade da principal escola
de arquitetura, aquela "fundada por Oscar Niemeyer", aquela
que vive de um passado mitológico e não consegue sair
dele - causa de muita miséria intelectual por aqui. Os problemas
da cidade não são discutidos na nossa escola, o nosso
ambiente intelectual não é, a meu ver, um ambiente de
compromisso com a Cidade.
Claro que não são
apenas "teorias" que estão na raiz dessa apatia, mas
as pessoas que as encarnam.
As pessoas agem a partir do
que pensam. Se não pensamos a cidade, não agimos sobre
a cidade. No caso de Brasília, "todo mundo já agiu"
- especialmente nesses anos da Era Roriz -, e sua escola pública
de arquitetura nem sequer sabe contar a História da Grande Era.
Há várias coincidências a considerar, que nos forçaram
a chegar à situação atual, de impotência
diante das forças vivas que estão a modelar a Cidade.
Examine a "sintaxe",
que você defende, Júnior. Ela está na raiz do atual
"apartheid" que a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da
UnB construiu com o resto da Universidade, nas últimas duas décadas.
Não há mais, no momento, o convívio com os geógrafos,
com os antropólogos, com os economistas, com os sociólogos,
com os historiadores, com os ambientalistas, como havia à época
da criação do programa de pós-graduação
(uma outra época, décadas passadas). O próprio
curso de graduação se introverteu, ensimesmou-se, se encolheu
e isolou-se a um ponto de praticamente não haver quase nenhum
contato com outras áreas acadêmicas. Os estudantes que
o digam.
O irônico, em minha crítica
e na situação por que vivemos, é que justamente
essa nova e promissora "ciência do contato" está
associada a esse isolamento político e acadêmico. Da sintaxe
ao solecismo.
Especialmente a "sintaxe"
- como teoria e movimento pensante - passou a significar um tipo de
abordagem pretensamente auto-suficiente, que tirou a FAUUnB totalmente
dos trilhos, e até hoje não conseguimos rearticular a
Escola com a Cidade. Essa articulação é essencialmente
política. A sintaxe, como tem se apresentado, nada tem a ver
com política - por mais que os seus pensadores de gabinete berrem
o contrário, ninguém os ouve desde suas torrezinhas de
marfim. Claro, minha visão é muito específica,
e se centra no modo como política acadêmica (da arquitetura
e do urbanismo, e a partir de sua escola pública) e política
urbana têm se desencontrado completamente em Brasília.
Pior, a sintaxe como teoria
"da grande rede urbana", é no mínimo, intrigante.
Ela pretende explicar a cidade de um modo autônomo, como uma espécie
de matemática que media o campo das relações sociais
e das morfologias. Até aí a maravilha das maravilhas.
Mas olhe bem de perto. Suas palavras-chave parecem atraentes, mas eu
pergunto a você: onde estão os SOCIÓLOGOS que deveriam
estar a estudar conosco esse abrangente, desafiador paradigma sintático
? Quem completa a explicação necessária à
sintaxe no campo da explicação dos fenômenos sociais
? Quem ? Os próprios arquitetos-sintáticos ?
Onde estão os demais
cientistas sociais (Geógrafos, Economistas, Antropólogos,
Cientistas Políticos, Historiadores, etc) ?
Não há convívio
entre essa "nova ciência" e as ciências sociais,
pelo menos na versão que levou a nossa escola ao atual isolamento.
Nisso a sintaxe revelou-se poderosa, aproveitando a nossa proverbial
fraqueza interdisciplinar. Disciplinarmente, é um malogro, mas
é uma forma bem-sucedida de paralisia intelectual, no caso da
FAUUnB, até agora. Não consigo entender - e admitir -
essa completa contradição entre discurso e prática.
Há teorias que surgem com atraso, crescem com atraso, e só
atrasam outros adventos. Esse me parece o caso da sintaxe, na forma
como tem se apresentado.
Claro, há uma outra
sociologia em jogo: a da periferização de teorias que
são construídas em outros contextos, em outros desenvolvimentos
disciplinares. Nenhuma dessas teorias é realmente desconcertante
se nós as colocarmos em perpectiva, caras-pálidas: como
é que elas entram em "nossa" história, e qual
é mesmo a "história" delas ? As pessoas parecem
esquecer essa importante condição para o debate "na
periferia". As conseqüências dessas importações-de-idéias
descontextualizadas, "para o Hillier ver", são negativas:
"teu progresso, my brother, está me atrasando, ficou no
caminho, ficou pesado, não foi bem entendido". Por isso,
vamos devagar, que há contas a acertar.
Que venham os sintáticos
explicar a sua missão no mundo !
Quanto à "generosidade"
que você diz me faltar: vamos trazer de volta ao debate da arquitetura
e urbanismo a crítica das ciências sociais, a presença
dos estudiosos de outros modos de ver a cidade. Vamos trazer para a
escola o debate urbano, buscando contribuir para a cidadania - e não
para a tecnocracia. A tecnocrática gestão urbana do Distrito
Federal, a bem da verdade, ainda não viu utilidade para a sintaxe
em suas metodologias. Ainda. Deveria ver, e sairia da década
de 1950 direto para a década de 1980, para ser "generoso".
Uma dia chega mais perto dos dias atuais.
Mas (esse é o meu ponto
no artigo) com o debate urbano empobrecido, a tecnocracia sempre vence,
hegemônica em sua especial versão de "cidadania",
de "cidade democrática".
Com a atenção
de Frederico Flósculo
[Frederico Flósculo
Pinheiro Barreto é autor do artigo que origina este fórum
de debates]
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