De: Luciano Pita
Data: Friday, November 02, 2007 11:10 PM
Assunto: Minha Cidade 177 – fevereiro 2007 - Opinião

A Questão da habitação não tem solução no contexto capitalista. O Edifício Prestes Maia é um entre tantos edifícios públicos ocupados por sem-tetos. E a tendência, no sistema excludente e opressor que vivemos, é o aumento exponencial de pessoas desempregadas e sem-teto. Os países desenvolvidos têm tido um aumento gradual de sem-tetos e de pessoas despejadas, de mendigos e moradores de rua. Existem estudos que mostram famílias que vivem há 4 gerações na rua, na Inglaterra, nos Estados Unidos e na França. Também catástrofes naturais têm tido o papel desagradável de expor ainda mais o grau de abandono e pobreza, tanto das pessoas quanto da infr-aestrutura montada no pós-guerra (a "Era de Ouro", como a designou Eric Hobsbawn), nestes países.

Aqui, em nosso mundo subdesenvolvido-exportador-de-matéria-prima para os ricos e quintal do FMI, da OMC e do Banco Mundial, a situação apenas aumenta o volume, pois políticas habitacionais substanciais nunca tivemos mesmo.
Quanto ao envolvimento de CREAs, IABs e demais órgão extra-oficiais, estão ocupados demais preparando coquetéis, reuniões e concursos arquitetônicos para se envolverem nestas questões que não geram lucro nem renda. O CREA no Rio de Janeiro praticamente rasteja atrás dos empresários e investimentos industriais privados, e creio que em São Paulo a coisa não deva ser diferente.

Finalmente, existe aquestão agrária brasileira, que tem reflexos diretos no inchaço das cidades, na criminalidade, no número de sem-tetos e sem-terras, na má-qualidade da vida de milhões de brasileiros. Tentar discutir a questão agrária com um estudante de arquitetura e urbanismo brasileiro é como querer conversar em latim com um japonês. A simples diferença entre questão agrária e questão agrícola é quase que desconhecida da totalidade destes estudantes (e também profissionais), o que dificulta ainda mais o debate. Por que quase a metade da população do país vive em favelas ou em condições precárias? Por que querem? Por que são preguiçosos? Por que não tiveram competência? Por que são perdedores? São perguntas, mas tornam-se respostas na mente de muitas pessoas. Reflexo direto do tal consenso de Washington que o texto cita! Argumentarão alguns que economia não diz respeito a arquitetos e urbanistas. E eu lamento. Mas somente uma mudança radical no sistema de produção e de comercialização das mercadorias poderia representar uma solução efetiva para o problema da habitação Uma mudança que, antes, passa pelo viés político, pois a questão da habitação é uma questão política, e não arquitetônica e urbanística.

Da mesma forma que muitos bancos e empresas dizem investir no meio-ambiente e no social, enquanto na outra ponta demitem dezenas ou centenas de funcionários (Philips, Bradesco, itaú, etc), quando vêm seus lucros ameaçados pela concorrência, o mesmo acontece com as propagadas soluções para a questão no contexto capitalista: apenas maqueiam e disfarçam hipocritamente o problema. A questão da habitação, repito, é uma questão política e não técnica ou econômica. Não depende do cidadão comum a solução dela, mas sim passa por uma saída coletiva, de luta e política. Revolucionária, antes de tudo, eu diria.

[Luciano Pita, arquiteto, São Paulo SP]