De: Abilio Guerra
Data:
Thursday, March 01, 2007 12:54 AM
Assunto:
Resposta ao Sr. Benito Campos

Prezado Sr. Benito Campos,

Fiquei muito surpreso com sua capacidade de ler nas "entrelinhas". O senhor conseguiu ler praticamente tudo diferente do que está escrito, quando não lê justamente ao contrário! Eu comento objetivamente que o rio estava barrento e o senhor entende que estou fazendo uma crítica ecológica. Eu digo que as músicas tem alusões engraçadas e chulas e o senhor só lê o "chula" e imagina que fiquei arrepiado e que sou um moralista. Eu falo que os músicos são muito jovens e o senhor entende que eu acho que a juventude é uma doença (e olha que sou razoavelmente jovem, ao ponto de ir dançar nas ruas de sua cidade). Eu comento que o carnaval de sua cidade não é uma sobrevivência cultural mas sim um resgate histórico das antigas marchinhas e o senhor fica em dúvida aonde exatamente estou ofendendo o Sr. e seus conterrâneos.

Caro Sr. Benito Campos, todas as observações críticas que faço são devidamente endereçadas: ao poder político local, que monta uma festa que inferniza a vida dos moradores e turistas; à imprensa que publica textos precários com referências "cultas" ao nosso maior intelectual vivo, o professor Antonio Candido; aos agentes imobiliários, que lucram como nunca em cima do desconforto da gente pobre; aos proprietários de uma maravilha ecológica que não cuidam da mesma, etc. e etc. Só faço duas menções genéricas à comunidade local:

1) quando afirmo que não é formada por caipiras (daí a referência aos elementos urbanos da modernidade, igualzinho a qualquer cidade brasileira, grande ou pequena), ao contrário do que diz o texto da revista local;

2) quando digo, no último parágrafo, que os jovens visitantes acabam aprendendo involuntariamente algo da verdadeira tradição da vida caipira: "tomar a fresca depois do jantar. Sem televisão, sem pressa, sem angústia" (em aparente contradição com a afirmação anterior, mas acho que não é muito difícil entender que qualquer um, até um morador da metrópole, pode ter em si resquícios do passado; eu mesmo, que me criei no interior, fiquei muito saudoso de sentar na calçada e me refastelei sentando no meio fio todos os inícios de noite).

Ora, parece que são referências que passam longe de uma visão desmerecedora da população local. Curiosamente, o senhor passa ao largo do que é fundamental no texto (que não está preocupado com origens etimológicas, tanto que usei das referências de sua própria cidade e as citei devidamente), em especial dois aspectos:

1) a evidente falta de sustentabilidade do carnaval em São Luiz do Paraitinga (cultural, urbano, econômico e ecológico), que gerará, caso não sejam corrigidos os vários problemas atuais, problemas ainda mais graves à população local em futuro próximo;

2) a incapacidade dos jovens de outras cidades de interagir com a cidade, demonstrando uma alarmante incapacidade psicológica, anímica e racional e olhar com respeito para a diferença; a boa índole da maioria não desculpa o fato de ficarem se embebedando o tempo todo e incomodando os moradores em locais e horários inapropriados;

Prezado Sr. Benito Campos, eu só usei algumas horas da minha vida para escrever o artigo em questão por ter gostado muito de sua cidade. É uma pena que que o senhor não tenha lido o meu texto com mais atenção (é bem provável que ele não mereça isso, por sua falta de qualidade como crítica e como literatura). Contudo, o senhor me proibe de usar "fundamentações academicistas", mas faz questão de fazer diversas alusões cultas, demonstrando sua inteligência e conhecimentos sobre a cultura local. Esta parte do seu texto eu gostei muito e agradeço pelas informações. Quanto aos comentários ao meu texto (o chão de Sancho Pança), só posso comentar que o senhor não chegou nem perto dele, preferindo as entrelinhas (as imagens visionárias de Don Quixote), que – evidentemente – não são de minha autoria.

Um abraço e muito grato por sua atenção.

[Abilio Guerra, editor do Portal Vitruvius, é autor do artigo que origina esse fórum de debates]